Finanças

Braskem entra em recuperação extrajudicial com R$ 54 bi em dívida

Petroquímica consegue adesão de mais de um terço dos credores e afasta risco de recuperação judicial. Agora começa a disputa sobre quem paga a conta.

Braskem entra em recuperação extrajudicial com R$ 54 bi em dívida
Foto: Tom Fisk / Unsplash

A Braskem deu o passo que o mercado esperava, mas que ninguém queria ver: protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida de aproximadamente R$ 54 bilhões. O movimento compra 90 dias de proteção contra execuções e afasta, ao menos temporariamente, o fantasma de uma recuperação judicial.

A medida cautelar anterior, que suspendia execuções de dívida por 60 dias, vencia nesta data. A RE veio como solução de compromisso entre partes que não conseguiram fechar um plano definitivo a tempo, mas que também não queriam escalar o conflito para uma RJ.

A adesão de mais de um terço dos credores, requisito legal mínimo para viabilizar a proteção, foi alcançada. Mas o número não deve ser confundido com consenso. O que existe, por enquanto, é um entendimento frágil de que negociar é melhor do que litigar.

A disputa entre credores: quem paga a conta da Braskem?

A composição do passivo da Braskem já antecipa a complexidade da reestruturação. Cerca de 65% da dívida está nas mãos de bondholders, detentores de títulos de dívida emitidos no mercado internacional. O restante pertence a bancos estrangeiros. São dois grupos com interesses distintos e capacidade de pressão desigual.

Os bancos, segundo fontes próximas às negociações, defendem um modelo mais conservador: alongamento dos prazos de vencimento, sem necessariamente injetar capital novo na companhia. Chegaram a questionar, inclusive, se a Braskem realmente precisa de uma grande capitalização.

Do outro lado, fundos especializados em ativos estressados, como Contrarian e Elliott, já conhecidos por seu estilo agressivo em reestruturações corporativas, pressionam por uma capitalização de até US$ 4 bilhões. Querem participação da Petrobras no aporte, mais garantias reais e conversão de parte da dívida em ações, o que diluiria os atuais acionistas.

A distância entre as propostas é significativa. E nenhuma das partes saiu plenamente satisfeita do acordo que viabilizou a RE.

O papel da Petrobras e da IG4 na equação

A Petrobras, maior acionista da Braskem ao lado da IG4, não está confortável com a ideia de colocar dinheiro novo. Mas aceitou incluir a possibilidade de um eventual aumento de capital no arcabouço da negociação. Em termos práticos, isso significa que a petroleira não se comprometeu com nada, apenas concordou em não fechar a porta.

Os credores queriam um compromisso firme e imediato de capitalização. Conseguiram apenas a promessa de que o tema será discutido no plano definitivo. É uma concessão mínima, mas suficiente para manter as partes na mesa.

Uma das alternativas em discussão prevê separar os problemas em etapas: primeiro, alongar a dívida para aliviar o fluxo de caixa; depois, caso se confirme a necessidade, deliberar sobre uma capitalização com maior visibilidade sobre a real situação financeira da companhia.

A estratégia faz sentido do ponto de vista da Braskem e seus controladores. Mas para os fundos de distressed, que compraram títulos de dívida com grande deságio justamente apostando numa reestruturação profunda, o alongamento puro pode ser insuficiente. Esses fundos ganham mais dinheiro quando há conversão de dívida em equity, porque passam de credores a acionistas de uma empresa saneada.

Braskem Idesa: a operação mexicana adiciona pressão

O timing da RE não é casual. Dias antes, a Braskem Idesa, joint venture da companhia com o grupo mexicano Idesa, entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos. Diferente da controladora brasileira, a subsidiária já chegou ao processo com um acordo de reestruturação costurado.

O plano prevê reduzir a dívida sênior da Braskem Idesa de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão. A Braskem se comprometeu a aportar US$ 476 milhões na operação e continuará como acionista majoritária. O problema é que esse compromisso de quase meio bilhão de dólares compete diretamente com os recursos que os credores da holding brasileira consideram seus.

Como financiar o aporte na subsidiária mexicana sem prejudicar os credores da Braskem é uma das questões centrais dos próximos 90 dias. É o tipo de conflito que transforma reestruturações corporativas em batalhas prolongadas.

O que os números dizem sobre a Braskem hoje

As ações da Braskem acumulam queda de 42% nos últimos 12 meses. A empresa vale R$ 3,6 bilhões na bolsa, uma fração da dívida que precisa reestruturar. Quando o valor de mercado de uma companhia equivale a menos de 7% do seu passivo financeiro, a mensagem é clara: o mercado precifica uma diluição severa dos acionistas atuais.

A petroquímica está sendo assessorada por Lazard, BR Partners e RK no lado financeiro, com suporte jurídico de E.Munhoz e Cleary Gottlieb. A IG4 conta com o Pinheiro Neto, e a Petrobras com o Demarest. A quantidade e o calibre dos assessores envolvidos reflete a escala do problema.

Para o investidor que acompanha o setor petroquímico ou que tem exposição a papéis de empresas em situação de estresse financeiro, o caso Braskem é um estudo em tempo real de como diferentes classes de credores disputam valor em uma reestruturação. Os quatro pontos em aberto, necessidade de capital novo, conversão de dívida em ações, garantias e alongamento, são variáveis que vão definir quem ganha e quem perde nessa história.

Os 90 dias de proteção começaram a contar. E o relógio, como sempre em processos de reestruturação, trabalha contra quem não se move.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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