Anduril capta US$ 5 bi e dobra valor para US$ 61 bi
Startup de defesa fundada por Palmer Luckey dobra de valor em menos de um ano e se torna a segunda startup mais valiosa dos EUA, atrás apenas da SpaceX.
A Anduril Industries fechou uma rodada de US$ 5 bilhões que elevou seu valuation para US$ 61 bilhões. O número representa o dobro da avaliação registrada na captação anterior, realizada há menos de um ano. Com isso, a empresa fundada por Palmer Luckey ocupa agora a posição de segunda startup mais valiosa dos Estados Unidos, atrás apenas da SpaceX de Elon Musk.
O aporte foi liderado pelo fundo soberano de Abu Dhabi, o Mubadala, com participação de investidores como Founders Fund, de Peter Thiel, e Andreessen Horowitz. A velocidade da escalada impressiona: em 2024, a Anduril valia cerca de US$ 14 bilhões. Em pouco mais de 18 meses, o valor de mercado mais que quadruplicou.
O que a Anduril faz e por que cresce tão rápido
A Anduril desenvolve sistemas autônomos de defesa equipados com inteligência artificial. Seu portfólio inclui drones de vigilância, torres de monitoramento de fronteira e, mais recentemente, munições autônomas e submarinos não tripulados. O produto central é o Lattice, uma plataforma de software que integra sensores e armas em tempo real usando IA.
O crescimento acelerado tem um pano de fundo geopolítico claro. Os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio expuseram a fragilidade das cadeias de suprimento de defesa tradicionais. Governos ocidentais, especialmente os EUA, passaram a priorizar fornecedores ágeis, capazes de entregar tecnologia avançada em meses, não em décadas. A Anduril se posicionou nesse vácuo.
O Departamento de Defesa dos EUA já é o principal cliente da empresa. Segundo fontes próximas à companhia, a receita recorrente anual ultrapassa US$ 1 bilhão, um salto significativo frente aos cerca de US$ 500 milhões reportados em 2024. A margem bruta é estimada entre 50% e 60%, padrão mais próximo de uma empresa de software do que de uma fornecedora militar tradicional como a Lockheed Martin.
A nova corrida armamentista é de software, não de aço
O fenômeno Anduril reflete uma mudança estrutural no setor de defesa global. As cinco maiores empresas do setor nos EUA, conhecidas como “Big Five” (Lockheed Martin, Raytheon, Northrop Grumman, Boeing Defense e General Dynamics), têm valuations combinados de cerca de US$ 500 bilhões. Mas o crescimento de receita dessas empresas é lento, na casa de 3% a 5% ao ano.
Startups como Anduril e Shield AI estão capturando contratos que antes iam exclusivamente para esses gigantes. O diferencial está na abordagem centrada em software, que permite iteração rápida e custos unitários menores. Um drone da Anduril custa uma fração de um caça F-35.
O movimento não é exclusivamente americano. Como abordamos na análise sobre os campos de batalha que redesenham a economia global, a Europa também está acelerando gastos com defesa. A Alemanha aprovou um fundo especial de 100 bilhões de euros, e a França elevou o orçamento militar para 2% do PIB pela primeira vez em décadas.
O papel do venture capital na militarização da IA
A rodada da Anduril é a maior já feita por uma startup de defesa. Para efeito de comparação, a SpaceX levantou US$ 6 bilhões em sua última captação, com valuation de US$ 350 bilhões. A diferença de escala entre as duas ainda é grande, mas o ritmo de crescimento da Anduril é mais acelerado neste estágio.
Investidores tradicionais de tecnologia, que há cinco anos evitavam defesa por questões éticas, agora disputam alocação no setor. Founders Fund e a16z, dois dos fundos mais influentes do Vale do Silício, são investidores de longa data. O argumento mudou: a tese é que IA aplicada a defesa é o maior mercado endereçável que existe, com orçamentos governamentais que somam trilhões de dólares globalmente.
Palmer Luckey, fundador da Anduril e ex-criador do Oculus VR (vendido ao Facebook por US$ 2 bilhões em 2014), se tornou uma das figuras mais influentes da interseção entre tecnologia e política em Washington. Sua proximidade com ambos os partidos e a capacidade de entregar resultados rápidos deram à empresa acesso privilegiado a contratos federais.
O que isso significa para o mercado de tecnologia
A ascensão da Anduril reforça uma tendência que já analisamos no contexto da IA: os maiores retornos de venture capital estão migrando de SaaS corporativo para setores de infraestrutura crítica, como defesa, energia e saúde. Das dez startups mais valiosas dos EUA, pelo menos quatro atuam em setores que eram considerados “offline” há uma década.
Para investidores, o sinal é claro. O ciclo de IA generativa, que inflou valuations de empresas como OpenAI e Anthropic, agora divide espaço com uma tese mais tangível: IA aplicada a problemas do mundo físico, com receita real e contratos governamentais de longo prazo. O SoftBank, que liderou aportes bilionários em empresas de IA generativa, também participou de rodadas anteriores da Anduril.
A questão que se coloca agora é se a Anduril buscará um IPO nos próximos 12 a 18 meses. Com US$ 5 bilhões em caixa e receita superior a US$ 1 bilhão, a empresa tem todos os pré-requisitos. Palmer Luckey já sinalizou interesse em manter a companhia privada pelo maior tempo possível, mas a pressão de investidores por liquidez tende a aumentar conforme o valuation escala.