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Finanças

Dólar a R$ 4,70: o que a revisão do Goldman Sachs sinaliza

Goldman Sachs cortou estimativa do dólar de R$ 5,20 para R$ 4,70 em três meses. Entenda o que está por trás da revisão e os riscos no caminho.

Dólar a R$ 4,70: o que a revisão do Goldman Sachs sinaliza
Foto: Daniel Dan / Unsplash

O Goldman Sachs fez uma das revisões mais expressivas dos últimos anos para a moeda brasileira. A projeção para o dólar em três meses caiu de R$ 5,20 para R$ 4,70. Em seis meses, foi de R$ 5,10 para R$ 4,75. Em doze meses, de R$ 5,00 para R$ 4,80. Em resumo: o banco americano passou a apostar numa valorização acelerada do real, concentrada no curto prazo.

A pergunta que importa não é se o Goldman acertará o número exato. É o que essa mudança de postura revela sobre a leitura que o mercado global está fazendo do Brasil neste momento, e quais condições precisam se confirmar para que o cenário se materialize.

Por que o Goldman revisou agora a projeção do dólar

O gatilho foi o resultado do primeiro turno das eleições. O real avançou mais de 4% no primeiro pregão após a votação, movimento que o banco considera consistente com a percepção de uma política econômica mais favorável ao ajuste fiscal. Flávio Bolsonaro (PL) ficou cerca de 2 pontos percentuais à frente de Lula (PT), com 47,03% contra 45,16%.

O Goldman comparou o episódio com 2018, quando o dólar caiu cerca de 10% frente ao real no entorno do primeiro turno. A analogia não é perfeita, mas o banco a utiliza para argumentar que a valorização pode não ter terminado. A lógica é que ciclos eleitorais percebidos como favoráveis ao mercado tendem a gerar movimentos cambiais que se estendem por semanas, não dias.

Os resultados para Congresso e governos estaduais reforçaram o otimismo. Segundo a análise do banco, o desempenho da direita e da centro-direita nas eleições legislativas sugere condições de governabilidade mais favoráveis do que as observadas durante o governo Jair Bolsonaro, o que ampliaria a capacidade de aprovar medidas de ajuste fiscal.

O que significa a eliminação do prêmio fiscal do real

Um conceito central na tese do Goldman é o chamado prêmio fiscal. Desde a desvalorização do real observada em 2024, a moeda brasileira carrega um desconto que reflete a desconfiança dos investidores com a trajetória das contas públicas. Na prática, o dólar ficou mais caro do que os fundamentos econômicos justificariam, justamente por causa da percepção de risco fiscal elevado.

O banco estima que um dólar em torno de R$ 4,80 seria compatível com a eliminação completa desse prêmio. Ou seja, se o cenário eleitoral se confirmar como favorável ao ajuste fiscal, o real simplesmente voltaria ao patamar que seus fundamentos indicam, sem precisar de nenhum fator extraordinário. A faixa de R$ 4,50 a R$ 4,80 é considerada plausível nesse contexto.

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Como analisamos em nossa cobertura de finanças, a trajetória fiscal brasileira é o principal vetor de risco para ativos domésticos desde 2024. A possibilidade de reversão desse prêmio é o que torna a revisão do Goldman relevante, muito além do número em si.

Dois fatores que podem levar o real ainda mais longe

O Goldman aponta que uma valorização além de R$ 4,80 dependeria de duas condições simultâneas. A primeira é uma consolidação fiscal suficiente para justificar não apenas a eliminação do prêmio negativo, mas a criação de um prêmio positivo para ativos brasileiros. Isso exigiria anúncios concretos de política econômica, equipe ministerial crível e sinalização clara de responsabilidade fiscal.

A segunda condição é um ambiente externo favorável aos mercados emergentes. Hoje, o dólar global continua apoiado por preços elevados de energia, desempenho relativo da economia americana e diferenciais de juros favoráveis aos Estados Unidos. Esse cenário limita o espaço para uma valorização irrestrita de moedas emergentes, mesmo aquelas com fundamentos domésticos sólidos.

A combinação dessas duas forças determinará se o real para em R$ 4,80 ou busca patamares mais baixos. O ponto importante: o potencial de valorização depende mais da execução de políticas do que do resultado eleitoral em si.

Os riscos que podem travar a valorização

Apesar do otimismo revisado, o Goldman não projeta uma trajetória linear. Existem obstáculos concretos no caminho. O primeiro é a própria dinâmica de juros. A expectativa de cortes na Selic, que tende a se intensificar num governo percebido como fiscal, reduz gradualmente o diferencial de juros que torna o real atrativo para investidores estrangeiros. Conforme detalhamos em análises anteriores sobre a Selic, o carry trade é um dos pilares da demanda por reais, e sua erosão limita o espaço de valorização.

O segundo risco é sazonal. Dezembro historicamente registra saídas relevantes de recursos do país, por conta de remessas de lucros e dividendos de multinacionais. Se as expectativas fiscais não forem confirmadas com anúncios concretos até lá, o fluxo sazonal negativo pode pressionar o câmbio justamente quando o mercado estaria mais vulnerável a decepções.

O terceiro fator é a própria incerteza sobre a equipe econômica e os primeiros movimentos de um eventual novo governo. Os analistas do Goldman reconhecem que as atenções migrarão rapidamente do resultado eleitoral para anúncios concretos, e que a sustentação da valorização depende integralmente da qualidade dessas sinalizações.

O que isso significa para quem investe

A revisão do Goldman coloca o Brasil numa posição incomum: uma das poucas moedas emergentes para as quais o banco fez um ajuste tão expressivo de projeção, enquanto mantém postura cautelosa para a maioria das outras divisas.

Para investidores com exposição a ativos dolarizados, como criptomoedas e ETFs internacionais, um dólar mais barato altera a equação de retorno em reais. Um Bitcoin que sobe 10% em dólar pode render menos em reais se o câmbio cair 5% no mesmo período. A diversificação cambial, que foi uma tese dominante nos últimos dois anos, começa a ser reavaliada.

Para quem está posicionado em renda fixa brasileira, a combinação de real forte com juros ainda elevados é favorável no curto prazo, mas o próprio Goldman alerta que essa janela tem prazo de validade. À medida que os cortes de juros avançarem, o atrativo diminui.

O cenário é construtivo, mas condicionado. A diferença entre R$ 4,70 e R$ 5,20 não é um número: é uma tese sobre disciplina fiscal, governabilidade e credibilidade. Se os anúncios de política econômica decepcionarem, o prêmio fiscal volta. E com ele, o dólar mais caro.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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