Artigo

Mercado libre na Nasdaq 100

A empresa mais valiosa do Brasil é Argentina. E só dá prejuízo


Por Felippe Hermes
Agosto 10, 2020

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Fundado durante a bolha das ponto.com em 1999, o Mercado Livre se tornou mais valioso que a Vale, a Petrobras e o Itaú, e entender os motivos explica algumas questões importantes do capitalismo atual.

Cerca de 20 anos antes de as empresas brasileiras de tecnologia, como XP, Stone e PagSeguro estrearam na NASDAQ, a bolsa de tecnologia dos EUA, Fernando Espuelas fez o IPO da Starmedia.

Um portal concorrente do Yahoo e Aol, a Starmedia foi a primeira empresa de tecnologia da América Latina a abrir capital nos EUA. Em 2 meses suas ações saíram de $15 para $70, fazendo a empresa valer $3,7 bilhões. Em 3 anos as ações virariam pó, levando a empresa a ser vendida por $8 milhões.

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Apesar de pouco conhecida dos consumidores brasileiros, a onda que tomou os EUA no final dos anos 90, levando a criação da “Bolha das ponto com”, onde até empresas que vendiam areia para gatos ou maçanetas conseguiam captar milhões, simplesmente por estarem na internet, o “negócio do futuro”, foi palco do surgimento de inúmeras companhias hoje consolidadas, como a Alphabet (Google), e Amazon.

Da mesma Stanford de Larry Page e Sergey Brin e menos de 1 anos após o surgimento da Google, o argentino Marcos Galperín criaria o plano de negócios do seu “Mercado Libre”.

A empresa que viria a se tornar o maior case de sucesso da América Latina em tecnologia, nasceu com aportes do JP Morgan e fundos de Venture Capital.

Em menos de 2 meses, o site argentino já havia chegado ao Brasil, em outubro de 1999, quando o assunto do momento por aqui era a compra de uma participação na Globo Cabo pela Microsoft de Bill Gates, e a oferta de internet a cabo com 256Kbs, permitindo a realização de videoconferências!

Nos dias atuais, o Mercado Livre se tornou uma potência, fazendo 60% de sua receita no Brasil, e não sem motivos, foi a empresa que mais cresceu em valor de mercado no trimestre em abril e junho na Nasdaq. Impressionantes 108% de alta nas ações levaram o valor da empresa para $60 bilhões, ou cerca de $1 bilhão acima da genuinamente brasileira, Vale.

Se você acha estranha a alta, saiba que ela está em linha com o crescimento das principais métricas do site. O GMV, total de vendas no markeplace (uma tática utilizada por grandes e-commerces para vender produtos de terceiros em troca de comissão), cresceu 101,5%.

O “Mercado Pago”, a Fintech que apoia pagamentos na plataforma, cresceu 142%, enquanto a receita líquida cresceu 124%.

Os números impressionam e foram impulsionados pela Pandemia, que elevou as compras em comércios online, catapultando as fortunas de Jeff Bezos e outros expoentes da área. 

Bezos, por exemplo, está próximo de se tornar um duocentibilionário, atingindo $200 bilhões em patrimônio (basta uma alta de 6% nas ações da Amazon para isso). Enquanto isso, Zuckerberg atingiu o posto de $100 bilhões aos 36.

Mas nem tudo é óbvio, ou fácil no crescimento de varejistas do tipo. 

Há cerca de 1 ano o MELI, como é apelidado, levantou $1,85 bilhão na bolsa. O destino de toda essa montanha de grana? Ampliar Investimentos em distribuição.

A logística é de longe um dos pontos centrais para crescer em um e-commerce na região, e a empresa tem ciência disso. Em 2017 investiram R$1 bilhão, contra R$2 bilhões em 2018 e R$3 bilhões em 2019.

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São números expressivos, mas necessários, considerando que a alternativa seria deixar seus vendedores nas mãos dos correios, que em 2018 investiu R$226 milhões (e outros R$600 milhões em 2019).

Outra solução, em parceria com o PayPal, foi ampliar os benefícios do mercado pago, afinal, cerca de 45 milhões de brasileiros não têm conta em banco. É preciso pensar até nestes detalhes para ampliar as vendas.

Ao contrário da Amazon, que seduz os clientes com produções no seu Prime Vídeo e oferece uma dezena de serviços integrados (em entrevista recente, Bezos ficou na dúvida por alguns instantes sobre ser dono ou não do Twitch, uma plataforma pela qual a Amazon pagou $950 milhões), o Meli segue uma linha mais próxima do Alibaba, a empresa de e-commerce que tornou Jack Ma e o Softbank famosos.

Em 2005 o Alibaba enfrentava a concorrência do eBay, um gigante americano com valor de mercado de $30 bilhões, e que havia comprado o PayPal de Elon Musk e Pether Thiel, a solução para enfrentar a concorrência? Despejar grana em logística e comodidades aos consumidores.

Com um aporte de $2 bilhões do Softbank, o Alibaba bancou durante anos as entregas, até conseguir construir uma estrutura própria e mais acessível para os seus consumidores. 

A estratégia do Meli, que enfrenta uma das maiores empresas das maiores gigantes do planeta, segue por uma linha similar. 

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Para crescer, é preciso bancar por alguns anos a acomodação do consumidor em países como o Brasil, até que a infraestrutura esteja adequada para garantir a segurança nas compras online e elas se tornem o padrão.

Em um mundo onde o custo do dinheiro está cada vez menor, a situação tem ficado mais confortáveis para as empresas que se dão ao luxo de suportar prejuízos por alguns anos.

É importante entretanto diferenciar “Lucro” e “Ebitda”. O primeiro é um conceito mais popular e fácil de compreender. O segundo, como a sigla em inglês explica (Lucro antes de juros, impostos depreciação e amortizações), inclui aquilo realmente relevante para os investidores.

Você talvez já tenha ouvido falar que algumas empresas passam anos tendo prejuízo, mas compreender a lógica do Ebitda ajuda a entender o porquê deste prejuízo ser aceitável.

Na prática, se a empresa gera caixa, ou seja, se as operações garantem dinheiro entrando, ela pode investir e crescer, postergando o seu lucro para quando estiver melhor acomodada no futuro, assim, caso ela tenha uma geração de caixa de 20% da receita, pode fazer essa receita crescer, de modo que 1% de lucro no futuro seja algumas vezes maior que 1% hoje.

Com juros menores, essa prática tem se tornado cada vez mais comum, e é justamente o que tende a pautar o crescimento do MELI. Bem-vindo ao mundo dos “juros zero”.

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