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Berkshire sem Buffett: primeira aquisição sinaliza nova era

A Berkshire Hathaway anunciou sua primeira compra desde que Greg Abel assumiu o comando. O negócio revela continuidade, mas também pistas sobre o futuro do conglomerado.

Berkshire sem Buffett: primeira aquisição sinaliza nova era
Foto: Colwyn Davis / Unsplash

A Berkshire Hathaway não perdeu tempo. Poucas semanas após Warren Buffett deixar oficialmente a cadeira de CEO, o conglomerado de Omaha anunciou sua primeira aquisição sob o comando de Greg Abel. O movimento era aguardado pelo mercado como um termômetro do que esperar da empresa mais icônica do capitalismo americano na era pós-Buffett.

A operação importa menos pelo alvo e mais pelo que sinaliza. Durante décadas, cada aquisição da Berkshire carregava a assinatura inconfundível de Buffett: empresas com vantagens competitivas duráveis, gestão confiável e preços razoáveis. A pergunta que US$ 1 trilhão em valor de mercado quer responder agora é simples: Abel seguirá o manual ou escreverá o seu próprio?

O que muda na Berkshire sem o Oráculo de Omaha

Buffett deixou a posição de CEO, mas permanece como chairman. Isso significa que sua influência cultural persiste, ainda que o poder decisório sobre alocação de capital tenha migrado formalmente para Abel. A transição já vinha sendo preparada há anos, com Abel ganhando autonomia crescente nas operações do braço de energia e nas negociações de grandes compras.

O mercado acompanhou de perto a última assembleia anual de acionistas em maio, quando Buffett confirmou a transição. Desde então, as ações classe B da Berkshire se mantiveram relativamente estáveis, sinal de que investidores já haviam precificado a mudança. Mas a primeira aquisição concreta é outro patamar: é a prova prática de que a máquina de alocar capital continua funcionando.

Historicamente, grandes transições de liderança em conglomerados provocam dois efeitos. No curto prazo, continuidade. No médio prazo, divergência gradual de estilo. Abel, que passou mais de duas décadas na Berkshire Hathaway Energy, tende a buscar ativos com fluxos de caixa previsíveis e exposição a infraestrutura, áreas que conhece profundamente.

O caixa de US$ 347 bilhões e a pressão por usar

Um dos legados mais comentados de Buffett foi a montanha de caixa que acumulou nos últimos trimestres. No fim do primeiro trimestre de 2025, a Berkshire detinha cerca de US$ 347 bilhões em caixa e equivalentes, o maior volume da história da empresa. Buffett justificou repetidamente a posição como prudência diante de valuations esticados no mercado americano.

Para Abel, essa reserva é ao mesmo tempo um trunfo e uma pressão. Acionistas esperam que o novo CEO encontre destinos produtivos para o capital. Ao mesmo tempo, a filosofia Berkshire sempre priorizou paciência sobre ação. Fazer uma aquisição logo nas primeiras semanas envia uma mensagem clara: Abel quer mostrar que é um executivo de ação, não apenas um zelador da herança.

A dinâmica do mercado financeiro global também ajuda a entender o timing. Com os índices americanos próximos de máximas históricas e o S&P 500 negociando a múltiplos elevados, encontrar alvos a preços razoáveis não é trivial. O fato de Abel ter conseguido fechar um negócio nesse ambiente sugere que a equipe de originação da Berkshire permanece ativa e competitiva.

Contexto asiático dá suporte ao apetite por risco

A primeira aquisição da era Abel acontece em um momento favorável para o sentimento global. Na sessão desta segunda-feira, as bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em alta, com o Nikkei e o Kospi atingindo novas máximas históricas, impulsionados por empresas ligadas a inteligência artificial.

O rali asiático reforça um tema que Buffett já havia identificado: a exposição ao Japão. A Berkshire ampliou significativamente suas posições em tradings japonesas como Mitsubishi, Marubeni e Itochu nos últimos anos. Abel herdou essas posições e o relacionamento com os parceiros asiáticos, o que pode abrir portas para aquisições na região.

No cenário macro, o câmbio e os juros americanos seguem como variáveis centrais. Com o Federal Reserve ainda cauteloso sobre cortes de juros, o custo de oportunidade de manter caixa em títulos do Tesouro americano rende cerca de 4,5% ao ano. Isso significa que cada aquisição precisa superar essa barra de retorno para justificar o uso do caixa.

O que o investidor deve observar agora

A primeira aquisição pós-Buffett é simbólica, mas o verdadeiro teste virá nos próximos 12 a 24 meses. O mercado vai avaliar se Abel consegue manter a disciplina de capital que transformou a Berkshire em referência global, enquanto imprime características próprias na estratégia.

Três pontos merecem acompanhamento. Primeiro, o ritmo de uso do caixa: se Abel acelerar aquisições, sinalizará uma mudança de filosofia. Segundo, o tipo de ativo: infraestrutura, energia e seguros são apostas naturais, mas qualquer desvio para tecnologia ou setores não tradicionais indicaria uma nova direção. Terceiro, a comunicação com acionistas. Buffett era insuperável na arte da carta anual. Abel precisará encontrar sua própria voz.

Para quem acompanha mercados financeiros, o caso Berkshire é um estudo em tempo real sobre sucessão corporativa na maior escala possível. A história mostra que conglomerados sobrevivem a seus fundadores quando a cultura é mais forte que o indivíduo. A primeira aquisição de Abel sugere que a cultura de Omaha permanece intacta. Por enquanto.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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