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Finanças

Focus pós-eleição: mercado vê inflação, juros e dólar piores até 2029

Economistas revisaram quase todas as projeções do Focus após a reeleição de Lula. Inflação, Selic, dólar e PIB pioraram em toda a curva até 2029.

Focus pós-eleição: mercado vê inflação, juros e dólar piores até 2029
Foto: Rossinei Franco / Unsplash

O Relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira trouxe uma deterioração que não se via há meses. Quase todas as projeções dos economistas consultados foram revisadas para pior, num movimento que reflete diretamente o resultado das urnas e a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o quarto mandato.

As medianas coletadas na semana passada capturam a reação imediata do mercado ao cenário eleitoral. A leitura é clara: os agentes econômicos esperam mais inflação, juros mais altos por mais tempo, um real mais fraco e crescimento menor. É o retrato de uma economia que, na visão do consenso, terá menos espaço para afrouxamento monetário nos próximos anos.

Inflação resistente até o fim da década

A projeção para o IPCA de 2026 subiu de 5,19% para 5,22%, mantendo-se acima de 5% e distante do centro da meta de inflação. Mas o dado mais relevante está no horizonte mais longo. O IPCA estimado para 2027 saltou de 4,34% para 4,76%, a terceira alta semanal consecutiva, um sinal de que o mercado começa a precificar uma desancoragem mais persistente das expectativas.

Para 2028, a mediana passou de 3,75% para 4,00%. Para 2029, subiu de 3,50% para 3,98%. O padrão é inequívoco: a curva inteira de inflação se deslocou para cima. Quando projeções de três e quatro anos à frente pioram dessa forma, o recado dos economistas é que os problemas estruturais de política fiscal estão sendo reforçados pelo novo ciclo político.

Vale lembrar que, como analisamos em matérias sobre a trajetória da política monetária brasileira, expectativas de inflação desancoradas tendem a se retroalimentar. Empresas remarcam preços antecipando custos mais altos, e o Banco Central se vê obrigado a manter juros restritivos por mais tempo do que o necessário.

Selic mais alta por mais tempo: o que isso significa na prática

A projeção da Selic para o fim de 2026 subiu de 13,25% para 13,50% ao ano. Para 2027, o salto foi ainda mais expressivo: de 11,75% para 12,50%. As estimativas para 2028 saíram de 10% para 11%, e para 2029, de 10% para 10,25%.

Traduzindo em termos práticos: o mercado agora trabalha com um cenário em que a taxa básica de juros permanece em dois dígitos até pelo menos 2029. Isso tem implicações diretas para quem investe em renda variável, para o custo de crédito das empresas e para o ritmo de crescimento econômico. Financiamentos imobiliários, crédito ao consumo e a capacidade de investimento do setor produtivo ficam comprimidos por mais tempo.

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A mudança na curva de juros também afeta diretamente o mercado de renda fixa. Títulos prefixados longos perdem valor quando as expectativas de juros sobem, e investidores que apostaram em queda da Selic no médio prazo enfrentam marcação a mercado negativa.

Dólar mais caro em toda a curva

O câmbio foi revisado para cima em todos os horizontes acompanhados pelo Focus. A projeção para o dólar no fim de 2026 saltou de R$ 5,05 para R$ 5,34, uma revisão de quase 6% em uma única semana. Para 2027, a estimativa subiu de R$ 5,15 para R$ 5,40. Em 2028, de R$ 5,20 para R$ 5,40, e em 2029, de R$ 5,28 para R$ 5,45.

Um real mais depreciado encarece importações, pressiona a inflação de bens industriais e de alimentos, e reduz o poder de compra do brasileiro em termos internacionais. Para investidores com exposição a ativos dolarizados, o movimento pode representar proteção. Para a economia doméstica, é mais um vetor de pressão inflacionária que reforça o ciclo de aperto monetário.

A combinação de dólar mais alto com juros elevados cria um ambiente desafiador para o crescimento. É um cenário que historicamente favorece ativos de proteção e estratégias defensivas nos portfólios.

PIB em queda: crescimento menor com custo maior

As projeções de crescimento também foram revisadas para baixo. O PIB estimado para 2026 caiu de 1,80% para 1,76%, a terceira semana consecutiva de queda. Para 2027, a revisão foi mais acentuada: de 1,31% para 1,20%. As estimativas para 2028 tiveram ajuste marginal, de 1,81% para 1,80%, e para 2029 permaneceram em 2%.

O que chama atenção é a combinação de crescimento abaixo de 2% com inflação acima de 4% em todo o horizonte. Esse cenário de baixo crescimento com inflação elevada reduz a margem de manobra do governo para políticas expansionistas e limita a capacidade do Banco Central de cortar juros sem perder credibilidade.

Para quem acompanha o mercado financeiro brasileiro, o Focus desta semana funciona como um termômetro do pessimismo pós-eleitoral. Não se trata de uma reação pontual: a deterioração em toda a curva, de 2026 a 2029, sinaliza que os economistas estão reprecificando o arcabouço fiscal e a política econômica esperada para os próximos anos.

O que o investidor deve observar daqui para frente

O Focus é uma fotografia semanal das expectativas, não uma previsão infalível. Mas quando as revisões são tão amplas e coordenadas, o sinal é relevante. O mercado está pedindo clareza sobre a condução fiscal e sinalizando que, sem ela, o prêmio de risco brasileiro continuará subindo.

Os próximos pontos de atenção são a formação da equipe econômica do novo mandato, eventuais sinalizações sobre a política fiscal e a reação do Banco Central nas próximas reuniões do Copom. Enquanto isso, o investidor opera num ambiente de juros altos, moeda fraca e crescimento anêmico, um cenário que exige posicionamento defensivo e seletividade na alocação de capital.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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