Bitcoin abre o 3º tri em zona de risco: o que dizem os anos de 2018 e 2022
Bitcoin caiu 22% no 1º tri e 14% no 2º tri de 2026. As únicas vezes que isso aconteceu antes foram em dois dos piores anos da história do ativo.
O bitcoin encerrou o primeiro semestre de 2026 com dois trimestres consecutivos de queda. Caiu 22,2% entre janeiro e março e mais 14,09% entre abril e junho, segundo dados da Coinglass. Na abertura do terceiro trimestre, o ativo negociava pouco acima dos US$ 59 mil.
O dado, isolado, já seria preocupante. Mas o que transforma essa estatística em sinal de alerta real é o contexto histórico: o bitcoin só abriu um ano com dois quarters negativos seguidos em duas ocasiões anteriores, 2018 e 2022. Ambas figuram entre os piores anos da história do ativo.
A pergunta que o mercado precisa responder agora é se 2026 pertence a essa mesma categoria ou se os fundamentos são diferentes o bastante para evitar uma repetição.
O que aconteceu em 2018 e 2022 após um primeiro semestre fraco
Em 2018, após um primeiro semestre de perdas, o terceiro trimestre conseguiu um ganho tímido de 3,6%. Parecia que o pior havia passado. Não havia. O quarto trimestre desabou 42%, destruindo qualquer esperança de recuperação. O ano foi marcado pelo estouro da bolha de ICOs (ofertas iniciais de moedas), que havia inflado preços artificialmente ao longo de 2017.
Em 2022, o roteiro foi parecido. O terceiro trimestre caiu 2,6% e o quarto recuou quase 15%. Naquele ano, o colapso da stablecoin Terra e a falência da exchange FTX definiram o tom. Foram crises estruturais, não correções passageiras.
O padrão sazonal do bitcoin normalmente funciona ao contrário. Historicamente, o quarto trimestre é o mais forte do ativo, com ganho médio de 77% e mediana próxima de 48%, segundo dados compilados ao longo de toda a existência da criptomoeda. É o período que repetidamente salvou anos mediocres. Já o terceiro trimestre costuma ser o mais fraco, frequentemente lateral.
Em 2018 e 2022, essa sazonalidade falhou. O bear market estrutural se sobrepôs ao calendário. O quarto trimestre, que deveria ser o melhor, se tornou um dos piores. É exatamente essa a preocupação para quem olha o cenário atual, como já discutimos em nossa cobertura sobre ciclos do mercado cripto.
Os fatores que pressionam o bitcoin em 2026
Uma amostra de dois anos é pequena, e ambos os precedentes foram detonados por colapsos específicos que não têm equivalente direto hoje. Não há uma FTX prestes a implodir, nem um ecossistema de ICOs em decomposição. Mas o fato de que as únicas vezes em que o bitcoin abriu um ano tão mal foram sintomas de problemas estruturais, e não de quedas passageiras, merece atenção.
Os vetores de pressão em 2026 são diferentes, porém persistentes. Os ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram saídas recordes ao longo do último mês. Isso é relevante porque os ETFs foram o grande motor de demanda institucional desde sua aprovação, e uma reversão de fluxo indica que o apetite por exposição ao ativo diminuiu entre grandes alocadores.
Paralelamente, o número de usuários ativos on-chain permanece próximo da faixa mais baixa do seu intervalo histórico. Menos gente usando a rede sugere que a adoção real não está acompanhando a narrativa de valorização. É um dado que complementa a análise de métricas on-chain como indicadores de saúde do mercado.
Enquanto isso, capital tem migrado de forma consistente para ações de inteligência artificial. O setor de IA acaba de registrar seu melhor trimestre em anos, exatamente no período em que cripto caiu. Não é coincidência: em momentos de incerteza, investidores preferem teses com geração de receita visível a ativos de risco puro.
Dólar forte e iene fraco adicionam pressão macro
Além dos fatores específicos do mercado cripto, o cenário macroeconômico também joga contra. O dólar americano segue fortalecido, impulsionado nesta semana pela queda do iene japonês ao menor nível em 40 anos. Um dólar forte historicamente pressiona ativos denominados na moeda americana, e o bitcoin não é exceção.
O analista Alex Kuptsikevich, da FxPro, apontou US$ 40 mil como o próximo suporte relevante caso o patamar atual ceda. É uma queda de mais de 30% em relação aos níveis atuais, mas não seria inédita em bear markets anteriores do ativo.
O terceiro trimestre abriu com ganho modesto de cerca de 1%, insuficiente para alterar qualquer tendência. A questão segue em aberto. Esse ponto se conecta diretamente ao impacto do câmbio sobre os criptoativos, tema que exploramos em análises anteriores.
Por que isso importa para quem investe
A tentação é olhar para dois precedentes e concluir que o desastre é inevitável. Não é assim que análise funciona. Uma amostra de dois não prova nada estatisticamente. Mas ela levanta uma hipótese que precisa ser testada: quando o bitcoin abre um ano com essa fraqueza, o problema costuma ser estrutural.
O investidor que acompanha o mercado precisa distinguir entre uma correção saudável dentro de um ciclo de alta e uma mudança de regime. Os sinais disponíveis hoje, saída de capital institucional via ETFs, atividade on-chain deprimida, rotação para IA e dólar forte, apontam mais para a segunda hipótese do que para a primeira.
Isso não significa que o bitcoin vai necessariamente repetir 2018 ou 2022. Significa que a tese de que “o quarto trimestre sempre salva” precisa ser questionada quando o contexto muda. Nos únicos dois anos em que o primeiro semestre foi tão ruim, a sazonalidade favorável do fim de ano simplesmente não apareceu.
O terceiro trimestre de 2026 será o teste. Se os fluxos de ETF se estabilizarem, a atividade on-chain recuperar e o dólar arrefecer, há espaço para que este ano se diferencie dos precedentes. Caso contrário, a comparação com 2018 e 2022 ganha força a cada semana que passa.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.