Hoskinson alerta: tornar blockchains pós-quânticas exigirá concessões
Charles Hoskinson, da Cardano, diz que a criptografia pós-quântica já existe, mas sem suporte de hardware deixaria as blockchains mais lentas. A transição exige concessões entre segurança, desempenho e descentralização, com segundas camadas ganhando relevância para mitigar custos na camada base.
Para o fundador da Cardano, a criptografia pós-quântica já existe, mas sem suporte de hardware traria lentidão às redes
Charles Hoskinson, fundador da Cardano, afirmou que a criptografia pós-quântica existe, mas que sua adoção, sem suporte de hardware, tornaria as blockchains mais lentas. A avaliação aponta para um ponto sensível no debate sobre preparar redes públicas para a era dos computadores quânticos: a transição não é trivial e cobra um preço em desempenho e custo operacional.
O que está em jogo
Criptografia pós-quântica é o conjunto de algoritmos projetados para resistir a ataques de computadores quânticos, especialmente contra mecanismos hoje centrais às blockchains, como esquemas de assinatura digital e de troca de chaves. Embora exista um corpo crescente de padrões propostos e já selecionados por órgãos de padronização, a troca de primitivas não acontece sem aumentar o tamanho de chaves e assinaturas, nem sem elevar a complexidade de verificação. Em uma blockchain, isso significa mais dados por transação, maior consumo de banda e menos transações por bloco quando tudo permanece constante.
Nesse sentido, a fala de Hoskinson toca um ponto prático: sem aceleração em hardware — seja via instruções dedicadas em CPUs, uso de GPUs ou ASICs —, validar blocos se torna mais custoso para os nós da rede. O resultado provável é pressão sobre o throughput, filas maiores no mempool e taxas mais voláteis, além de uma barreira técnica mais alta para quem deseja operar um nó completo. Em mercados onde descentralização e acessibilidade são premissas, esse trade-off precisa ser cuidadosamente calibrado.
Hardware, desempenho e desenho de protocolo
Ao contrário de curvas elípticas amplamente suportadas hoje, esquemas pós-quânticos tendem a manipular estruturas matemáticas que se beneficiam significativamente de paralelismo e memória, o que reforça a necessidade de suporte em hardware para manter latências e custos sob controle. Alterar a camada base (L1) para tais esquemas pode implicar ajustes em limites de tamanho de bloco, regras de propagação e requisitos de armazenamento. Por outro lado, manter tudo como está não imuniza a rede contra a janela de risco de médio prazo, sobretudo para endereços cujas chaves públicas já foram reveladas em transações anteriores.
Há ainda uma dimensão de governança técnica: a migração para primitivas resistentes ao quântico envolve compatibilidade retroativa, mecanismos de rotação de chaves e, possivelmente, caminhos de atualização via soft ou hard fork. Cada abordagem carrega impactos na experiência do usuário e no ecossistema de carteiras e validadores. Por ora, a incerteza sobre o cronograma de computadores quânticos práticos não elimina a necessidade de planejar, apenas impede soluções apressadas que troquem segurança por inviabilidade operacional.
O papel das segundas camadas
Frente ao custo adicional na camada base, as segundas camadas surgem como uma válvula de escape. Ao deslocar parte da atividade para estruturas paralelas e conectadas — sidechains e redes de liquidez, por exemplo —, é possível absorver sobrecargas computacionais e de dados sem degradar a experiência no L1. Nesse arranjo, a camada principal preserva segurança e verificabilidade, enquanto a camada secundária agrega escala e flexibilidade para experimentar novas primitivas e formatos de transação.
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