Nokia e a aposta em óptica para IA que o mercado ignora
A Nokia cresceu 43% em redes IP e dobrou vendas para clientes de IA, mas caiu 15% em Nova York. O mercado erra ao ler o caixa como problema.
Para a maioria das pessoas, Nokia é sinônimo de celular indestrutível dos anos 2000. Para o mercado financeiro, é uma telecom madura com cara de armadilha de valor. Ambas as leituras estão defasadas. O resultado do terceiro trimestre mostra uma empresa em plena transformação rumo à infraestrutura de inteligência artificial, com crescimento acelerado nas divisões que mais importam para o futuro. Mesmo assim, a ação caiu 15% em Nova York no dia da divulgação, fechando a US$ 7,88.
O número mais relevante do trimestre: as vendas de redes IP cresceram 43%. As vendas para clientes de IA e nuvem mais que dobraram. O lucro operacional avançou 35%. A margem operacional da divisão de infraestrutura de rede, que já responde por 42% da receita, saltou de 7,7% para 10%. Em óptica, o volume de módulos de 800G foi 2,4 vezes maior que no trimestre anterior, já vendidos para 29 clientes.
Então por que a queda? Porque o mercado olhou para o caixa e não gostou do que viu. E não foi só a Nokia. Ciena caiu 10,7%, Lumentum 11,5%, Coherent 12,5%. O setor inteiro de infraestrutura de rede para IA sofreu no pregão.
O problema do caixa é real ou é ruído?
A Nokia reduziu a meta de conversão de lucro em caixa para 2026, de uma faixa de 55%-75% para 35%-55%. Vai investir 400 milhões de euros adicionais em capital de giro para garantir componentes. O caixa de reestruturação, estimado em janeiro em 450 milhões de euros, agora deve ficar entre 800 e 900 milhões de euros. O caixa líquido caiu de 3,8 bilhões de euros em março para 2,6 bilhões de euros.
A leitura superficial é de que a empresa está queimando dinheiro. A leitura mais cuidadosa sugere outra coisa: esse dinheiro foi para o estoque. A própria companhia afirma que venderia mais se tivesse mais componentes disponíveis. O mercado de óptica hoje é limitado pela oferta, não pela demanda. Quando os pedidos já estão na mesa e faltam peças, antecipar compras é gestão prudente, não desperdício.
Em nove meses, a Nokia acumulou 5,3 bilhões de euros em pedidos de IA e nuvem e faturou apenas 1,4 bilhão de euros. Os clientes estão comprando muito à frente da capacidade de entrega. A gestão projeta crescimento de 25% a 30% em óptica e IP para 2027 e manteve a expectativa de lucro operacional de 2026 acima do ponto médio da faixa de 2,1 a 2,6 bilhões de euros.
Dito isso, a tese tem um gatilho claro de validação: o capital de giro investido agora precisa retornar como receita e caixa em 2027. Se não voltar, a narrativa muda.
De fabricante de celulares a infraestrutura de IA
A transformação da Nokia não é acidental. A aquisição da Infinera deu escala à companhia em óptica coerente, a tecnologia que conecta data centers entre si. Nove dos dez maiores hyperscalers já usam óptica da Nokia. A Nvidia, que raramente erra sobre onde estará o próximo gargalo, comprou cerca de US$ 1 bilhão em ações da empresa há cerca de um ano.
A escolha do CEO reforça a direção. Justin Hotard, que assumiu em 2025, veio de comandar o negócio de data center e IA da Intel e, antes disso, supercomputação na HPE. A Nokia contratou um operador de data centers para liderar uma empresa que quer ser a espinha dorsal da infraestrutura de IA. Esse tipo de movimentação estratégica lembra o que discutimos ao analisar tendências no setor financeiro ligadas à corrida por infraestrutura tecnológica.
Há ainda um ativo que o preço da ação ignora por completo: a Nokia é dona do Bell Labs, o laboratório onde nasceram o transistor, o laser e a teoria da informação. É ali que são desenvolvidos os chips ópticos, as patentes e a tecnologia de 6G da empresa. Numa transformação dessa magnitude, ter o Bell Labs dentro de casa é uma opcionalidade que vem praticamente de graça no valuation atual.
O ciclo de investimento em IA não é de dois anos
Nos dias de queda generalizada, o mercado parece precificar que o investimento em IA vai se encerrar em dois anos e levar junto as empresas que vivem dele. Os dados apontam na direção oposta.
Segundo a Epoch AI, instituto de pesquisa que acompanha esses números, o investimento dos hyperscalers quadruplicou desde o lançamento do GPT-4 e segue em tendência de alta: algo como US$ 770 bilhões neste ano e mais de US$ 1 trilhão em 2027. O estoque de capacidade de computação em chips de IA cresce 3,4 vezes por ano. Esse contexto é crucial para entender como a infraestrutura de tecnologia se torna cada vez mais determinante para o setor.
O dado que mais importa para a tese da Nokia é o tamanho das máquinas. O maior supercomputador de IA em operação, o Colossus 2, em Memphis, tem cerca de 1 gigawatt de capacidade. A energia exigida pelo maior supercomputador dobrou a cada ano. A Epoch calcula que, se o ritmo continuar, o maior de 2030 precisará de 9 gigawatts, quase dois terços da capacidade instalada de Itaipu.
Como não é viável concentrar tanta energia num único local, a indústria já contorna o problema. A Microsoft, por exemplo, conecta por fibra óptica dois data centers a mais de mil quilômetros de distância, em Wisconsin e na Geórgia, para que operem como um único supercomputador. Com data centers concentrados ou distribuídos, cresce a necessidade de mover dados por fibra. E a conexão entre data centers é justamente onde a Nokia é mais forte.
Qual é o risco real?
O risco para a tese não é a demanda sumir. É o financiamento. Segundo a mesma Epoch, o investimento dos cinco maiores hyperscalers já está ultrapassando a geração de caixa operacional deles. Isso merece acompanhamento. Mas os sinais apontam para um ciclo de uma década, não para um pico de dois anos. Como abordamos em análises sobre o mercado financeiro global, ciclos de infraestrutura tendem a ser mais longos e resilientes do que o mercado precifica nos momentos de pânico.
Hoje, a Nokia negocia com múltiplos de telecom para um negócio que se parece cada vez mais com infraestrutura de IA. A ação está em menos da metade do pico de junho. Os pedidos continuam fortes, a receita cresce em dois dígitos nas divisões certas e a empresa tem ativos difíceis de replicar, como o Bell Labs e a base de clientes entre os maiores hyperscalers do mundo.
O mercado pode estar certo em cobrar disciplina de caixa. Mas parece errado em precificar a Nokia como se a demanda por infraestrutura de IA estivesse prestes a acabar. A questão central é outra: quando centenas de milhares de chips precisam conversar entre si dentro de um data center, o cobre não dá conta. A resposta é luz. E é nisso que a Nokia aposta.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


