Dólar cai com pesquisas eleitorais apertadas: o que muda
Novas pesquisas mostram empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula, e o câmbio reage. Entenda o que a incerteza eleitoral significa para seus investimentos.
O dólar à vista abriu a semana cotado a R$ 5,046, em queda de 0,54% nas primeiras horas do pregão desta segunda-feira (19). O movimento reflete a reação do mercado a duas novas pesquisas eleitorais que apontam encurtamento da distância entre o senador Flávio Bolsonaro e o presidente Lula, a seis dias do segundo turno.
Mais do que o número em si, o que importa ao investidor é o sinal que o câmbio está emitindo: em cenários de alta incerteza política, a volatilidade do real tende a se comprimir antes de explodir. E estamos exatamente nesse ponto de inflexão.
O que as pesquisas mostram sobre a corrida eleitoral
Dois levantamentos divulgados nesta manhã pintam quadros ligeiramente diferentes, mas com a mesma conclusão prática: a disputa está aberta. Na pesquisa BTG/Nexus, Flávio Bolsonaro aparece com 46,5% contra 45,9% de Lula, configurando empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Já no levantamento da AtlasIntel, encomendado pela Bloomberg, o senador marca 49,8% e Lula fica com 47,6%. A diferença de 2,2 pontos está acima da margem de erro de um ponto percentual, o que daria a Flávio uma vantagem estatisticamente significativa nessa amostra específica. Ainda assim, a tendência de aproximação entre os candidatos é o dado mais relevante.
A dinâmica eleitoral ganhou combustível extra após o debate de domingo na TV Band, o primeiro confronto direto entre os dois candidatos neste segundo turno. O embate foi marcado por ataques cruzados. Flávio questionou o suposto envolvimento do filho de Lula, Fábio Luiz, no escândalo do INSS. Lula, por sua vez, pressionou o senador sobre suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, tema que já havia gerado turbulência no mercado financeiro brasileiro nos meses anteriores.
Por que o dólar reage assim a pesquisas eleitorais
Pode parecer contraintuitivo: as pesquisas mostram disputa apertada, e o dólar cai. A lógica, no entanto, é mais sutil do que parece à primeira vista.
O mercado vinha precificando uma chance maior de vitória de Flávio Bolsonaro, cujo programa econômico é lido como mais alinhado a uma agenda de corte de gastos e privatizações. A aproximação de Lula nas pesquisas, em tese, deveria gerar mais incerteza e pressionar o câmbio para cima. Mas o que está acontecendo é um ajuste de posições.
Muitos investidores institucionais já carregavam posições vendidas em real, apostando na volatilidade da reta final. Com o debate de domingo sem gerar fato novo que mudasse drasticamente as probabilidades, parte desses agentes realizou lucro, devolvendo dólares ao mercado. É um movimento técnico, não necessariamente uma declaração de confiança em qualquer candidato.
Historicamente, a semana que antecede o segundo turno de eleições presidenciais no Brasil apresenta alta volatilidade no câmbio. Em outubro de 2022, por exemplo, o dólar oscilou mais de 4% nos cinco pregões que antecederam a votação decisiva. A diferença agora é que o ponto de partida do câmbio está mais baixo: R$ 5,04 contra R$ 5,30 em cenário equivalente naquela eleição.
O que o Focus revela sobre o cenário macroeconômico
Enquanto as pesquisas dominam as manchetes, o Relatório Focus do Banco Central publicado nesta manhã traz sinais igualmente importantes para quem monta posição de médio prazo.
Os economistas consultados mantiveram em 5,22% a projeção de IPCA para 2026, um número que segue acima do teto da meta de inflação. Ao mesmo tempo, reduziram a estimativa de crescimento do PIB de 1,85% para 1,83%, reforçando o cenário de atividade econômica moderada.
A combinação é conhecida: inflação persistente com crescimento fraco. Isso explica por que a expectativa para a Selic se manteve estável em 13,25% ao ano. O Banco Central não tem espaço para cortar juros com a inflação rodando acima do teto, e o mercado não espera alívio monetário tão cedo, independentemente de quem vença a eleição.
Um dado positivo veio da projeção para o dólar ao fim do ano, que recuou de R$ 5,15 para R$ 5,13. A revisão é marginal, mas indica que o consenso do mercado aponta para uma moeda americana ligeiramente mais fraca no curto prazo, possivelmente incorporando a expectativa de que o próximo governo, seja qual for, terá incentivos para sinalizar responsabilidade fiscal nos primeiros meses.
O que observar nos próximos dias
A semana promete ser a mais volátil do ano para ativos brasileiros. Além do fluxo natural de pesquisas eleitorais diárias, o calendário traz novos debates e a possibilidade de eventos de campanha que alterem a dinâmica da corrida. Para o investidor, três pontos merecem atenção.
Primeiro, o comportamento do CDS de cinco anos do Brasil, o indicador de risco-país mais acompanhado por investidores estrangeiros. Se o spread subir acima de 180 pontos-base, será sinal de que o capital internacional está ficando nervoso com a indefinição.
Segundo, o fluxo cambial. Dados do Banco Central sobre entrada e saída de dólares nos próximos dias vão mostrar se investidores estrangeiros estão reduzindo exposição ao Brasil ou aproveitando o câmbio abaixo de R$ 5,10 para montar posição.
Terceiro, e talvez mais importante: o tom dos candidatos sobre política fiscal. O mercado está menos interessado em quem vai ganhar e mais preocupado com o que o vencedor vai fazer nos primeiros 100 dias. Qualquer sinalização concreta sobre reforma tributária, teto de gastos ou política de juros terá impacto imediato no câmbio e na curva de juros.
A queda do dólar nesta manhã é um movimento tático, não estrutural. A definição do câmbio brasileiro para o restante de 2026 será escrita no próximo domingo e nos dias que se seguirem a ele.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


