Calendário eleitoral limita projeções para a Selic em 2026
A proximidade das eleições presidenciais adiciona uma camada de incerteza às previsões para juros no Brasil. Gestores já precificam cenários alternativos que vão muito além da inflação.
A cada ciclo eleitoral brasileiro, o mesmo fenômeno se repete: a política monetária passa a ser contaminada por expectativas que vão muito além de dados econômicos. Em 2026, com eleições presidenciais marcadas para outubro, esse efeito já começou a se manifestar. Gestores e economistas adotam tom de cautela incomum para um momento em que os dados de inflação, isoladamente, poderiam sugerir mais clareza sobre a trajetória da Selic.
O IPCA acumulado em 12 meses está na casa de 5,5%, acima do teto da meta de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual. A Selic segue em 14,75% ao ano, nível que impõe custo significativo à atividade econômica. Em condições normais, o debate seria técnico: quando e em que velocidade o Banco Central poderia começar a reduzir juros. Mas 2026 não oferece condições normais.
O que muda no cenário com as eleições no horizonte
O problema central é a incerteza fiscal. Em anos eleitorais, governos historicamente ampliam gastos para fortalecer suas chances de reeleição ou transferência de poder. O governo atual não é exceção. O pacote de medidas anunciado no primeiro semestre, incluindo reajuste do salário mínimo acima da inflação e ampliação de programas sociais, já pressiona as contas públicas.
Segundo dados do Tesouro Nacional, a dívida bruta do governo geral alcançou 78,3% do PIB, maior patamar desde 2021. A trajetória ascendente preocupa porque reduz a margem de manobra do governo e aumenta o prêmio de risco exigido por investidores para carregar títulos brasileiros de longo prazo.
Para o Banco Central, isso cria um dilema. Mesmo que a inflação corrente justifique manutenção ou até corte de juros no segundo semestre, a dinâmica fiscal deteriorada pode impedir o início de um ciclo de afrouxamento. Gabriel Galípolo, presidente do BC, tem reforçado em discursos que a autoridade monetária vai reagir aos dados, não a pressões políticas. Mas a credibilidade dessa mensagem será testada à medida que outubro se aproximar.
Como gestores estão se posicionando
Uma pesquisa recente da XP com 42 gestoras de fundos multimercado revelou que 67% dos respondentes consideram o cenário fiscal como o principal risco para alocação no segundo semestre. A inflação apareceu em segundo lugar, com 21%, seguida pelo cenário externo, com 12%.
Na prática, isso se traduz em posições mais defensivas. Fundos têm alongado posições em NTN-Bs, os títulos indexados à inflação, como proteção contra uma eventual deterioração das expectativas. Ao mesmo tempo, a demanda por dólar como hedge aumentou, com o câmbio se mantendo na faixa de R$ 5,60 a R$ 5,80 apesar de um diferencial de juros historicamente favorável ao real.
O mercado de juros futuros conta uma história semelhante. Os contratos de DI com vencimento em janeiro de 2027 embutem uma Selic de 13,5% ao final do próximo ano, sugerindo que o mercado espera cortes, porém de forma muito gradual e dependente de sinalizações fiscais concretas.
O peso da experiência histórica nos ciclos eleitorais
O Brasil já passou por situações análogas. Em 2014, o Banco Central manteve a Selic em 11% durante boa parte do ano eleitoral, apesar de sinais claros de desaceleração econômica. A decisão de não cortar juros naquele momento foi motivada, em parte, pela percepção de que o governo Dilma Rousseff estava afrouxando a política fiscal de forma insustentável.
Em 2018, o cenário foi diferente. A incerteza sobre o resultado eleitoral levou a uma alta do dólar para R$ 4,20, mas o BC de Ilan Goldfajn manteve a Selic estável em 6,5%, confiando que a inflação estava ancorada. A aposta se mostrou correta, mas o contexto fiscal era significativamente menos pressionado do que o atual.
A lição que gestores extraem desses episódios, como discutimos em análises anteriores sobre o ciclo de juros, é que anos eleitorais amplificam volatilidade e prêmios de risco independentemente dos fundamentos macroeconômicos. O investidor que ignora essa dinâmica tende a ser pego de surpresa.
E daí: o que isso significa para quem investe
Para o investidor pessoa física, o cenário atual sugere que a renda fixa pós-fixada segue como a opção mais segura para o curto prazo. Com a Selic a 14,75%, o CDI entrega retorno real de mais de 9% ao ano, sem risco de mercado. Essa é uma remuneração extraordinária em qualquer comparação histórica.
Para quem aceita mais risco e tem horizonte maior, os títulos IPCA+ com vencimento a partir de 2030 oferecem taxas reais acima de 7%, níveis que historicamente precederam ganhos expressivos quando os juros eventualmente caíram. O risco é que, em cenário de piora fiscal, esses títulos podem sofrer marcação a mercado negativa no curto prazo.
Em termos de alocação internacional, o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos segue historicamente alto, mas o risco político doméstico compensa parte desse prêmio. A diversificação geográfica, que já faz sentido estruturalmente, ganha importância tática em semestres eleitorais.
A verdade é que o mercado financeiro brasileiro vai conviver com essa névoa até outubro de 2026. Não porque os dados econômicos sejam ruins, mas porque eleições redistribuem incertezas de maneiras que modelos econométricos não capturam. Para o investidor, a postura mais inteligente é reconhecer essa limitação e construir portfólios que resistam a cenários que ninguém consegue prever com precisão.