CVM cria sandbox de tokenização: o que muda no mercado
A Resolução 249/2026 da CVM institui um ambiente de testes para emissão e negociação de ativos tokenizados em blockchain, sem investidores reais. Entenda o impacto.
A CVM deu o passo mais concreto até agora para trazer a tokenização de ativos para dentro do perímetro regulatório brasileiro. A Resolução 249/2026, publicada nesta quarta-feira (14), cria o Programa Piloto DLT, um ambiente experimental onde empresas poderão testar a emissão, negociação e liquidação de valores mobiliários em redes de registro distribuído. Nenhum centavo de investidor real será usado nos testes. É um sandbox no sentido mais literal do termo.
A decisão não é trivial. O Brasil já conta com um mercado de tokenização que movimenta bilhões de reais fora do radar da autarquia, em operações que muitas vezes se apoiam em brechas regulatórias. Ao criar um programa piloto formal, a CVM sinaliza que pretende entender a tecnologia antes de regulá-la de forma definitiva. É o oposto do que fez com criptoativos por anos, quando optou por observar à distância.
O que o Programa Piloto DLT vai testar na prática
O desenho do programa é restrito por natureza. As empresas participantes ficam dispensadas de cadastros convencionais exigidos para ofertas públicas, mas operam exclusivamente em ambiente simulado. Não há negociação com recursos financeiros reais nem acesso a investidores de varejo durante a fase de testes.
O cronograma prevê sessenta dias de testes ativos nas redes admitidas, com possibilidade de prorrogação por mais trinta dias. Nesse período, as equipes técnicas da CVM vão avaliar integração entre plataformas, segurança cibernética de contratos inteligentes e a capacidade de auditoria das transações registradas em blockchain.
Um ponto relevante: os construtores das redes precisam fornecer acesso irrestrito de leitura e auditoria para os técnicos da comissão. Isso significa que redes totalmente privadas, sem camada de transparência, estão fora do jogo. O regulador quer ver tudo, em tempo real.
Como destacou o presidente da CVM, Otto Lobo, a tokenização “já está transformando a infraestrutura do mercado de capitais” e cabe ao regulador “testar soluções, dialogando com o mercado, para ter ainda mais subsídios para identificar os caminhos regulatórios mais adequados”.
Por que a neutralidade tecnológica importa
A CVM fez questão de ressaltar que o programa não privilegia nenhuma rede ou protocolo específico. A construção contou com ampla escuta de participantes do mercado por meio do Grupo de Trabalho de Tokenização, estruturado ao longo de 2026. Associações e entidades interessadas têm quinze dias úteis para submeter propostas de infraestrutura e gestão de rede ao comitê.
Essa neutralidade é estratégica. O mercado global de tokenização se fragmentou em dezenas de soluções, de redes como Ethereum e Solana a blockchains permissionadas construídas por grandes bancos. Se a CVM escolhesse uma tecnologia de antemão, mataria a competição antes de ela começar. Ao manter o campo aberto, permite que o próprio teste revele quais arquiteturas funcionam melhor para o mercado de capitais brasileiro.
Bruno Gomes, superintendente de Securitização e Agronegócio da CVM e coordenador do grupo de trabalho, reforçou que “o diálogo foi fundamental para que o programa fosse abrangente nos testes para diversas tecnologias”. A ideia é que diferentes soluções compitam em condições iguais dentro do sandbox.
Inteligência artificial na supervisão: o próximo passo
Um detalhe que passou despercebido na publicação é a menção explícita ao uso de inteligência artificial na supervisão dos testes. José Alexandre Vasco, superintendente de Desenvolvimento e Modernização Institucional da CVM, afirmou que a autarquia “avança na análise e seleção de modelos de Inteligência Artificial aplicáveis à supervisão do mercado de capitais”.
Isso indica que a CVM não quer apenas regular tokenização com as ferramentas de sempre. A ideia é construir uma camada de supervisão automatizada capaz de monitorar contratos inteligentes e transações em blockchain sem depender exclusivamente de análise humana. Se funcionar, o modelo pode se tornar referência para a aplicação de IA em regulação financeira no país.
Estudos de governança e a estruturação dessa supervisão baseada em ferramentas automatizadas integram os próximos passos das equipes técnicas. O relatório final do programa piloto consolidará os resultados e servirá de base para a formulação de regras permanentes para a economia digital.
O que isso significa para quem investe
No curto prazo, nada muda. O programa piloto é experimental, restrito e sem dinheiro real circulando. Mas o sinal que a CVM envia é inequívoco: a tokenização de valores mobiliários terá um arcabouço regulatório próprio no Brasil, e esse arcabouço está sendo construído agora.
Para o mercado de criptomoedas e ativos digitais, a movimentação da CVM representa uma legitimação institucional importante. Empresas que hoje operam em zonas cinzentas terão, em breve, regras claras para tokenizar ativos como debêntures, cotas de fundos e recebíveis.
O histórico de sandboxes regulatórios no mundo sugere cautela com prazos. O Banco Central britânico lançou seu sandbox de fintech em 2016 e levou anos para transformar os aprendizados em legislação definitiva. A CVM, no entanto, parece ter aprendido com experiências internacionais ao estipular um cronograma curto de noventa dias (sessenta mais trinta de prorrogação) e exigir transparência total dos participantes.
O ponto de atenção é o que vem depois. Se o relatório final concluir que a tecnologia é viável e segura, a próxima etapa será a redação de normas permanentes. E é aí que o jogo fica sério: as regras definidas pela CVM vão determinar quem pode operar, quais ativos podem ser tokenizados e quais proteções o investidor terá. O sandbox acaba. A regulação fica.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


