Finanças

Dólar a R$ 4,87 com eleições? O que mostram os dados da América Latina

Moedas de Chile, Colômbia e Peru se valorizaram até 12% após alternância de governo. Analistas projetam movimento similar no real a partir do primeiro turno.

Dólar a R$ 4,87 com eleições? O que mostram os dados da América Latina
Foto: Valmir Zanellato / Unsplash

A dois dias do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, uma pergunta circula com insistência entre gestores e investidores: o real pode se valorizar de forma expressiva caso haja alternância de governo? A resposta, segundo análises recentes, passa menos por especulação e mais pelo que aconteceu nos últimos meses em três países vizinhos.

Chile, Colômbia e Peru tiveram eleições presidenciais que resultaram em troca de comando político. Nos três casos, as moedas locais se fortaleceram frente ao dólar nos meses seguintes. E os números não são modestos: a valorização acumulada chegou a dois dígitos em alguns cenários.

O exercício não é uma bola de cristal. Mas é um dos poucos métodos comparativos disponíveis para estimar o que pode acontecer com o câmbio brasileiro nos próximos pregões, especialmente considerando que o mercado costuma começar a se mover antes mesmo do resultado definitivo das urnas.

O que aconteceu com as moedas de Chile, Colômbia e Peru

O caso mais recente é o da Colômbia, onde Abelardo de la Espriella venceu a disputa presidencial em junho de 2026. Nos 42 pregões seguintes ao segundo turno, o peso colombiano se valorizou frente ao dólar. Mas o dado mais interessante é que o movimento começou antes: nos 30 dias anteriores ao segundo turno, o peso já havia subido aproximadamente 7%. Contando a partir do primeiro turno, a apreciação acumulada chegou a cerca de 12,2% em dois meses.

No Chile, José Antonio Kast venceu as eleições em dezembro de 2025. O padrão foi semelhante. Usando o primeiro turno como referência, a moeda chilena acumulou valorização de aproximadamente 5,2% em dois meses. Parte significativa desse movimento já estava em curso antes da definição no segundo turno.

O Peru, com a eleição de Keiko Fujimori proclamada em julho, completou o trio de alternâncias na região. Em todos os casos, o padrão se repetiu: o câmbio não esperou o resultado final para reagir. O mercado começou a precificar a mudança política assim que as probabilidades se inclinaram em uma direção, como já analisamos em coberturas anteriores sobre mercados emergentes.

Quanto o real poderia se valorizar: três cenários

Analistas que estudaram esses três episódios construíram cenários para o Brasil, ajustando os movimentos observados pela volatilidade de cada moeda. Os números partem do fechamento do dólar em 1º de outubro, a R$ 5,21.

No cenário-base, que ajusta os movimentos pela volatilidade, a valorização média estimada é de 6,7%. Isso levaria o dólar para a região de R$ 4,87, patamar que não se vê desde janeiro de 2024.

Nos dois cenários mais conservadores, as estimativas são ligeiramente menores. O primeiro considera a volatilidade específica de cada eleição estudada e chega a uma apreciação de cerca de 5,2%, o que colocaria o câmbio próximo de R$ 4,94. O segundo desconta a parcela do movimento atribuível ao comportamento global do dólar, medido pelo DXY, e estima uma valorização de 5,4%, resultando em algo perto de R$ 4,93.

A faixa, portanto, fica entre R$ 4,87 e R$ 4,94. Não é uma previsão, mas uma projeção baseada em dados reais de mercados comparáveis. A diferença importa. Quem acompanha o comportamento histórico do câmbio brasileiro sabe que movimentos dessa magnitude não são incomuns em períodos eleitorais.

Por que o mercado não espera o resultado das urnas

Um dos pontos mais relevantes da análise é que a reprecificação cambial não começa no dia seguinte à eleição. Ela começa quando as probabilidades mudam. E os dados da América Latina confirmam isso com clareza.

No caso colombiano, o peso já havia acumulado 7% de valorização antes mesmo do segundo turno. No Chile, o movimento também antecedeu a vitória de Kast. Isso significa que, no Brasil, os pregões da próxima semana, logo após o primeiro turno deste domingo, já podem refletir a nova configuração da disputa.

As pesquisas mais recentes apontam empate técnico entre os dois principais candidatos. Segundo o agregador Polling Data, Lula aparece com 40% e Flávio Bolsonaro com 38% no primeiro turno. Em um eventual segundo turno entre os dois, Bolsonaro aparece numericamente à frente, com 45% contra 44%. A margem é apertada, e qualquer sinalização mais clara pode mexer nos preços rapidamente.

Mas a eleição em si é apenas o gatilho inicial. A experiência dos vizinhos mostra que a formação de preços continua por semanas após o resultado. O mercado passa a avaliar composição de governo, relação com o Congresso, credibilidade das primeiras sinalizações econômicas e viabilidade de implementação das políticas anunciadas. É um processo, não um evento isolado.

O que está por trás da conta: prêmio de risco fiscal

A lógica por trás dos cenários é relativamente direta. O câmbio brasileiro carrega um prêmio de risco associado à incerteza fiscal. Se uma eventual mudança de governo vier acompanhada de melhores perspectivas para as contas públicas, esse prêmio tende a diminuir, e o real se fortalece.

Não se trata de preferência partidária. É mecânica de mercado. Quando investidores estrangeiros percebem menor risco de deterioração fiscal, aumentam a exposição a ativos brasileiros, o que gera fluxo de capital e pressiona o dólar para baixo. Foi exatamente o que aconteceu no Chile e na Colômbia.

Vale lembrar que o dólar esteve pela última vez em R$ 4,87 em janeiro de 2024, quando recuava após dados de inflação no Brasil e nos Estados Unidos. De lá para cá, a moeda americana subiu impulsionada por uma combinação de cenário externo mais duro e ruído fiscal doméstico, como detalhamos em análises anteriores sobre a política monetária brasileira.

O que observar nos próximos pregões

O fato de parte da reprecificação já estar em andamento não significa que o movimento se esgotou. A análise dos casos latino-americanos mostra justamente o contrário: mesmo com antecipação, a valorização continuou por semanas após o resultado eleitoral.

Os pontos de atenção para os próximos dias incluem o resultado do primeiro turno e a configuração do segundo turno, o comportamento do CDS Brasil (indicador de risco-país), o fluxo de capital estrangeiro na B3 e as primeiras declarações dos candidatos sobre política econômica.

O câmbio brasileiro é um dos ativos mais sensíveis a expectativas políticas no mundo emergente. Em um cenário de empate técnico, cada ponto percentual de mudança nas pesquisas pode significar centavos no dólar. E centavos, no câmbio, fazem diferença real para quem investe, importa ou simplesmente viaja.

O precedente da América Latina não é garantia. Mas é o dado mais concreto disponível para quem tenta entender o que vem pela frente.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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