Bradesco perde fôlego e já soma dois rebaixamentos em uma semana
JPMorgan cortou o preço-alvo do Bradesco de R$ 26 para R$ 18, logo após rebaixamento do Itaú BBA. O cenário para bancos brasileiros ficou mais difícil.
O Bradesco entrou na mira dos grandes bancos de investimento. Em menos de uma semana, a ação preferencial BBDC4 recebeu dois rebaixamentos consecutivos, vindos de dois dos nomes mais influentes do mercado. O movimento sinaliza uma mudança de humor mais ampla sobre o setor bancário brasileiro, que enfrenta ventos contrários no horizonte de 2027.
Primeiro veio o Itaú BBA, que cortou sua recomendação de compra para neutra e reduziu o preço-alvo para R$ 20. Dias depois, o JPMorgan seguiu a mesma direção: abandonou a posição overweight (equivalente a compra) e derrubou o alvo de R$ 26 para R$ 18. Uma redução de quase 31%.
Não se trata de um problema isolado do Bradesco. A leitura que emerge desses relatórios é estrutural e diz respeito ao ambiente macroeconômico que se desenha para o próximo ano. Mas o Bradesco, por características específicas de sua carteira, aparece como o mais vulnerável entre os grandes.
Por que o Bradesco está perdendo a preferência dos analistas
O pano de fundo é conhecido: juros elevados, atividade econômica mais fraca e um ciclo de crédito que começa a mostrar sinais de fadiga. O que muda agora é a intensidade com que esses fatores devem afetar o Bradesco especificamente.
O JPMorgan estima que o retorno sobre patrimônio (ROE) do banco recue de cerca de 15% em 2026 para 14% em 2027. O crescimento do lucro líquido seria de apenas 2% no período, alcançando aproximadamente R$ 27,9 bilhões. Para um banco que vinha em trajetória de recuperação gradual, esse cenário representa uma interrupção relevante.
As linhas de crédito que vinham sustentando a expansão da carteira devem perder fôlego. Crédito consignado privado, financiamento de veículos, empréstimos para pequenas e médias empresas via programas governamentais (FGI/FGO) e linhas para grandes companhias: todas enfrentam desaceleração. A projeção é que o crescimento da carteira caia para cerca de 6% nos próximos trimestres. Para quem acompanha a dinâmica do setor financeiro brasileiro, esse número está bem abaixo do que o mercado precificava até pouco tempo atrás.
Margem financeira e inadimplência pressionam os dois lados
O problema para o Bradesco é duplo. De um lado, a margem financeira com clientes (NII) tende a encolher. Volumes menores de crédito e uma postura mais conservadora na concessão significam spreads menores. O JPMorgan já incorporou uma redução de 10 pontos-base na margem financeira dos clientes em suas projeções.
Do outro lado, a qualidade dos ativos se deteriora. A expectativa é de aumento da inadimplência tanto em carteiras de pessoas físicas quanto de empresas ao longo de 2027. Os indicadores de atraso no segmento de pessoas físicas seguem em trajetória de alta, mesmo quando ajustados para mudanças recentes nas políticas de baixa contábil de créditos vencidos. Isso significa que o banco precisará provisionar mais, elevando o custo do risco.
Há ainda um componente técnico relevante: a inclinação da curva de juros. Com a estrutura a termo mais íngreme, as receitas de tesouraria ficam pressionadas e surgem impactos negativos sobre patrimônio e capital regulatório. Segundo o relatório, a própria administração do Bradesco indicou que cada aumento de 100 pontos-base nos juros pode gerar perdas próximas de R$ 900 milhões na gestão de ativos e passivos (ALM).
Esse tipo de sensibilidade ao juro é particularmente preocupante no cenário atual. Como discutimos em nossa cobertura sobre o ambiente de juros no Brasil, a política monetária restritiva tende a se prolongar, e os bancos com balanços mais expostos à duration sofrem desproporcionalmente.
O contexto pós-eleitoral pesa sobre todo o setor
Os rebaixamentos não acontecem no vácuo. O mercado recalibra suas expectativas para os bancos brasileiros após as eleições, diante de um cenário fiscal que ainda gera incerteza e de sinalizações de que o crescimento econômico em 2027 será mais modesto do que o observado nos últimos anos.
O Itaú BBA foi direto ao alertar que “a combinação de atividade econômica mais fraca, juros mais elevados e aumento das provisões para perdas com crédito deve limitar os avanços de rentabilidade observados nos últimos trimestres”. Não é um diagnóstico exclusivo do Bradesco, mas o banco aparece como o mais exposto.
A preferência declarada do JPMorgan entre os grandes bancos continua sendo o Itaú Unibanco (ITUB4), descrito como o nome mais preparado para navegar um ambiente mais difícil e potencialmente ganhar participação de mercado. A lógica é simples: em ciclos de crédito adversos, bancos com melhor qualidade de ativos e maior eficiência operacional tendem a se distanciar dos concorrentes.
O que isso significa para quem investe em bancos
Para o investidor que carrega BBDC4 na carteira, o recado é claro: o mercado está reprecificando o banco para um cenário de rentabilidade mais baixa e crescimento mais lento. Com dois dos maiores bancos de investimento em posição neutra, o fluxo comprador institucional tende a diminuir no curto prazo.
Isso não significa que o papel esteja condenado. O Bradesco continua sendo um dos maiores bancos do país, com uma base de clientes gigantesca e capacidade de adaptação. Mas a tese de recuperação acelerada, que animou parte do mercado nos últimos trimestres, perdeu sustentação diante dos dados.
O cenário exige, como apontam os próprios analistas, uma postura mais tática. Para quem está acompanhando as movimentações do mercado financeiro neste momento, a mensagem central é que o setor bancário brasileiro entrou numa fase em que a seletividade importa mais do que a exposição generalizada. Nem todos os bancos vão sofrer na mesma proporção, e entender essas diferenças é o que separa uma carteira bem posicionada de uma que apenas surfa o índice.
O próximo catalisador será a temporada de resultados do terceiro trimestre. Se os números do Bradesco confirmarem a desaceleração antecipada pelos analistas, o ajuste pode continuar. Se surpreenderem positivamente, há espaço para revisão. Mas o ônus da prova, agora, está com o banco.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


