AstraZeneca quer comprar Bristol-Myers: por que o mercado não aprovou
A fusão criaria uma farmacêutica de quase US$ 400 bilhões, mas investidores veem sobreposição de portfólio, risco antitruste e momento operacional divergente entre as empresas.
A AstraZeneca está em negociações para adquirir a Bristol-Myers Squibb (BMS), segundo o Financial Times. Se concretizada, a operação reuniria duas das maiores farmacêuticas do planeta, com um valor de mercado combinado próximo de US$ 400 bilhões. Mas a reação do mercado foi imediata e nada entusiasmada: as ações da AstraZeneca recuaram 7% na Bolsa de Londres, enquanto os papéis da BMS subiram 3% no pré-mercado de Nova York.
O movimento de preços resume bem o sentimento dos investidores. A leitura predominante é que o negócio beneficia a BMS muito mais do que a compradora britânica. E os motivos para o ceticismo vão além do preço.
O problema da sobreposição no portfólio oncológico
O principal entrave apontado por analistas é a falta de complementaridade entre os portfólios das duas empresas. Ambas se destacam no mesmo segmento: oncologia. O Opdivo, carro-chefe da BMS, e o Imfinzi, da AstraZeneca, atuam no tratamento do mesmo tipo de câncer de pulmão. Segundo Evan Seigerman, analista da BMO Capital Markets, essa concorrência direta limita as sinergias que uma fusão normalmente traria.
Em operações de M&A no setor farmacêutico, a tese costuma se apoiar em dois pilares: acesso a novas moléculas que complementem o pipeline existente, ou ganhos de escala que reduzam custos de forma expressiva. Neste caso, a sobreposição nos medicamentos oncológicos torna os dois argumentos mais frágeis. É difícil justificar o prêmio de aquisição quando o comprador já atua exatamente nos mesmos mercados do alvo.
O cenário regulatório também preocupa. Uma fusão dessa magnitude passaria pelo escrutínio de autoridades antitruste em múltiplas jurisdições. O Reino Unido tende a ser protecionista com suas empresas de capital aberto, e o governo americano segue imprevisível em suas decisões comerciais. A combinação cria um ambiente regulatório complexo, como já analisamos em nossa cobertura sobre grandes operações no mercado financeiro global.
Momento operacional caminha em direções opostas
Talvez o ponto mais relevante para quem investe seja o descompasso entre as trajetórias financeiras das duas companhias. Segundo Jared Holz, analista de saúde do Mizuho, os lucros da AstraZeneca devem crescer 10% ou mais ao ano nos próximos cinco anos. Já os da Bristol-Myers podem encolher ao longo do restante da década.
A razão é estrutural. A BMS enfrenta a perda iminente de duas patentes relevantes: a do Opdivo e a do anticoagulante Eliquis. Quando um medicamento perde proteção patentária, genéricos entram no mercado e corroem as margens rapidamente. Para piorar, a aquisição da biotech Celgene por US$ 74 bilhões em 2019, que deveria reforçar o pipeline da empresa, nunca entregou o retorno esperado.
É verdade que a BMS registrou um trimestre recorde, com US$ 13 bilhões em vendas, puxado por lançamentos recentes como o Opdualag (câncer de pele), Camzyos (coração) e Breyanzi (câncer no sangue). Mas o mercado olha para a frente, e a perspectiva de receita em declínio torna a empresa uma aposta arriscada para quem a adquirir. Como discutimos em análises anteriores sobre o impacto de patentes no valuation de farmacêuticas, esse é um ciclo recorrente no setor.
A ambição de Pascal Soriot e o plano de US$ 80 bilhões
A AstraZeneca tem metas agressivas de crescimento. A empresa quer atingir US$ 80 bilhões em faturamento anual até 2030. No ano passado, faturou US$ 58,7 bilhões, com metade da receita vindo dos Estados Unidos. A listagem direta na NYSE, concluída em junho, reforçou a aproximação com o mercado americano. A compra da BMS seria o passo definitivo nessa estratégia transatlântica.
O CEO Pascal Soriot tem credibilidade acumulada. Quando assumiu o comando em 2012, precisou rejeitar uma tentativa de aquisição pela Pfizer e reposicionou a empresa no segmento oncológico. A aposta se provou acertada, transformando a AstraZeneca em uma das farmacêuticas de maior crescimento da última década. Em 2021, a companhia adquiriu a biotech Alexion por US$ 39 bilhões, ampliando sua atuação em doenças raras.
Agora, a empresa se prepara para entrar no mercado de medicamentos para emagrecimento, que redesenhou a indústria farmacêutica global nos últimos anos. Essa movimentação mostra que a AstraZeneca não depende da BMS para crescer, o que torna a lógica da aquisição ainda mais questionável aos olhos dos investidores.
O que essa fusão significa para quem acompanha o mercado
A AstraZeneca vale £ 181 bilhões na Bolsa de Londres. A Bristol-Myers Squibb vale US$ 133 bilhões em Nova York. Uma fusão dessa escala não é apenas uma transação corporativa. É um evento que reconfigura toda a cadeia farmacêutica global, afeta concorrentes, fornecedores e o pipeline de medicamentos disponíveis para pacientes.
Para investidores, a mensagem do mercado é clara: crescimento orgânico com alta visibilidade vale mais do que aquisições transformacionais com risco de execução elevado. Holz, do Mizuho, resumiu: “A menos que haja sinergias significativas que compensem a queda na receita e no lucro, essa fusão é difícil de justificar.”
O setor farmacêutico vive um momento paradoxal. Por um lado, empresas como Novo Nordisk e Eli Lilly atingem valuations históricos com medicamentos para obesidade. Por outro, gigantes tradicionais enfrentam o precipício de patentes que expira a proteção de seus blockbusters. É nesse contexto que movimentos de consolidação ganham força, mesmo quando a racionalidade financeira não é óbvia. Para quem investe em ações globais e acompanha tendências de M&A, o caso AstraZeneca-BMS é um lembrete de que tamanho, por si só, não cria valor.
Ainda não há informações sobre os termos financeiros nem sobre a probabilidade real de o negócio se concretizar. Os próximos dias devem trazer mais detalhes sobre a estrutura proposta e a reação das autoridades regulatórias. Mas uma coisa é certa: o mercado já votou, e a resposta, por enquanto, foi não.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.