Mercado de investimentos dos EUA pode migrar 100% para blockchain, diz SEC
Paul Atkins afirmou que os EUA podem migrar todo o mercado de investimentos para blockchain em até dois anos. O movimento ganha respaldo de estudos do BIS e de avanços regulatórios no Brasil, com CVM e B3 testando tokenização. A promessa é de liquidação quase em tempo real, fracionamento e auditoria nativa, mas a transição exige decisões sobre governança e interoperabilidade.
Declaração de Paul Atkins reacende a tese da tokenização como nova infraestrutura; BIS e avanços no Brasil indicam que o tema saiu do laboratório
O debate sobre a digitalização completa do mercado financeiro americano ganhou fôlego nesta semana. Em entrevista, Paul Atkins afirmou que os Estados Unidos podem transferir todo o sistema de investimentos para blockchain nos próximos dois anos, elevando a discussão do campo das provas de conceito para a mesa de reguladores, bancos e gestoras. A sinalização coloca a tokenização no centro de uma disputa por eficiência, liquidação mais rápida e custos menores em toda a cadeia.
Atkins ressaltou que a próxima transformação estrutural virá da tokenização e da digitalização de mercados, argumento ancorado na infraestrutura que já sustenta redes como o Bitcoin. Na prática, trata-se de uma arquitetura com registro distribuído, segurança por criptografia e operação global, que reduz dependência de intermediários e permite auditoria contínua. O ponto de tensão, porém, está na transição: migrar legados de décadas para um novo trilho sem paralisar o mercado.
Por que isso importa
Dados recentes do Banco de Compensações Internacionais indicam que 90% dos bancos centrais estudam depósitos tokenizados, um avanço que demonstra como o tema deixou de ser tese e entrou no planejamento de infraestrutura. O interesse dos bancos centrais é um termômetro claro de que a busca por processos mais rápidos e auditáveis virou prioridade. Nesse sentido, a discussão deixa de ser se a tecnologia funciona, e passa a ser quando e como integrá-la ao arcabouço regulatório.
No setor privado, o apetite também cresce. Durante um grande encontro do mercado, Star Xu, CEO da OKX, afirmou que metade da economia mundial pode operar em blockchain nas próximas décadas. A leitura é que novas gerações já demandam serviços digitais com transparência, rastreabilidade e custos previsíveis, atributos que redes públicas e consórcios permissionados prometem entregar.
O que pode mudar na prática
Um mercado on-chain permitiria emissão, registro, custódia e liquidação quase em tempo real, reduzindo fricções e reconciliações manuais. Além disso, o fracionamento de ativos ampliaria o acesso, ao permitir a compra de partes de ações ou debêntures por tickets menores, o que tende a alargar a base de investidores. Do lado operacional, contratos inteligentes podem automatizar dividendos, juros e amortizações, gerando previsibilidade e diminuindo riscos de erro.
A segurança é outro vetor. Registros em blockchain são imutáveis e auditáveis, características que inibem fraudes e elevam a confiança entre emissores e investidores. O desafio, entretanto, está na governança do código, na interoperabilidade entre plataformas e na preservação de privacidade em um ambiente que, por desenho, privilegia a transparência.
Brasil como estudo de caso
O Brasil avança em linha com essa agenda. A CVM solicitou ao Centro de Regulação e Inovação Aplicada (Cria) uma avaliação técnica sobre o uso de blockchain em ambientes regulados, movimento coerente com iniciativas já em curso no sandbox. Mais recentemente, a autarquia aprovou a BEE4 para atuar fora do sandbox, indicando maturidade do tema e ampliando o escopo de testes em produção.
No plano de mercado, a análise atinge os depositários centrais, como a B3, para avaliar a migração de registros de ações, debêntures e títulos públicos para sistemas tokenizados. Em mercados de balcão, a questão é se a tokenização pode tornar negociações menos líquidas mais acessíveis, rápidas e baratas. As propostas constam na revisão da IN 88 e na proposta de uma IN 135 “light”.
Enquanto isso, a B3 já desenvolve plataformas de tokenização para emissão e negociação de ativos digitais, incluindo debêntures e soluções de crowdfunding. Há ainda a parceria com a Ambipar para créditos de carbono tokenizados, em que cada token representa uma tonelada de CO₂ compensado com rastreabilidade integral, aproximando emissões, verificação e circulação do ativo ambiental.
Desafios e próximos passos
A ambição de um “100% em blockchain” em dois anos é um estresse positivo sobre a agenda, mas impõe escolhas técnicas e regulatórias: padrões de interoperabilidade, segregação de funções, gestão de chaves e continuidade de negócios em eventos extremos. O vetor, porém, parece definido: eficiência, liquidez fracionada e auditoria nativa são incentivos difíceis de ignorar. A disputa, daqui em diante, será por modelos de governança capazes de escalar sem abrir mão da proteção ao investidor.
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