Finanças

Ibovespa tem maior queda em 4 semanas: o que pressiona o mercado

Petróleo acima de US$ 100, crise no STF e temor de alta de juros nos EUA derrubaram o Ibovespa em quase 1%. Entenda o que está em jogo para o investidor.

Ibovespa tem maior queda em 4 semanas: o que pressiona o mercado
Foto: Leeloo The First / Unsplash

Depois de uma sequência impressionante de 11 altas consecutivas no fim de agosto, o Ibovespa devolveu parte do otimismo de forma contundente. O índice recuou 0,93% nesta quarta-feira, fechando aos 185.629 pontos, uma perda de 1.737 pontos que representa a maior queda desde 11 de agosto, quando o tombo foi de 2,50%.

O dólar comercial acompanhou a piora e subiu 0,51%, para R$ 5,112. Os juros futuros avançaram com amplitude em toda a curva. O cenário interno e externo se alinharam para empurrar os ativos de risco para baixo, e o investidor que buscava abrigo não encontrou muitas portas abertas.

Petróleo acima de US$ 100 reacende temor inflacionário global

O barril de Brent rompeu a barreira dos US$ 100 pela primeira vez desde julho, impulsionado por ataques de houthis apoiados pelo Irã contra instalações sauditas de petróleo e energia. O episódio coloca em xeque os embarques pelo Mar Vermelho, rota alternativa ao Estreito de Ormuz, e eleva a tensão sobre o abastecimento global.

Como destacou Augusto Parente, especialista em investimentos da AW Capital, esse novo capítulo da guerra no Oriente Médio “eleva as expectativas de inflação mais alta ao redor do mundo, impactando diretamente a possibilidade de alta de juros do Fed”. A reunião do banco central americano acontece na semana que vem, e o mercado já recalibra as apostas.

O Departamento do Tesouro dos EUA tentou conter a pressão sobre os títulos públicos ao anunciar a recompra de US$ 6 bilhões em Treasuries, medida voltada a preservar a liquidez. Não funcionou. A curva de juros americana fechou em alta por toda a extensão. Os principais índices de Nova York encerraram no vermelho, acompanhando a mesma dinâmica negativa das bolsas europeias. A pressão nos mercados globais foi generalizada.

Crise institucional no Brasil adiciona camada de risco

Se o cenário externo já não colaborava, o ambiente doméstico tratou de piorar. O ministro Flávio Dino, do STF, derrubou o afastamento e mandou reintegrar Andrei Rodrigues como chefe da Polícia Federal, apenas um dia após o ministro André Mendonça ter removido o policial do cargo. A decisão conflitante entre ministros da mesma corte configura uma crise institucional que o mercado não consegue simplesmente ignorar.

O efeito sobre as eleições ainda é incerto, mas a instabilidade política adiciona um prêmio de risco que se reflete diretamente na curva de juros e no câmbio. Para quem investe, o recado é claro: o risco-Brasil voltou a pesar.

Outro dado negativo veio das exportações brasileiras para os Estados Unidos, que diminuíram 9,7% entre janeiro e agosto em comparação com o mesmo período de 2025. É o menor volume desde 2023, reflexo direto das barreiras comerciais que vêm se intensificando no comércio bilateral.

Quem ganhou e quem perdeu na sessão

O petróleo caro beneficiou quem está exposto ao setor. Petrobras (PETR4) subiu 0,69% e PRIO (PRIO3) avançou 0,84%, surfando a alta do barril. As siderúrgicas roubaram a cena: CSN (CSNA3) disparou 7,40% e Usiminas (USIM5) ganhou 0,93%. Embraer (EMBJ3) também fechou no positivo, com alta de 1,10%.

Vale (VALE3) oscilou o dia todo no negativo, pressionada pelo recuo do minério de ferro diante de preocupações com a demanda chinesa, mas conseguiu virar e fechar com leve alta de 0,10%.

Do lado perdedor, os bancos amargaram quedas superiores a 1%. Bradesco (BBDC4) liderou as perdas com recuo de 2,36%, seguido por Itaú Unibanco (ITUB4) com menos 1,98%, Banco do Brasil (BBAS3) com menos 1,86% e Santander (SANB11) com menos 1,41%. O varejo também sofreu em bloco, com Lojas Renner (LREN3) caindo 2,41%. Entre os frigoríficos, MBRF (MBRF3) recuou 2,33% e Minerva (BEEF3) cedeu 0,25%.

O que observar nos próximos dias

O calendário econômico desta semana concentra dados que podem definir o rumo dos mercados nas próximas semanas. Na quinta-feira, saem o índice de preços ao produtor (PPI) nos Estados Unidos e os dados do setor de serviços no Brasil. Na sexta, o dado mais esperado: o índice de preços ao consumidor (CPI) americano.

Felipe Cima, especialista em renda variável da Manchester Investimentos, explicou que o mercado está em compasso de espera pelo CPI, especialmente depois de o payroll de agosto ter vindo “muito acima das projeções”. Com isso, “o pessoal voltou a apostar em alta dos juros e uma inflação mais elevada”.

Também na quinta, o Banco Central Europeu decide sua taxa de juros, adicionando mais uma variável à equação global. Para o investidor brasileiro, o cenário exige atenção redobrada: a combinação de petróleo mais caro, juros globais pressionados e turbulência institucional doméstica cria um ambiente onde a volatilidade tende a permanecer elevada.

O Ibovespa ainda acumula ganhos expressivos no período recente, fruto da sequência de 11 altas seguidas. Mas a sessão de hoje mostra que o mercado encontrou um conjunto de obstáculos que não será fácil de superar. A palavra-chave para os próximos dias é cautela, com os dados de inflação americanos servindo como termômetro para saber se o Federal Reserve vai apertar ainda mais as condições financeiras globais.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…