Finanças

Wall Street fecha semana no vermelho com Fed e juros no radar

Bolsas de NY subiram na sexta com alívio do petróleo, mas acumularam perdas na semana. Núcleo da inflação acima do esperado reforça aposta em juros mais altos.

Wall Street fecha semana no vermelho com Fed e juros no radar
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

As bolsas de Nova York encerraram a sexta-feira, 11 de setembro, em alta, puxadas por um recuo nos preços do petróleo que trouxe alívio temporário ao mercado. Mas o saldo da semana conta outra história. O Dow Jones acumulou queda de 1,57%, o S&P 500 recuou 0,79% e o Nasdaq perdeu 0,65%.

O motivo principal é um só: a expectativa de que o Federal Reserve eleve os juros na reunião da próxima semana. E os dados de inflação divulgados nesta sexta deram munição para quem aposta nesse cenário.

O que o CPI revelou sobre a trajetória da inflação nos EUA

O índice de preços ao consumidor (CPI) de agosto veio em linha com as projeções do mercado no número cheio. Até aí, sem surpresa. O problema está no detalhe: o núcleo do indicador, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, ficou ligeiramente acima do esperado.

Para quem acompanha a política monetária americana, esse é o número que importa. O Fed tem repetido que precisa ver o núcleo da inflação em trajetória convincente de queda antes de considerar qualquer alívio monetário. Um núcleo acima do consenso vai na direção contrária.

A consultoria Capital Economics foi direta em sua avaliação: a surpresa deve ser suficiente para levar o Fed a elevar os juros na reunião da próxima semana. A casa também projeta nova aceleração do núcleo do PCE, o indicador de inflação preferido do banco central americano. Se confirmado, o cenário de juros altos por mais tempo ganha ainda mais força, como já discutimos em nossa cobertura sobre política monetária.

Petróleo recua e dá fôlego ao pregão de sexta

Apesar do pano de fundo desfavorável, o pregão de sexta trouxe algum respiro. O gatilho foi a queda nos preços do petróleo, que corrigia ganhos fortes acumulados nos dias anteriores em meio a tensões no Oriente Médio.

O recuo da commodity ajudou a estabilizar os rendimentos dos Treasuries de prazo mais longo, que ficaram praticamente estáveis no dia. Isso abriu espaço para uma recuperação parcial nos índices. O Dow Jones subiu 0,98%, fechando em 52.572,91 pontos. O S&P 500 avançou 0,86%, a 7.656,95 pontos. O Nasdaq ganhou 0,96%, encerrando a 26.333,04 pontos.

Nove dos onze setores do S&P 500 operaram no positivo. O destaque ficou com serviços de comunicação, que subiram 1,3%. No campo individual, Hewlett Packard Enterprise e Dell dispararam 12% cada, enquanto Cisco Systems avançou 4,3% no Dow Jones. Na ponta negativa, UnitedHealth caiu 2,3% e Amgen recuou 1,3%.

O cheque de US$ 5 mil de Trump e o risco fiscal que o mercado ainda não precificou

Além do Fed, outro tema entrou no radar dos investidores. O presidente Donald Trump prometeu pagar US$ 5 mil a cada adulto americano caso o Partido Republicano conquiste maioria nas eleições de meio de mandato. Estimativas preliminares apontam que a medida custaria mais de US$ 1 trilhão aos cofres públicos.

O secretário de Comércio, Howard Lutnick, tentou amenizar a preocupação fiscal dizendo que os cheques não usariam dinheiro de impostos. Mas a declaração levantou mais perguntas do que respostas. Se não vier de impostos, de onde viria? Emissão de dívida? Cortes em outros programas? O mercado de Treasuries, que já convive com o maior estoque de dívida pública da história americana, pode não reagir bem a esse tipo de incerteza.

Essa é uma dinâmica que vale acompanhar. Como já abordamos em análises anteriores sobre o cenário fiscal americano, promessas de gastos em ano eleitoral tendem a pressionar prêmios de risco nos títulos longos, o que acaba transbordando para mercados emergentes e ativos de risco em geral.

O que esperar da semana que vem: Fed e a decisão de juros

A reunião do Federal Reserve na próxima semana é o evento mais relevante do calendário econômico global de setembro. O mercado chega a esse encontro dividido, mas com viés de alta nos juros ganhando tração após o CPI.

Para investidores brasileiros, a decisão tem impacto direto. Juros mais altos nos Estados Unidos tendem a fortalecer o dólar globalmente, pressionar moedas emergentes e reduzir o apetite por risco em mercados como o brasileiro. O efeito cascata atinge desde a Bolsa até o câmbio e a curva de juros doméstica, como explicamos em nossa análise sobre o impacto dos juros americanos nos investimentos.

O recuo do petróleo deu um dia de paz aos mercados. Mas a tendência de fundo permanece: inflação resistente, banco central propenso a apertar e um cenário fiscal que pode se deteriorar dependendo das decisões políticas em Washington. O rali de sexta-feira foi um alívio tático, não uma mudança de direção.

Na prática, o investidor que olha para Wall Street neste momento precisa separar o ruído diário da tendência estrutural. E a tendência, por ora, é de juros altos por mais tempo do que o mercado gostaria.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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