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Finanças

Berkshire tem 37% da SiriusXM: a tese por trás da aposta

A Berkshire ampliou sua posição na SiriusXM para 37%, avaliada em US$ 4 bilhões. O que explica a aposta bilionária numa empresa de rádio por satélite?

Berkshire tem 37% da SiriusXM: a tese por trás da aposta
Foto: Francesco Ungaro / Unsplash

A Berkshire Hathaway comprou mais 1 milhão de ações da SiriusXM, elevando sua participação para 37% da plataforma de rádio por satélite e streaming que atende mais de 30 milhões de assinantes nos Estados Unidos. A posição agora vale US$ 4 bilhões e corresponde a mais de 1% do portfólio total da companhia comandada por Greg Abel.

A ação da SiriusXM subiu 8% após o anúncio. Em 12 meses, o papel acumula alta de 53%, embora ainda registre queda de 47% nos últimos cinco anos. A empresa vale US$ 11,2 bilhões na bolsa americana.

A grande pergunta que persiste entre investidores é: por que a maior conglomerada do mundo continua aumentando uma aposta numa empresa que, durante anos, pareceu estar no lado errado da história?

A origem de um investimento improvável

A posição da Berkshire na SiriusXM começou em 2017, quando a Liberty Media, conglomerado de John Malone, criou a Liberty Sirius como uma tracking stock da plataforma de rádio. Na época, as finanças da SiriusXM patinavam e a concorrência das plataformas de streaming digital crescia trimestre após trimestre.

A principal suspeita do mercado é que Ted Wechsler, hoje o principal gestor de ações da Berkshire, tenha sido o responsável pela tese. Wechsler detém papéis da empresa na pessoa física e era próximo da gestão da SiriusXM, o que reforça a hipótese de uma convicção pessoal na virada operacional.

Em 2024, com a cisão formal entre Liberty e SiriusXM, a Berkshire passou a ser investidora direta da plataforma de rádio. Desde então, só ampliou a posição. Como mostramos na cobertura de mercados financeiros, movimentos de grandes alocadores costumam carregar sinais importantes sobre teses de longo prazo.

O turnaround que sustenta a tese

A SiriusXM surgiu em 2008 da fusão entre as rádios por satélite Sirius e XM, os dois únicos players com cobertura nacional nos EUA. A empresa nasceu como monopólio, mas a integração foi custosa. A crise do subprime quase levou a companhia à recuperação judicial, e ela só sobreviveu graças a um empréstimo da Liberty Media.

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Por anos, o negócio enfrentou dois problemas estruturais: uma base de assinantes envelhecendo e um modelo de consumo atrelado ao carro, enquanto o mundo migrava para o smartphone. A concorrência do Spotify, Apple Music e outros serviços de streaming parecia tornar a SiriusXM irrelevante.

Desde 2024, no entanto, a empresa entrega resultados que contradizem esse cenário pessimista. A reestruturação incluiu cortes de custos, mudanças na precificação dos planos e investimentos em tecnologia e podcasts. A base de usuários voltou a crescer nos últimos meses, contrariando projeções de retração do mercado.

Essa dinâmica de turnaround em empresas de mídia não é inédita. A diferença aqui é que a SiriusXM combina receita recorrente de assinatura com um segundo motor de crescimento via publicidade.

Publicidade digital como segundo motor de receita

O grande trunfo da SiriusXM pode não estar no rádio por satélite em si, mas nas parcerias publicitárias. A empresa firmou acordos com Amazon e YouTube que podem mudar o patamar de rentabilidade do negócio.

Desde abril de 2025, a SiriusXM comercializa com exclusividade os anúncios em áudio veiculados no YouTube nos Estados Unidos. Segundo estimativas do Deutsche Bank, essa parceria sozinha pode gerar US$ 2 bilhões em receitas até 2029. Para uma empresa que vale US$ 11 bilhões, trata-se de um incremento relevante.

A plataforma também opera a Pandora, serviço de streaming musical adquirido em 2019 por US$ 3,5 bilhões. A Pandora conta com 6 milhões de assinantes pagos e 33 milhões de usuários no plano gratuito, monetizados com publicidade. Somados aos 33 milhões de assinantes da SiriusXM, o ecossistema alcança mais de 70 milhões de usuários.

Conteúdo exclusivo como barreira competitiva

Além da estrutura publicitária, a SiriusXM investe em conteúdo exclusivo como barreira competitiva. A plataforma opera centenas de canais de música, esporte, jornalismo e entretenimento. Licencia transmissões da NBA e a programação da CNN, transformando-os em canais temáticos 24 horas por dia.

Os contratos de exclusividade com comunicadores como Howard Stern e Conan O’Brien criam um diferencial difícil de replicar. Num mercado de streaming onde o conteúdo é cada vez mais comoditizado, manter vozes únicas gera retenção de assinantes. Como discutimos em nossas análises sobre o setor de tecnologia e mídia, a batalha por atenção se resolve com exclusividade e distribuição.

É provável que Wechsler e a equipe da Berkshire enxerguem exatamente isso: uma empresa com receita recorrente, geração de caixa robusta e um pipeline de crescimento via publicidade digital que o mercado ainda precifica com ceticismo.

O que o movimento sinaliza para investidores

A Berkshire não costuma aumentar posições em empresas nas quais não vê assimetria significativa. Com 37% da SiriusXM, a conglomerada está perto do limite regulatório que exigiria uma oferta pública pelo restante das ações. Isso levanta a possibilidade, ainda especulativa, de uma aquisição total no futuro.

Para quem acompanha mercados, o sinal mais importante é outro. A tese da Berkshire na SiriusXM é uma aposta de que ativos de mídia com receita recorrente e poder de precificação ainda têm valor, mesmo num ambiente dominado por big techs. A alta de 53% em 12 meses sugere que o mercado está começando a concordar, mas a queda de 47% em cinco anos mostra que a desconfiança ainda persiste.

O turnaround da SiriusXM não está garantido. A empresa é alavancada, o envelhecimento da base de assinantes é real, e a competição com plataformas de streaming gratuitas não vai desaparecer. Mas quando a Berkshire coloca US$ 4 bilhões numa tese, vale entender o racional. Neste caso, o racional parece ser: publicidade digital, conteúdo exclusivo e uma reestruturação que finalmente começa a aparecer nos números.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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