Artigo

Argentina

A Argentina dobra a aposta no que deu errado.


Por Felippe Hermes
Setembro 8, 2020

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O país que já foi uma das maiores economias do planeta ainda luta para se livrar da instabilidade econômica e política, e de uma inflação galopante.

A virada do ano entre 2001 e 2002 foi um marco para os argentinos. Em um espaço de 12 dias, entre o Natal e a primeira semana de janeiro, o país viu 5 presidentes ocuparem a Casa Rosada.

A crise que assolou o país tinha um ponto bastante conhecido para qualquer latino-americano: o câmbio, ou para ser mais exato, o dólar.

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Tradicionalmente um país agrícola, com vastas extensões de terra, a Argentina já foi uma grande economia, lá pela virada do outro século. Entre 1870 e 1930, o país vivenciou uma das maiores rendas per capita do planeta, chegando a ser por um breve período, o 6º mais rico do mundo.

O problema, é claro, está no fato de que a despeito de ter recursos naturais abundantes e uma produção agrícola invejável, o país não controla os preços daquilo que produz, o que o torna vulnerável às oscilações do mercado internacional, e consequentemente ao câmbio.

Esse diagnóstico, feito pelos defensores da industrialização forçada, é correto em partes, mas apresenta graves problemas na prática.

A abundância da Argentina em qualificação profissional e terras, contrasta com sua dificuldade em acumular capitais. Como um estudo publicado por pesquisadores de Harvard mostra, no final do século XIX, as empresas agrícolas do país possuíam em média ¼ do capital por trabalhador que seus pares americanos. 

Os grandes latifundiários argentinos tornaram-se conhecidos pela opulência que tornaria Buenos Aires um centro comercial e cultural, sede de filiais de lojas londrinas conhecidas pelo luxo.

As empresas argentinas simplesmente não possuíam incentivos para investir e elevar produtividade, afinal, para elevar produção, bastava acrescentar mais terras, que eram abundantes.

O resultado? Durante todo o século 20 o mundo vivenciou um aumento sem precedentes da produtividade agrícola, levando a uma queda quase generalizada dos preços de commodities. A terra, o principal diferencial argentino, tornou-se um recurso também abundante em boa parte do planeta.

Quer ver um exemplo? Até meio século atrás, o Brasil, hoje um celeiro agrícola, estava fadado a concentrar sua produção na região sul e seu pampa fértil (mesmo bioma argentino). Graças ao desenvolvimento tecnológico, expandimos nossa fronteira agrícola para o cerrado, mais do que duplicando assim nossa área de produção. 

Mas afinal, porque a Argentina segue presa ao século XIX?

A ideia de industrializar o país, como dito acima, foi levada a cabo de maneira forçada.

Juan Domingos Perón, que inauguraria uma espécie de culto religioso e movimento político que perdura até os dias atuais, sabia deste problema da dependência de produtos agrícolas. Seu problema porém, foi indicar um caminho pouco usual. 

A Argentina após a segunda guerra viu uma enxurrada de dólares, afinal, o país produzia os alimentos que a Europa em ruínas necessitava. 

Com estes dólares, Perón inaugurou uma série de indústrias, começando pela siderurgia como Vargas, e subsidiou essa indústria.

Como as duas ditaduras brasileiras e o governo Dilma mostraram, criar uma indústria realocando recursos não é difícil. Basta extrair riqueza de quem produz e entregar para o setor que se quer favorecer (uma indústria naval, por exemplo).

A consequência porém, é via de regra uma indústria incapaz de competir, e que se torna viciada em subsídios e reservas de mercado.

Para a infelicidade dos argentinos, seu mercado consumidor é uma fração ínfima do brasileiro. 

Não há portanto condição para que uma indústria se estabeleça em um Estado e desfrute quase que sozinha da renda produzida em outras regiões (que por sua vez são impedidas de comprar mais barato do exterior). 

Dessa maneira, a Argentina seguiu um problema também clássico do Brasil. Quando chegou a hora de abrir o mercado, sua indústria se mostrou um completo fracasso. 

Lá pelos anos 70 e 80 o país, se viu com uma série de setores industriais que sobreviviam apenas por contarem com a boa vontade do Estado.

Para piorar, o país, como outros na região, se viu emparedado por dívidas contraídas para financiar este crescimento, e sujeito a juros também determinados no exterior.

Quando em 1979 Paul Volcker elevou as taxas de.juros nos EUA, a Argentina, como o Brasil, o México e a Venezuela, quebrou.

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Tudo parecia resolvido quando em 1993 o país conheceu o “Plano Cavallo”, um plano de estabilização incrivelmente aceito pelo FMI e a comunidade internacional, e que como o brasileiro, encontrou um percalço no caminho quando a paridade entre dólar e o peso se mostrou inviável.

Ao contrário do Brasil, que adotou o tripé Macroeconômico, com câmbio flutuante, superávit primário e metas de inflação, os argentinos ficaram imóveis, e mergulharam na crise política.

Foi assim que seu primo distante, o Rio Grande do Sul (aquele mesmo Estado que não reelege ninguém e se finge de politizado), que os argentinos entraram no século XXI.

Como aqui, o começo do século XXI deu uma refrescada, afinal, as commodities subiram em média 700% de valor na primeira metade do século com o apetite da China.

Quando a onda acabou, os dólares que haviam sido utilizados para ampliar programas sociais e gastos públicos, secaram. 

A inflação no país começou a avançar, em boa parte graças a escassez de dólares, e o governo, também como ocorreu no Brasil, começou a maquiar índices.

O problema, é claro, é que se por aqui a inflação foi maquiada com ausência de repasses de preços, por lá, foi fraude em índice no sentido mais puro da palavra.

Os voos de galinha da economia argentina

Também como o Brasil, a Argentina enfrenta seus momentos em que os astros parecem alinhados e o país finalmente vai deslanchar.

Quando o mercado mundial aponta um aumento de demanda de commodities, o país respira aliviado, fazendo com que a política se volte novamente para as grandes obras e programas sociais, e criando uma situação de aparente conforto.

Essa situação entretanto, não ataca a raiz do problema, fazendo da Argentina um eterno cliente do FMI.

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Desde a fundação da instituição, o país recorreu ao fundo monetário internacional em média, uma vez q cada 4,5 anos.

O remédio proposto pelo fundo e adotado pelo Brasil em 1999, segue sendo ignorado.

Como um jogador de poker que acredita que poderá recuperar o prejuízo na próxima rodada, a Argentina segue elevando a aposta.

O último caso ocorreu justamente agora. Com uma dívida de $60 bilhões vencendo em Agosto deste ano, o país levou do FMI um acordo dos mais favoráveis possíveis. Recebeu abatimento da dívida e carência para começar a pagar.

Considerando o cenário de pandemia, as exigências foram mínimas. O país, como todos os outros, entrou fundo no plano de resgate econômico. 

Ao contrário de boa parte do mundo porém, a Argentina não vinha de uma situação confortável. Sua inflação e dívida não estavam equilibradas.

Os planos de resgate, que incluem estatização de empresas agrícolas, de serviços de telecomunicações, congelamento de preços e aumento de programas sociais, podem novamente elevar a dependência do país de dólares para rolar sua dívida no futuro.

Não há qualquer indício de que a Argentina controlará sua inflação ou resolverá sua balança de pagamentos. Ao contrário, o país segue ampliando os impostos e dificultando a exportação de produtos agrícolas, encarecendo os produtos e reduzindo competitividade do setor.

A aposta portanto é de que desta vez o cenário será diferente. Se os astros irão se alinhar e a Argentina ganhará um novo fôlego, é difícil dizer.

O certo é que no que depender da política local, o país seguirá incapaz de controlar seu próprio destino.

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