Berkshire sem Buffett: o que os números revelam sobre a era Greg Abel
Queda no lucro e recompra agressiva de ações mostram que Greg Abel está imprimindo um ritmo diferente na alocação de capital da Berkshire Hathaway.
A Berkshire Hathaway divulgou os resultados do terceiro trimestre de 2026 com uma combinação que resume bem a nova fase do conglomerado: lucro líquido em queda de 28,2%, recompra de ações no maior volume trimestral em anos e uma montanha de caixa de US$ 377,4 bilhões. É o retrato de uma empresa que, sob o comando de Greg Abel, começa a se mover de forma diferente do que o mercado se acostumou durante as décadas de Warren Buffett.
O lucro atribuível aos acionistas somou US$ 22,1 bilhões entre julho e setembro, contra US$ 30,8 bilhões no mesmo período do ano anterior. A retração veio principalmente dos ganhos com investimentos, que caíram de US$ 17,3 bilhões para US$ 9,4 bilhões, reflexo de uma valorização mais modesta da carteira de ações do conglomerado no trimestre.
É um número que, isoladamente, pode assustar. Mas a Berkshire sempre recomendou que investidores olhem para o lucro operacional, que exclui as oscilações contábeis de marcação a mercado. Por esse critério, a queda foi bem mais contida: 5,8%, de US$ 13,5 bilhões para US$ 12,7 bilhões.
Greg Abel acelera as recompras e muda o perfil de alocação
O dado mais revelador do trimestre não está na linha de lucro, mas na de uso do caixa. A Berkshire recomprou US$ 9,6 bilhões em ações próprias entre julho e setembro. É mais que o dobro dos US$ 4,5 bilhões gastos no segundo trimestre e eleva o acumulado do ano para US$ 14,4 bilhões.
Para contextualizar, nos últimos anos da gestão de Buffett, o conglomerado passou mais de um ano sem realizar qualquer recompra. A retomada aconteceu no início de 2026, quando Abel avaliou que as ações estavam abaixo do valor intrínseco estimado pela própria administração. A lógica é simples e antiga no manual do value investing: se o preço de mercado está abaixo do que a empresa vale, comprar as próprias ações é o melhor investimento disponível.
Esse movimento sinaliza algo importante para quem acompanha o mercado americano. Como analisamos frequentemente na cobertura de finanças, recompras agressivas em conglomerados desse porte costumam indicar que a gestão não encontra ativos externos com valuations atrativos o suficiente para competir com a própria ação.
US$ 377 bilhões em caixa: arma ou problema?
Mesmo depois de desembolsar quase US$ 10 bilhões em recompras, a Berkshire encerrou setembro com US$ 377,4 bilhões em recursos líquidos e títulos de curto prazo. Desse total, US$ 336,7 bilhões estão aplicados em T-bills, os títulos do Tesouro americano de curtíssimo prazo. Outros US$ 40,7 bilhões estão em caixa propriamente dito.
Ajustando por compras de títulos ainda não liquidadas, a disponibilidade financeira fica próxima de US$ 357 bilhões, segundo estimativas de mercado. O patrimônio líquido atribuível aos acionistas alcançou US$ 761,4 bilhões.
Para ter dimensão do que isso significa, a reserva de caixa da Berkshire é maior que o PIB de países como Chile ou Finlândia. É um colchão que oferece flexibilidade enorme para aquisições de grande porte, mas que também pressiona Abel a demonstrar capacidade de alocar capital de forma produtiva. O programa de recompras não tem limite máximo, mas exige que o caixa não caia abaixo de US$ 30 bilhões, um piso que, na prática, deixa centenas de bilhões disponíveis.
A Berkshire também foi vendedora líquida de cerca de US$ 426 milhões em ações de outras empresas durante o trimestre. É um valor modesto para o tamanho da carteira, mas reforça a tendência de redução de exposição a ações de terceiros que já vinha sendo observada nos trimestres anteriores.
Seguros pressionam, mas ferrovias compensam
Os resultados operacionais mostram um conglomerado com desempenho desigual entre suas divisões. O principal foco de pressão veio dos seguros, historicamente o motor financeiro da Berkshire.
O resultado de subscrição de seguros caiu 43% no trimestre. A Geico, seguradora de automóveis do grupo, enfrentou aumento de perdas com sinistros e custos operacionais mais elevados. A receita de investimentos das seguradoras também recuou 14%, para cerca de US$ 2,7 bilhões, afetada pela queda nas taxas de juros de curto prazo nos Estados Unidos.
Do outro lado, a BNSF, uma das maiores operadoras ferroviárias de carga do país, registrou avanço de 19,3% no lucro. A receita média por vagão transportado cresceu 10,5%, mostrando que o setor de infraestrutura logística segue como um pilar de geração de valor dentro do conglomerado.
Esse contraste é relevante para investidores que acompanham o cenário macroeconômico global. Juros mais baixos beneficiam setores intensivos em capital, como ferrovias e energia, mas comprimem a rentabilidade de operações que dependem de receita financeira, como seguradoras.
O que a era Abel significa para o mercado
No acumulado de janeiro a setembro, o cenário é mais construtivo. O lucro líquido somou US$ 57,9 bilhões, acima dos US$ 47,8 bilhões do mesmo período de 2025. O lucro operacional acumulado cresceu 8%, chegando a US$ 37 bilhões.
A mensagem implícita nos números é que Abel está disposto a ser mais ativo do que Buffett era nos últimos anos. A combinação de recompras agressivas, venda líquida de ações de terceiros e investimentos em empresas ligadas à inteligência artificial desenha um perfil de gestão que preserva a disciplina de valor, mas com maior disposição para agir.
Para quem investe no mercado americano ou acompanha as tendências de alocação de grandes gestores, como discutimos em análises anteriores sobre fluxos institucionais, a Berkshire segue sendo um termômetro. Quando o maior conglomerado do mundo prefere comprar as próprias ações a investir em novas aquisições, é um sinal de que os valuations de mercado continuam esticados para padrões de value investing.
A reserva de US$ 377 bilhões é, ao mesmo tempo, proteção e oportunidade. Se uma correção relevante vier, Abel terá poder de fogo que pouquíssimas instituições no mundo possuem. Até lá, as recompras servem como uma forma de retornar valor ao acionista sem pagar dividendos, preservando a eficiência tributária que sempre foi marca da Berkshire.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


