Ataques no Oriente Médio ameaçam cortar 4% do petróleo global
Oleoduto saudita danificado e avanço houthi no Estreito de Ormuz podem agravar escassez de petróleo. Diesel nos EUA já bateu recorde acima de US$ 6,20 o galão.
Uma sequência de ataques no fim de semana contra infraestrutura saudita e embarcações no Golfo Pérsico reacendeu o temor de uma crise severa no abastecimento global de petróleo. Com um oleoduto estratégico de 1.200 km danificado por drones e o avanço militar dos houthis sobre pontos críticos de passagem marítima, o mercado se prepara para uma abertura turbulenta na segunda-feira.
O petróleo já havia ultrapassado a marca de US$ 100 o barril na semana passada, algo que não ocorria desde julho. O diesel nos Estados Unidos atingiu novo recorde histórico no domingo, acima de US$ 6,20 o galão, um dado que carrega enorme peso político em ano eleitoral.
O ponto central da preocupação não é apenas o preço do barril em si. É a fragilidade simultânea de duas rotas que, juntas, respondem por uma parcela significativa do fluxo global de petróleo: o oleoduto que cruza a Península Arábica e o Estreito de Ormuz.
Por que o oleoduto saudita é tão importante para o mercado
O oleoduto atingido na sexta-feira conecta a costa leste à costa oeste da Arábia Saudita, terminando no porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Essa infraestrutura existe justamente como rota alternativa ao Estreito de Ormuz, o gargalo por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.
Com o oleoduto fora de operação, Riad depende do estoque armazenado em Yanbu. Segundo fontes do mercado ouvidas pela agência Reuters, esse estoque é suficiente para manter exportações por apenas cinco a sete dias. Depois disso, até 4% do abastecimento global de petróleo pode ficar comprometido, somando-se às perdas já acumuladas pela interrupção do tráfego em Ormuz.
A Arábia Saudita, maior exportador mundial de petróleo, não divulgou a extensão completa dos danos. Imagens de satélite mostram grandes colunas de fumaça ao longo da rota do oleoduto. As estimativas para o reparo variam de dias a semanas, o que amplia a incerteza para os operadores do mercado.
O avanço houthi e o controle do Bab El-Mandeb
O cenário se agrava com a movimentação militar dos houthis, grupo armado do Iêmen que intensificou ataques na região. Na sexta-feira, os houthis capturaram a Ilha de Perim, localizada no centro do Bab El-Mandeb, o estreito que controla a entrada do Mar Vermelho e que é historicamente conhecido como “Portão das Lágrimas”.
O controle dessa passagem pelos houthis adiciona mais uma camada de risco ao fluxo de commodities. O Mar Vermelho já vinha enfrentando interrupções recorrentes no tráfego marítimo nos últimos meses, forçando embarcações a contornar o continente africano e elevando custos de frete.
No domingo, a agência britânica de segurança marítima UKMTO informou que uma embarcação foi atingida por um projétil ao atravessar o Estreito de Ormuz, causando um incêndio e obrigando a evacuação da tripulação. O Irã confirmou que uma embarcação comercial iraniana também foi atingida na costa do país, com uma morte e quatro feridos.
O impacto nos preços de combustíveis e na inflação global
A combinação de oleoduto danificado, estreitos sob ameaça e estoques limitados cria um cenário que os mercados de energia não enfrentavam com essa intensidade desde a crise de 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia provocou uma reorganização global dos fluxos de petróleo e gás.
O diesel acima de US$ 6,20 o galão nos Estados Unidos é um termômetro importante. O combustível é insumo básico para logística, transporte de alimentos e produção industrial. Quando sobe dessa forma, o efeito cascata sobre a inflação é quase inevitável. Como já analisamos em matérias anteriores sobre o impacto das commodities nos mercados, cada dólar de alta no barril de petróleo reverbera em toda a cadeia produtiva global.
Para o Brasil, o cenário também merece atenção. Apesar de o país ser produtor relevante de petróleo, os preços internacionais influenciam diretamente a política de preços da Petrobras e o custo dos derivados no mercado interno. Um barril sustentado acima de US$ 100 pressiona a estatal a reajustar preços na bomba, alimentando a pressão inflacionária que o Banco Central tenta conter com juros elevados.
O que esperar da abertura dos mercados
Operadores do mercado de petróleo já sinalizaram que esperam preços em alta na abertura de segunda-feira. A questão central não é se haverá pressão sobre o barril, mas qual será a magnitude.
Dois fatores determinarão o tamanho do impacto. Primeiro, a velocidade do reparo do oleoduto saudita. Se as autoridades conseguirem restaurar o fluxo em poucos dias, o choque tende a ser contido. Se o reparo demorar semanas, como sugerem algumas estimativas, a perda acumulada de oferta pode empurrar o barril para patamares que o mercado não via desde 2022.
Segundo, a evolução das negociações diplomáticas na região. Irã e Emirados Árabes Unidos realizaram uma reunião rara entre autoridades, e há indicações de que o Irã planeja apresentar um acordo com Omã sobre um corredor marítimo temporário no Estreito de Ormuz. Se esse acordo se concretizar, pode aliviar parte da pressão sobre o tráfego marítimo. Se fracassar, o risco de escalada militar continua elevado.
Para investidores, o momento exige atenção redobrada ao setor de energia e às empresas de logística marítima, que tendem a ser os primeiros a precificar esse tipo de disrupção. Mais do que reagir ao preço do barril, vale monitorar os desdobramentos geopolíticos que definirão se estamos diante de um choque temporário ou do início de uma crise prolongada de oferta.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
