Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Finanças

Vale enfrenta tempestade perfeita: custos sobem e minério despenca

Goldman Sachs cortou em 15% a projeção de lucro da Vale no 2º semestre. Minério bateu mínima de dois anos em Dalian. Entenda o que pesa sobre VALE3.

Vale enfrenta tempestade perfeita: custos sobem e minério despenca
Foto: Kefentse Molotsane / Unsplash

As ações da Vale (VALE3) recuavam cerca de 2% na manhã desta terça-feira (27), negociadas a R$ 63,06, devolvendo boa parte dos 4% de ganho do pregão anterior. O gatilho imediato veio da China: o principal contrato de minério de ferro na Bolsa de Dalian atingiu o menor patamar em mais de dois anos. Mas o problema da maior mineradora do Brasil é mais profundo do que uma sessão ruim no mercado asiático.

O Goldman Sachs publicou nesta terça um relatório cortando em aproximadamente 15% suas projeções de lucro para a Vale no segundo semestre de 2026 e em 9% para 2027. Os motivos são uma combinação de custos mais altos, preços de referência mais fracos e volumes de menor margem ganhando participação no mix de vendas. Para quem acompanha a tese de investimento na mineradora, o cenário exige atenção redobrada.

Por que o minério de ferro está derretendo

A dinâmica é sazonal, mas desta vez vem acompanhada de agravantes estruturais. O consumo de aço na China costuma se contrair no quarto trimestre porque as temperaturas baixas na região norte do país paralisam boa parte das obras ao ar livre. Isso reduz a demanda por metal quente, que funciona como termômetro direto do apetite por minério de ferro.

Segundo analistas da consultoria Horizon Insights, as margens das siderúrgicas chinesas permanecem estreitas, o que limita a produção. Ao mesmo tempo, a oferta global de minério tende a crescer no quarto trimestre, criando um descompasso clássico entre oferta abundante e demanda enfraquecida. Esse cenário já pressionou os preços para baixo e pode manter a commodity em patamares deprimidos por mais tempo do que o mercado gostaria.

Para investidores que acompanham o mercado de commodities e seus reflexos na bolsa brasileira, a leitura é clara: sem recuperação da atividade industrial chinesa, o minério dificilmente encontra um piso firme.

O que o Goldman Sachs está dizendo sobre a Vale

O corte de projeções do banco americano não se resume à queda do minério. Os analistas identificaram pressões de custo relevantes que devem apertar as margens da mineradora nos próximos trimestres. Diesel e frete mais caros encarecem a operação logística, que é uma das maiores do mundo. Parte desse impacto pode ser compensada pela valorização do dólar frente ao real, já que a receita da Vale é majoritariamente dolarizada, mas o alívio cambial não resolve tudo.

Para o terceiro trimestre de 2026, a expectativa do Goldman é de um EBITDA de US$ 3,3 bilhões, uma queda de 20% em relação ao trimestre anterior. Os fatores: menor produção de minério, preços realizados mais fracos e custos logísticos em alta. A mineradora divulga seus resultados na quinta-feira (29), após o fechamento do mercado.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.

Há ainda um componente estrutural que preocupa: a exaustão acelerada das reservas de Serra Norte, um dos complexos mais antigos e produtivos do sistema Norte da Vale. Com menos minério de alta qualidade disponível, a companhia precisa recorrer a volumes de terceiros com margem inferior, diluindo a rentabilidade do portfólio.

Cobre e níquel também não ajudam

A estratégia de diversificação da Vale em metais de transição energética, como cobre e níquel, ainda não entrega os resultados esperados. Segundo o relatório do Goldman, ambas as operações enfrentam desafios simultâneos: preços mais baixos e custos mais altos. No caso do cobre, há o agravante de uma produção reduzida, o que limita ainda mais a contribuição dessas divisões para o resultado consolidado.

Essa é uma questão relevante para quem comprou a tese de que a Vale se tornaria uma empresa de “metais do futuro”. A transição existe, mas o caminho até ela gerar valor consistente ainda é longo. Quem analisa a dinâmica de investimentos em commodities metálicas sabe que ciclos de preço e execução operacional raramente se alinham no mesmo trimestre.

A desconexão entre fundamentos e preço

Nem tudo é pessimismo. Grandes casas de análise, como o JPMorgan, apontam que existe uma desconexão entre os fundamentos operacionais da Vale e o desempenho recente das ações. A resolução do acordo de Mariana, que durante anos foi uma das maiores incertezas sobre a companhia, retirou um desconto de risco significativo do papel.

A produção da mineradora segue consistente e a empresa tem mostrado disciplina na redução de custos operacionais, mesmo diante de um ambiente macroeconômico adverso. Para investidores com horizonte mais longo, o argumento é que o mercado está precificando um cenário excessivamente negativo para a commodity, sem considerar que eventual retomada da atividade chinesa pode reverter rapidamente a dinâmica de preços.

O dólar, aliás, adiciona outra camada de complexidade. A moeda americana recuava 0,85% nesta terça, cotada a R$ 5,35, o que pressiona as ações da Vale. No pregão anterior, a alta de 4% da mineradora foi impulsionada justamente pela valorização cambial. Essa correlação entre câmbio e exportadoras é um fator que investidores precisam monitorar de perto.

O que esperar dos resultados de quinta-feira

O balanço do terceiro trimestre será o primeiro teste concreto das preocupações levantadas pelo Goldman. Se o EBITDA ficar próximo dos US$ 3,3 bilhões projetados, confirmando a queda de 20%, o mercado vai querer entender o guidance da companhia para o restante do ano e como a gestão pretende mitigar as pressões de custo.

Pontos de atenção incluem: o custo caixa C1 por tonelada, a evolução do mix de vendas entre minério próprio e de terceiros, e qualquer sinalização sobre investimentos em expansão de capacidade. Em um trimestre em que a receita deve encolher por preço e volume, a capacidade da Vale de controlar o que está ao seu alcance será determinante para a reação do mercado.

Para o investidor, o momento pede cautela analítica. A Vale continua sendo a maior mineradora de ferro do mundo, com ativos de classe mundial e geração de caixa robusta mesmo em cenários adversos. Mas a combinação de minério no menor nível em dois anos, custos em alta e projeções de lucro em queda configura um ambiente que exige mais do que otimismo. Exige dados concretos, que começam a chegar na quinta-feira.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…