Finanças

Ibovespa sobe pela 3ª semana: o que explica o rali

Ibovespa subiu 1,11% na semana com deflação surpreendente, aposta em corte da Selic e trade eleitoral. Entenda o que move a bolsa e os riscos à frente.

Ibovespa sobe pela 3ª semana: o que explica o rali
Foto: StockRadars Co., / Unsplash

O Ibovespa encerrou a semana aos 187.206 pontos, acumulando alta de 1,11% e marcando a terceira semana consecutiva de valorização. O dólar à vista fechou a R$ 5,1254, praticamente estável no período. Por trás dos números, três vetores convergiram para sustentar o apetite por risco: uma deflação inesperada no IPCA, a expectativa de corte na Selic e o chamado trade eleitoral.

O movimento não é trivial. A bolsa brasileira vinha de meses pressionada por juros elevados e incerteza fiscal. A virada de humor recente diz mais sobre reposicionamento de portfólio do que sobre mudança nos fundamentos. E é exatamente isso que o investidor precisa entender antes de se empolgar.

Deflação no IPCA muda o tom sobre juros

O IPCA registrou queda de 0,32% em agosto, revertendo a alta de 0,07% em julho. O recuo superou as projeções do mercado e trouxe o acumulado de 12 meses para 4,22%, ainda dentro do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, que é de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

O dado foi o principal catalisador para o alívio na curva de juros futuros. Com a inflação cedendo mais rápido do que o esperado, consolidou-se a aposta de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião do Copom da próxima quarta-feira, levando a taxa de 14% para 13,75% ao ano.

Para empresas alavancadas e setores sensíveis a juros, como varejo e construção civil, qualquer sinalização de afrouxamento monetário funciona como combustível. Como já analisamos em nossa cobertura do mercado financeiro brasileiro, o ciclo de juros é historicamente o principal fator de rotação setorial na B3.

O trade eleitoral ganha tração na bolsa

Pesquisas de intenção de voto mostraram o senador Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente do presidente Lula (PT) em simulações de segundo turno, embora tecnicamente empatados. Para o mercado, o dado reforçou a possibilidade de alternância de governo em 2027, o que é lido como positivo por investidores que associam a gestão atual a riscos fiscais elevados.

Essa dinâmica tem nome próprio entre gestores: trade eleitoral. É a aposta antecipada em ativos que se beneficiariam de uma mudança na política econômica. Ações de estatais, bancos e empresas dependentes de concessões públicas costumam ser as mais impactadas por esse tipo de movimento.

Mas o cenário não é linear. Na sexta-feira, o presidente do STF, Edson Fachin, determinou que o ministro André Mendonça retirasse o sigilo de documentos das investigações do chamado Caso Master, que envolve o senador Bolsonaro. A notícia introduziu volatilidade no fim da semana e lembrou que o trade eleitoral carrega riscos jurídicos e políticos difíceis de precificar.

Assaí lidera altas; Direcional sofre com corte de preço-alvo

Entre os destaques individuais, as ações do Assaí (ASAI3) lideraram os ganhos do Ibovespa. A empresa, altamente alavancada, é uma das maiores beneficiárias do alívio nos juros futuros. Com despesas financeiras pesando sobre o resultado, qualquer redução no custo da dívida melhora significativamente a perspectiva de lucro.

Na ponta oposta, a Direcional (DIRR3) amargou a pior performance da semana. O JP Morgan reduziu o preço-alvo das ações de R$ 19 para R$ 17,50, projetando dezembro de 2027. Ainda assim, os analistas do banco mantiveram recomendação de compra, argumentando que o papel negocia a 5,4 vezes o lucro estimado para 2027, um desconto de cerca de 22% em relação à Cury, uma das principais concorrentes do setor.

O caso da Direcional ilustra um fenômeno comum em ciclos de corte de juros: nem todas as empresas do mesmo setor se beneficiam de forma homogênea. A qualidade do balanço, o perfil da dívida e o posicionamento competitivo determinam quem captura o fluxo e quem fica para trás. Discutimos essa dinâmica em nossa análise sobre setores sensíveis a juros.

O cenário nos Estados Unidos complica

Enquanto o Brasil caminha para cortar juros, os Estados Unidos seguem na direção oposta. O CPI americano avançou 0,4% em agosto, acelerando em relação aos 0,1% de julho. O núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, subiu 0,3%, acima da projeção de 0,2%.

O dado elevou drasticamente as apostas em nova alta de juros pelo Federal Reserve. Segundo a ferramenta FedWatch do CME Group, a probabilidade de elevação de 0,25 ponto percentual saltou de 72,4% para 86,5%, levando a faixa dos fed funds para 3,75% a 4,00% ao ano.

Para mercados emergentes como o Brasil, juros mais altos nos EUA representam um contrapeso. O diferencial de juros entre as duas economias influencia diretamente o fluxo de capital estrangeiro. Se o Fed seguir apertando enquanto o Copom corta, o real pode sofrer pressão, limitando o espaço para novos afrouxamentos. Essa tensão entre ciclos monetários divergentes é um dos temas que acompanhamos de perto no portal.

O que observar na semana que vem

A próxima quarta-feira concentra as duas decisões de juros mais relevantes do momento: Copom e Fomc. O mercado já precificou amplamente o corte doméstico e a alta americana, mas o tom dos comunicados será decisivo para calibrar as expectativas dos próximos meses.

No campo político, os desdobramentos do Caso Master podem alterar a dinâmica do trade eleitoral. Se novas informações prejudicarem a candidatura de Bolsonaro, parte do prêmio embutido nos ativos pode ser devolvida rapidamente.

O Ibovespa aos 187 mil pontos reflete mais esperança do que certeza. A deflação ajuda, o cenário eleitoral anima uma parcela dos investidores, mas os fundamentos fiscais seguem desafiadores e o ambiente externo está longe de ser favorável. O rali tem lógica, mas também tem prazo de validade se os dados não continuarem colaborando.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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