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Finanças

Berkshire tem 37% da SiriusXM: a tese por trás da aposta

A Berkshire já investiu US$ 4 bi na plataforma de rádio por satélite. Turnaround, parceria com YouTube e base de 33 mi de assinantes sustentam a tese.

Berkshire tem 37% da SiriusXM: a tese por trás da aposta
Foto: Shreyaan Vashishtha / Unsplash

A Berkshire Hathaway ampliou mais uma vez sua posição na SiriusXM, a maior plataforma de rádio por satélite dos Estados Unidos. Com a compra de mais 1 milhão de ações, a companhia agora detém 37% do capital da empresa, uma posição avaliada em cerca de US$ 4 bilhões.

O movimento pode parecer contraintuitivo. A SiriusXM opera num mercado que muitos consideram em declínio, pressionado por plataformas de streaming como Spotify e Apple Music. Ainda assim, a ação subiu 8% após o anúncio e acumula alta de 53% em 12 meses. Nos últimos cinco anos, porém, o papel ainda recua 47%.

Entender o que a Berkshire enxerga nessa tese exige olhar além da narrativa simplista de “rádio é coisa do passado”. Há um turnaround em curso, parcerias de publicidade com gigantes da tecnologia e uma base de mais de 33 milhões de assinantes pagantes que gera receita recorrente, algo que investidores de valor costumam apreciar.

A origem da posição e o papel de Ted Wechsler

A Berkshire começou a investir na SiriusXM em 2017, quando a Liberty Media de John Malone criou uma tracking stock atrelada à empresa de rádio. Na época, as finanças da SiriusXM não entusiasmavam: a concorrência crescia, a base de assinantes envelhecia e a empresa carregava dívida relevante.

A principal suspeita do mercado é que Ted Wechsler, hoje o principal stockpicker da Berkshire, tenha sido o responsável pela decisão. Wechsler detém ações da SiriusXM na pessoa física e mantinha proximidade com a gestão da companhia. O perfil da posição reforça essa leitura: é um investimento que corresponde a pouco mais de 1% do portfólio total da Berkshire, tamanho típico de apostas dos gestores delegados, não do próprio Warren Buffett.

Em 2024, quando a Liberty Media concluiu a cisão com a SiriusXM, a Berkshire passou a ser investidora direta. Desde então, só aumentou a exposição. A companhia comandada agora por Greg Abel parece confortável com a tese de longo prazo, mesmo após a transição de liderança que comentamos aqui.

O turnaround que o mercado não esperava

A SiriusXM nasceu em 2008 da fusão entre as duas únicas rádios por satélite com atuação nacional nos EUA: Sirius e XM. A operação foi custosa e quase levou a empresa à recuperação judicial em meio à crise do subprime. Um empréstimo emergencial da Liberty Media evitou o pior.

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Por anos, a empresa operou como um quase monopólio confortável. Mas o avanço do streaming musical mudou o cenário competitivo de forma radical. A base de assinantes começou a encolher e o mercado precificou a empresa como um negócio em declínio estrutural.

Desde 2024, no entanto, a SiriusXM trabalha num plano de reestruturação que inclui três frentes: redução de custos operacionais, mudanças na política de preços e investimentos em tecnologia e conteúdo, incluindo podcasts. Os resultados começaram a aparecer. A base de usuários voltou a crescer nos últimos trimestres, contrariando as expectativas de retração do consenso de mercado.

Para quem acompanha teses de investimento em valor, o padrão é familiar. Empresas com receita recorrente, base de clientes cativa e gestão comprometida com eficiência costumam surpreender quando o mercado já precificou o pior cenário.

Parcerias com Amazon e YouTube mudam a equação

O grande catalisador de curto prazo pode não ser a base de assinantes, mas a publicidade. Desde abril, a SiriusXM comercializa com exclusividade os anúncios em áudio veiculados no YouTube nos Estados Unidos. Segundo analistas do Deutsche Bank, essa parceria sozinha pode gerar até US$ 2 bilhões em receitas adicionais até 2029.

A lógica é simples. O YouTube tem escala massiva em áudio, com milhões de usuários consumindo música e podcasts na plataforma. A SiriusXM tem a infraestrutura comercial e os relacionamentos com anunciantes para monetizar esse inventário. É uma parceria que explora complementaridades sem exigir investimento pesado de capital.

Além da parceria com o YouTube, a empresa também firmou acordos publicitários com a Amazon, ampliando os canais de monetização. Para uma companhia que historicamente dependeu quase exclusivamente de assinaturas, diversificar receita com publicidade programática representa uma mudança estrutural no modelo de negócios.

Conteúdo exclusivo como barreira competitiva

A SiriusXM não compete apenas com preço ou distribuição. A empresa investiu pesado em conteúdo exclusivo ao longo dos anos. Contratos com comunicadores como Howard Stern e Conan O’Brien, licenciamento de transmissões da NBA e programação da CNN transformada em canais 24 horas criam uma oferta difícil de replicar.

Em 2019, a companhia pagou US$ 3,5 bilhões pela Pandora, plataforma que cria playlists personalizadas com base nos gostos do usuário. A Pandora adiciona 6 milhões de assinantes pagantes e outros 33 milhões de usuários no plano gratuito, monetizados via publicidade. Somando tudo, o ecossistema alcança mais de 70 milhões de ouvintes.

A empresa vale hoje US$ 11,2 bilhões na bolsa. Com US$ 4 bilhões investidos, a Berkshire está posicionada para capturar boa parte do valor caso o turnaround se consolide. Para quem investe em ações globais e acompanha o histórico de movimentos da Berkshire, a mensagem é clara: quando a maior seguradora do mundo aumenta posição trimestre após trimestre, há convicção por trás dos números.

O que está em jogo para o investidor

A tese da Berkshire na SiriusXM não é sobre rádio. É sobre receita recorrente, poder de precificação e uma janela de monetização publicitária que o mercado ainda não precificou integralmente. O risco permanece: a base de assinantes continua envelhecendo e a transição para o digital precisa acelerar.

Mas a combinação de parcerias com big techs, reestruturação operacional e um acionista de referência com horizonte de décadas é o tipo de configuração que investidores de valor costumam buscar. A Berkshire não costuma errar ao comprar ativos impopulares. Resta saber se a SiriusXM será mais uma confirmação dessa regra.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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