Tempo da Stripe é ‘referendo sobre o fantasma da Libra’, diz cofundador
Christian Catalini vê Arc e Tempo como motores de adoção de stablecoins, mas alerta que cadeias corporativas podem trocar a descentralização por controle, recriando o velho sistema financeiro e testando o legado — e o timing — da extinta Libra.
Christian Catalini alerta que Arc e Tempo podem vencer no mercado ao preço da descentralização, recriando o velho sistema com novos atores.
Christian Catalini, cofundador do projeto Libra do Facebook, alertou que o Tempo, da Stripe, e o Arc, da Circle, podem ser um sucesso comercial — mas à custa do ideal de descentralização do cripto.
Libra: ambição global e choque regulatório
Lançada em 2019, a Libra foi a aposta da Meta para criar uma moeda digital global lastreada por uma cesta de ativos estáveis. A promessa era tornar pagamentos tão simples quanto enviar mensagens, mas o projeto provocou reação imediata de reguladores preocupados com soberania financeira, risco sistêmico e privacidade. Em 2022, a Libra — rebatizada como Diem numa tentativa de reposicionamento — foi encerrada e seus ativos, vendidos.
Concessões que definiram o rumo
Em um fio publicado no X em 5 de setembro, Catalini, que foi economista-chefe da Libra, revisitou as concessões feitas no início e explicou por que elas importam agora. Segundo ele, o desenho originalmente aberto, desenvolvido com o economista de Harvard Scott Kominers, acabou reduzido a um breve apêndice após meses de negociações com reguladores.
O primeiro grande recuo, escreveu, foi abandonar carteiras não custodiais. Reguladores exigiram um “perímetro claro”, isto é, um intermediário responsável que pudesse ser contatado — e penalizado — caso surgissem problemas. Para supervisores habituados a finanças intermediadas, um mundo em que usuários detêm de fato seu próprio dinheiro era inadministrável. “Para eles, matar a autocustódia não foi uma escolha, foi uma necessidade óbvia”, recordou.
Catalini observou a ironia: hoje, redes abertas desenvolvem ferramentas de conformidade nativas da blockchain que poderiam ter tratado dessas preocupações de forma mais eficaz do que moldes tradicionais. Mas, à época, a Libra foi forçada a retirar elementos de descentralização — um sinal precoce, disse, do rumo dos projetos liderados por corporações.
A lição mais ampla foi enfática: “Enquanto houver um pescoço único para apertar — ou um comitê deles — você não consegue de fato reprogramar o sistema. Pior: qualquer rede com um arquiteto está vivendo de tempo emprestado.”
Arc e Tempo sob os holofotes
Nesse contexto, Catalini situou o Tempo, da Stripe, e o Arc, da Circle. Ambos são novas blockchains desenhadas explicitamente para pagamentos, apresentadas como infraestrutura de stablecoins para empresas e fintechs.
A Circle lançou o Arc em 12 de agosto, apresentando-o como uma rede de camada 1, construída para finanças com stablecoins. Diferente de cadeias públicas que dependem de tokens de gás voláteis, o Arc usa USDC para taxas, oferecendo custos previsíveis, denominados em dólar.
O Arc integra um motor de câmbio embutido, promete finalidade em subsegundos e inclui recursos de privacidade opt-in. A Circle disse que o Arc suportará pagamentos transfronteiriços, sistemas de crédito on-chain, mercados de capitais tokenizados e pagamentos programáveis e automatizados.
Semanas depois, Stripe e Paradigm anunciaram o Tempo em 4 de setembro, descrevendo-o como uma blockchain com foco em pagamentos capaz de lidar com mais de 100.000 transações por segundo.
A rede é compatível com EVM, traz uma via dedicada a pagamentos com suporte a memos e listas de acesso, e permite pagar transações e gás em qualquer stablecoin. Segundo a Stripe, os parceiros de design iniciais incluem Visa, Deutsche Bank, Revolut, Nubank, Shopify, OpenAI, Anthropic e DoorDash.
Revolução ou golpe fracassado?
Para Catalini, cadeias corporativas como Arc e Tempo correm o risco de simplesmente reconstruir o velho sistema financeiro com novos players no comando. Em vez de deslocar redes de cartões e bancos, advertiu, podem elevar gigantes de fintech à mesma posição de dominância. “O trono terá novos ocupantes, mas será o mesmo trono”, escreveu.
Ele também previu que tais redes se fragmentariam geopoliticamente, com blocos Ocidente-Oriente improváveis de compartilhar uma única infraestrutura liderada por empresas. O resultado, disse, seriam impérios financeiros concorrentes — e não o sistema sem fronteiras imaginado pelos primeiros defensores do cripto.
No fim, Catalini descreveu o Tempo, da Stripe, como um “referendo sobre o fantasma da Libra”. Se prosperar, sugeriu, poderá provar que a Libra falhou por timing, não por design — e que o sonho de dinheiro aberto e permissionless foi suplantado por soluções mais pragmáticas e centralizadas.
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