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Finanças

Bitcoin e ouro recuam com dólar forte: o que esperar

Dólar firme pressiona bitcoin e ouro enquanto mercado espera dado de inflação dos EUA na quarta-feira. Entenda o que está em jogo para seus investimentos.

Bitcoin e ouro recuam com dólar forte: o que esperar
Foto: olia danilevich / Unsplash

A semana começou com cautela nos mercados globais. O bitcoin opera logo acima dos US$ 83 mil, enquanto o ouro recuou para cerca de US$ 4.180 a onça. Os dois ativos cedem aproximadamente 0,5%, pressionados por um dólar que segue firme, com o índice DXY acima de 102,4 pontos. O cenário reflete uma espera coletiva: o dado de inflação dos EUA, previsto para quarta-feira, pode definir o rumo dos próximos movimentos.

O mercado projeta uma inflação anual de núcleo (core CPI) em 2,5%, enquanto o índice cheio deve marcar 3,7%. Se confirmado, seria uma reaceleração em relação ao mês anterior. Para quem acompanha ativos de risco, como criptomoedas e ações de tecnologia, isso importa diretamente: inflação acima do esperado reduz as chances de cortes de juros pelo Federal Reserve no curto prazo.

Por que o dólar forte pressiona bitcoin e ouro ao mesmo tempo

Existe uma relação inversa bem documentada entre o dólar e ativos como bitcoin e ouro. Quando o DXY sobe, investidores globais tendem a migrar para posições em moeda americana, reduzindo a demanda por ativos alternativos. Não é coincidência que ambos estejam recuando no mesmo momento.

A dinâmica ganha relevância extra quando combinada com o comportamento dos títulos do Tesouro americano. Os yields das Treasuries voltaram a subir nesta segunda-feira, após uma breve recuperação na segunda metade da semana passada, quando o ETF TLT (de Treasuries de longo prazo) chegou a avançar mais de 2%. Yields em alta significam preços de títulos em queda, o que sinaliza que o mercado está reavaliando o cenário de juros.

No mercado de commodities, o petróleo WTI opera em leve alta, acima de US$ 92 o barril, adicionando pressão inflacionária ao cenário. Petróleo caro encarece cadeias de suprimentos, o que pode se refletir nos próximos dados de preços ao consumidor.

Strategy e Bitmine: gigantes seguem comprando na baixa

Enquanto o mercado hesita, as grandes tesourarias corporativas em cripto seguem acumulando. A Strategy (antiga MicroStrategy) adquiriu 250 bitcoins na semana passada por US$ 21,5 milhões, a um preço médio de US$ 86.194 por unidade. Com isso, a empresa detém 848.250 BTC, acumulados a um custo total de aproximadamente US$ 64 bilhões, com preço médio de US$ 75.444 por bitcoin.

A compra foi financiada com US$ 21 milhões obtidos pela venda de 125.183 ações MSTR via programa de oferta no mercado (ATM), além de US$ 500 mil do caixa. Em paralelo, a Strategy recomprou cerca de 1,93 milhão de ações preferenciais STRC, gastando US$ 192,4 milhões. A ação MSTR subia 1% no pré-mercado.

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Do lado do Ethereum, a Bitmine comprou mais 12.532 ETH na última semana, movimentando cerca de US$ 32 milhões a um preço de US$ 2.536 por unidade. A empresa agora detém 6.028.946 ETH, equivalentes a aproximadamente US$ 15,3 bilhões e representando cerca de 4,9% de toda a oferta em circulação do ativo. Segundo o presidente Tom Lee, a empresa está a poucas semanas de encerrar seu programa de compras ao atingir a meta de deter 5% do supply total de ether. Como analisamos em nossa cobertura de finanças, esses movimentos institucionais costumam sinalizar convicção de longo prazo, independentemente da volatilidade de curto prazo.

Ações de IA e mineração: pressão se espalha além do cripto

A cautela não se limita às criptomoedas. Ações ligadas a inteligência artificial e infraestrutura de dados também sofrem. A Micron Technology (MU) recuou 4%, caindo abaixo de US$ 1.000 pela primeira vez desde meados de setembro. A SanDisk (SNDK) cedeu 6%.

Mineradoras de bitcoin que expandiram suas operações para infraestrutura de IA também devolveram ganhos. Cipher Digital (CIFR), Bitdeer (BTDR) e HIVE Digital Technologies recuaram cerca de 3% cada. O movimento sugere que o mercado está reavaliando múltiplos de empresas que se posicionaram na interseção entre cripto e inteligência artificial.

Na contramão, a IREN, que migrou de mineração de bitcoin para infraestrutura de IA, subiu 4% no pré-mercado após garantir um contrato plurianual de serviços em nuvem com a Anthropic, desenvolvedora do Claude. A divergência entre IREN e as demais mineradoras ilustra como o mercado está diferenciando empresas com contratos concretos daquelas que vendem apenas a narrativa da IA. Como detalhamos em nossa seção de tecnologia, a corrida por infraestrutura de IA está gerando vencedores e perdedores claramente distintos.

O que o dado de inflação de quarta-feira muda na prática

O CPI americano de quarta-feira é o evento macroeconômico mais importante da semana. Se o núcleo da inflação vier acima de 2,5%, o cenário para ativos de risco se complica. O Fed teria justificativa para manter os juros elevados por mais tempo, o que fortaleceria ainda mais o dólar e pressionaria bitcoin, ouro e ações de crescimento.

Por outro lado, um dado abaixo do esperado poderia aliviar a pressão no DXY e abrir espaço para recuperação de ativos como bitcoin, que historicamente se beneficia de expectativas de afrouxamento monetário. O ponto central é que o mercado está em modo de espera, e a volatilidade tende a aumentar após a divulgação.

Para investidores brasileiros, há um efeito adicional a considerar. Um dólar globalmente forte pressiona o real, o que pode encarecer importações e influenciar as decisões do Banco Central sobre a Selic. Quem investe em cripto diretamente, sem hedge cambial, sente o impacto duplo: o ativo cai em dólar enquanto o câmbio não compensa.

O cenário atual exige paciência. A combinação de dólar firme, yields em alta e expectativa de reaceleração inflacionária nos EUA cria um ambiente desfavorável para apostas direcionais. Os fundamentos de longo prazo de bitcoin e ouro como reserva de valor não mudaram, mas o curto prazo é governado por macroeconomia. E nesta semana, a macro manda.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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