Finanças

Bradesco eleva ROE a 16,2% e cresce crédito acima dos rivais

Lucro do Bradesco cresce 16,2% no ano e chega a R$ 7,1 bi. Carteira de crédito avança mais que a de rivais, mas banco alerta para deterioração macro.

Bradesco eleva ROE a 16,2% e cresce crédito acima dos rivais
Foto: Stephen Leonardi / Unsplash

O Bradesco entregou o décimo trimestre consecutivo de expansão no lucro líquido, com R$ 7,1 bilhões no segundo trimestre. O número representa alta de 16,2% na comparação anual e de 3,5% frente ao primeiro trimestre. O retorno sobre o patrimônio (ROE) subiu para 16,2%, contra 14,6% um ano atrás e 15,8% no trimestre anterior.

Nos dias que antecederam o balanço, a ação havia recuado 2,6%, com o mercado precificando risco de números ruins diante da deterioração do cenário macroeconômico. Os resultados mostraram o contrário: receitas dentro do esperado, despesas crescendo abaixo da inflação acumulada em 12 meses e crédito em expansão robusta.

Carteira de crédito cresce mais que Itaú e Santander

O destaque do trimestre foi o ritmo de expansão da carteira de crédito. O crescimento foi de 4,3% no trimestre e 11,6% em 12 meses, acima do registrado por Itaú e Santander no mesmo período. O número também superou o guidance do próprio banco, que projetava expansão entre 8,5% e 10,5% para o ano.

O CEO Marcelo Noronha afirmou que a taxa deve convergir para o topo da projeção até dezembro. O detalhe relevante está na composição: o banco aumentou a participação de empréstimos com garantias no mix. “Nossa carteira está mais colateralizada do que no passado. Não buscamos crescer em empréstimos clean”, disse Noronha na teleconferência com analistas.

Essa estratégia reflete uma postura que outros grandes bancos brasileiros também têm adotado. Como analisamos na cobertura sobre a evolução do setor bancário, a busca por crédito com garantia virou consenso entre as instituições diante do patamar elevado da Selic e da incerteza fiscal.

Inadimplência controlada, mas com sinais de atenção

A inadimplência acima de 90 dias ficou em 4,3% em junho, ante 4,2% em março e 4,1% um ano antes. A margem com clientes avançou 3,6% no trimestre e 13,8% no ano, mostrando que o banco conseguiu repassar o custo do dinheiro caro para o spread.

As provisões subiram 3,3% no trimestre e 22,6% na base anual. A alta se concentrou no segmento massificado, que inclui pessoas físicas e pequenas e médias empresas, enquanto as provisões do atacado caíram. Segundo o diretor de relações com investidores, André Carvalho, parte da pressão vem das linhas garantidas pelos fundos FGI e FGO. Os recursos desses fundos são liberados entre 120 e 180 dias após o crédito ser classificado como inadimplente, e até lá o banco precisa provisionar.

Esse mecanismo também explica a elevação dos créditos em estágio 2, de maior risco, que passaram de 4,9% para 5,5% da carteira total no trimestre. “São pressões localizadas e que não preocupam”, afirmou Carvalho. Houve ainda impacto sazonal negativo no crédito rural.

Banco reconhece deterioração macro e reforça capital

Um ponto que chamou a atenção de analistas foi o fato de o banco destacar, no próprio release de resultados, a deterioração dos riscos macroeconômicos do país. Esse tipo de menção explícita é pouco usual nos comunicados das grandes instituições financeiras. “Ao mesmo tempo, o banco está mais preparado para essa deterioração do que no passado”, comentou um analista de sell side.

Na semana anterior ao balanço, o Bradesco havia anunciado um aumento de capital que pode chegar a R$ 10 bilhões, com piso de R$ 8 bilhões. O timing gerou interpretações de que a instituição estaria se antecipando a um cenário mais adverso nos próximos trimestres.

O índice de capital principal subiu de 10,2% em março para 11,3% em junho. Nos dados pro forma, considerando a totalidade do aumento de capital e a operação da Bradsaúde, o indicador pode alcançar 13,6%. Com esse colchão, o banco resolve a questão de volume de capital, mas analistas apontam que ainda precisa melhorar a qualidade dessa base, consumindo o grande estoque de créditos tributários acumulados.

Bradesco Seguros puxa rentabilidade

A operação de seguros segue sendo um motor de rentabilidade relevante. O Bradesco Seguros lucrou R$ 2,9 bilhões no trimestre, alta de 6,7% frente ao primeiro trimestre e de 28,3% no ano. O ROE da seguradora chegou a 22,8%, acima dos 21,6% do trimestre anterior e dos 21,4% de um ano atrás.

A vertical de seguros historicamente funciona como um amortecedor de ciclo para o banco. Em períodos de crédito mais restritivo, a receita previsível de prêmios e a disciplina de sinistralidade ajudam a sustentar o lucro consolidado. Essa dinâmica ficou evidente nos números deste trimestre, como já discutimos em análises anteriores sobre o papel das seguradoras nos conglomerados bancários.

O que os números significam para o investidor

Nos últimos 12 meses, a ação do Bradesco acumula alta de 15%, contra 33% do Ibovespa. O desconto em relação ao índice reflete o ceticismo que o mercado ainda carrega com a tese de reestruturação do banco. Os resultados do segundo trimestre mostram que a direção é positiva, mas a velocidade de convergência do ROE para patamares mais próximos do Itaú, que opera consistentemente acima de 20%, ainda exige paciência.

O mix de crédito mais conservador, a estrutura de capital reforçada e a seguradora forte são pontos a favor. Do outro lado, a própria menção à deterioração macro no release sugere que os próximos trimestres podem testar a resiliência dessa carteira. O dado de créditos estágio 2, mesmo que justificado pontualmente, merece acompanhamento.

A mensagem do balanço é clara: o Bradesco está crescendo mais rápido que os pares no crédito, mas fazendo isso com colateral. A pergunta que permanece é se essa estratégia será suficiente para manter a inadimplência controlada caso o cenário macro deteriore além do que o banco já antecipa.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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