Criptomoedas

Há atrito demais no Web3 para iniciantes. Eis como corrigir.

A experiência fragmentada de redes, pontes e códigos afasta usuários e desenvolvedores; a saída é a abstração de chains para ocultar a complexidade e tornar o uso de blockchains tão simples quanto um clique.

Há atrito demais no Web3 para iniciantes. Eis como corrigir.

A multiplicação de blockchains criou uma experiência fragmentada; a saída é abstrair redes e tornar a infraestrutura invisível ao usuário.

Imagine o primeiro dia de alguém em cripto. Essa pessoa ouviu as promessas sobre ter o próprio dinheiro, acessar mercados globais e participar da nova economia. Ela baixa uma carteira, compra um pouco de ETH e encontra um app interessante. Então acontece.

“Por favor, mude para a rede Base.”

O quê? Ela procura no Google freneticamente, assiste a um tutorial no YouTube e talvez consiga, talvez não. A maioria simplesmente desiste, com um estudo apontando que 80% dos usuários de cripto abandonam as blockchains em 90 dias.

A maior inovação da última década — a proliferação de blockchains poderosas — inadvertidamente criou a maior fraqueza do Web3: uma experiência de usuário tão fragmentada e desajeitada que afasta todos, exceto os mais determinados.

E o sintoma mais gritante desse fracasso? A humilde “troca de rede”, um recurso que se tornou símbolo de tudo o que nos segura.

Os anos de MetaMask me ensinaram tudo

Quando eu estava na ConsenSys há uma década, a missão era simples. Integrar o mundo ao Ethereum por meio do MetaMask. Naquela época, havia uma única chain disponível para usuários do MetaMask. As pessoas podiam se concentrar nos aplicativos, nas possibilidades, na revolução que estávamos construindo. O MetaMask teve um sucesso espetacular como esse portal, com milhões de usuários e bilhões em volume.

Mas observar sua evolução revelou o problema fundamental do nosso setor. O menu suspenso de “Redes” que apareceu conforme outras chains foram lançadas não era um recurso — era uma admissão de fracasso. Priorizamos a expansão técnica em detrimento da compreensão do usuário.

A verdade dura é: se os usuários precisam pensar em chains, nós já perdemos.

Por que todo mundo odeia usar cripto

Quer usar ativos de Ethereum em um app na Solana hoje? Aperte o cinto. Primeiro, encontre uma ponte (boa sorte escolhendo a opção segura, compatível e com baixa taxa). Conecte sua carteira. Aprove tokens. Pague gás. Aguarde confirmações. Troque a rede na sua carteira. Conecte de novo. Torça para nada dar errado. Confira três exploradores de blocos diferentes para rastrear seus ativos.

É uma loucura. Estamos vivendo o equivalente digital das trevas pré-Internet, quando você precisava saber se um serviço estava na AOL ou na CompuServe e discar manualmente para redes diferentes. A internet não venceu por ter tecnologia melhor. Ela venceu quando essa complexidade desapareceu.

Cada prompt de troca de rede nos custa usuários, pelas taxas de gás e pelo tempo desperdiçado. Cada transação confusa mata a adoção. Cada mensagem de erro de “rede errada” empurra a aceitação mainstream para mais longe. Não estamos perdendo para as finanças tradicionais porque elas são melhores. Estamos perdendo porque são mais simples.

Desenvolvedores também estão se afogando

As carteiras levam a culpa, mas elas só exibem a bagunça por baixo. O desastre real está na base.

Uma pessoa fundadora me contou seu ponto de ruptura. “Lançamos no Ethereum e vimos tração real. Os usuários adoraram. Então tentamos expandir para Solana e Sui para alcançar mais gente. De repente, estávamos aprendendo linguagens de programação totalmente novas, emendando chains com pontes duvidosas, mantendo três bases de código separadas. Seis meses depois, desistimos da expansão. A complexidade estava nos matando.”

Essa história se repete em todo lugar. As equipes gastam mais tempo gerenciando infraestrutura do que construindo produtos. A liquidez se fragmenta entre chains. Os usuários ficam confusos sobre qual versão usar. A inovação sufoca sob a sobrecarga operacional.

Estamos obrigando usuários a serem seus próprios agentes de viagem em um mundo de companhias aéreas incompatíveis. Precisa ir de Ethereum para Solana e depois para Arbitrum? Descubra as conexões sozinho. Reserve cada trecho separadamente. Torça para seus ativos chegarem. O que precisamos desesperadamente é de um “Expedia das blockchains”. Algo que cuide de toda a jornada de forma invisível enquanto os usuários se concentram no destino.

A correção já existe

A solução exige mais do que interfaces de carteira melhores ou pontes mais suaves. Precisamos de abstração de chain. Precisamos da capacidade de aplicativos interagirem com qualquer chain de forma nativa, tornando a blockchain subjacente invisível para os usuários.

Essa tecnologia existe hoje. Várias equipes estão construindo isso. Soluções de Account Abstraction como a ZeroDev melhoram a experiência de uso das carteiras, e soluções de mensageria cross-chain como o Chainlink CCIP ajudam a mover dados da chain A para a chain B. Blockchains como a ZetaChain (onde sou Core Contributor) abordam o problema de forma diferente. Desde o primeiro dia, elas permitem apps que abrangem todas as principais chains, incluindo a rede Bitcoin, que normalmente não é suportada por plataformas de contratos inteligentes cross-chain.

Imagine uma camada universal que se conecta com segurança a todas as chains, onde um único contrato inteligente gerencia ativos como stablecoins e lógica em todos os lugares simultaneamente. Os usuários veem uma ação simples de um clique, como trocar BTC nativo por ETH, depositar stablecoins na Ethereum em um app de rendimento na Solana ou aceitar pagamento em qualquer token em qualquer chain. O protocolo cuida automaticamente de toda a execução cross-chain complexa. Sem pop-ups. Sem trocas. Sem ansiedade sobre estar na “rede certa”.

A infraestrutura funciona. O que falta é admitir que nossa abordagem atual fracassou e nos comprometermos a implementar algo radicalmente mais simples.

Hora de escolher

A indústria cripto está numa encruzilhada. Podemos continuar construindo para nós mesmos, adicionando mais chains, mais pontes, mais complexidade, e permanecer um canto de nicho das finanças. Ou podemos finalmente colocar os usuários em primeiro lugar.

Lembra por que começamos este movimento? Para criar um sistema financeiro melhor. Para dar controle às pessoas. Para eliminar intermediários. Nada disso importa se pessoas comuns não conseguem usar o que construímos.

A troca de rede precisa virar peça de museu, um relicário de quando estávamos focados demais na tecnologia para enxergar os humanos tentando usá-la. Cada grande avanço em computação aconteceu quando a complexidade foi ocultada. De linhas de comando a interfaces gráficas, de endereços IP manuais a nomes de domínio, de software de desktop a serviços em nuvem.

Nosso momento chegou. A tecnologia para tornar as blockchains invisíveis está aqui, comprovada e pronta. A pergunta não é se podemos consertar a experiência do usuário no Web3.

A pergunta é se temos coragem de admitir que fomos nós que a quebramos.

Compartilhar
Continue scrollando para a próxima matéria…