Finanças

IPCA-15 e PCE: o que a inflação diz sobre juros no Brasil e nos EUA

Enquanto o IPCA-15 trouxe alívio pontual no Brasil, o PCE acima do esperado nos EUA azedou Wall Street e pressionou a curva de juros global.

IPCA-15 e PCE: o que a inflação diz sobre juros no Brasil e nos EUA
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

O mercado financeiro viveu nesta quarta-feira um daqueles pregões que resumem bem o dilema atual dos investidores: dados de inflação saíram dos dois lados do Atlântico, mas cada um contou uma história diferente. No Brasil, o IPCA-15 trouxe deflação de 0,40% em agosto, mais intensa do que a queda de 0,30% esperada pelo mercado. Nos Estados Unidos, o PCE, indicador preferido do Federal Reserve para medir preços, subiu 0,2% em julho e acumulou 3,7% em 12 meses, ambos acima do consenso.

O resultado foi um Ibovespa que fechou praticamente estável, com ligeira alta de 0,01%, aos 174.586 pontos, marcando a sexta sessão consecutiva de ganhos. O dólar, por sua vez, subiu 0,22% e encerrou cotado a R$ 5,1518. A mensagem do mercado foi clara: o alívio local não compensou a pressão externa.

O que o IPCA-15 revela sobre a inflação brasileira

A deflação de 0,40% no IPCA-15 de agosto pode parecer uma boa notícia à primeira vista, e em parte é. O acumulado de 12 meses recuou para 4,24%, ficando dentro do teto da meta do Banco Central, que é de 4,5% (centro de 3% com margem de 1,5 ponto percentual para cima). Mas os detalhes importam mais do que o número cheio.

A deflação foi puxada por fatores pontuais. Alimentos registraram queda mais forte do que o previsto, e a tarifa de energia elétrica foi beneficiada pelo bônus de Itaipu, um desconto temporário que reduz artificialmente o custo da eletricidade. O problema é que esse efeito se reverte em setembro. Quando o benefício acabar, a inflação de energia devolverá proporcionalmente o recuo registrado agora.

Isso significa que o Banco Central não deve interpretar o dado como sinal de que pode relaxar. A dinâmica inflacionária no Brasil segue exigindo atenção, especialmente nos núcleos de inflação e nos serviços, que costumam ter mais inércia.

PCE acima do esperado muda o humor em Wall Street

Do outro lado, o cenário ficou mais complicado. O PCE dos Estados Unidos subiu 0,2% na comparação mensal, contra expectativa de 0,1%. No acumulado de 12 meses, o indicador cheio marcou 3,7%, acima dos 3,6% projetados pela FactSet. O núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia, veio em linha com o esperado, mas a surpresa no dado cheio foi suficiente para mexer com o mercado.

As taxas dos Treasuries viraram para cima, o dólar se fortaleceu globalmente e as apostas em mais uma alta de juros pelo Fed ganharam força. Segundo a ferramenta Fed Watch do CME Group, a probabilidade de elevação da taxa básica ainda em outubro subiu para 51,7%. Esse movimento teve efeito cascata: a curva de juros americana abriu, e o pessimismo respingou nos mercados emergentes.

Para quem investe no Brasil, o recado é direto. Quando os juros americanos sobem ou ameaçam subir, o fluxo de capital tende a migrar para ativos denominados em dólar, considerados mais seguros. Isso pressiona moedas emergentes, encarece o dólar no Brasil e dificulta a vida de empresas cíclicas listadas na B3, como varejistas e construtoras. Não por acaso, o Magazine Luiza subiu 3,74% na ponta positiva (movimento pontual), enquanto o Assaí caiu 6,58% na ponta negativa.

Dívida pública atrelada à Selic bate recorde

Outro dado relevante do dia passou relativamente despercebido, mas merece atenção. O Tesouro Nacional divulgou o Plano Anual de Financiamento da dívida pública, e um número chamou a atenção: a parcela da dívida atrelada à taxa flutuante (Selic) alcançou 53% do total, o maior patamar da série histórica.

Isso tem implicações importantes. Quanto maior a parcela da dívida indexada à Selic, mais sensível o custo de financiamento do governo fica a variações na taxa de juros. Se o Banco Central precisar subir a Selic, o impacto fiscal é imediato e mais pesado. É um ciclo que se retroalimenta: juros altos encarecem a dívida, que por sua vez pressiona o fiscal, que por sua vez dificulta a queda dos juros.

Esse dado reforça por que a condução da política fiscal brasileira é acompanhada tão de perto pelo mercado. A composição da dívida conta tanto quanto o seu tamanho.

Setores e ativos: quem ganhou e quem perdeu

O setor bancário terminou o dia no azul, com o Índice Financeiro (IFNC) subindo 0,27%. Bancos tendem a se beneficiar em ambientes de juros mais altos, já que a margem financeira das operações de crédito se amplia.

A Petrobras teve desempenho misto. As ações ordinárias (PETR3) caíram 0,11%, enquanto as preferenciais (PETR4) subiram 0,24%, acompanhando a volatilidade do petróleo no mercado internacional. A commodity oscilou após a gigante de logística MSC suspender serviços no Mar Negro por conta de um ataque de drone, sinalizando que a normalização das cadeias de suprimento globais ainda está distante.

A Vale (VALE3) recuou 0,32%, a R$ 78,45. Vale, Petrobras e o setor bancário, juntos, representam cerca de 50% da carteira teórica do Ibovespa, o que explica por que o índice ficou praticamente parado mesmo com movimentos relevantes em papéis individuais.

O que esperar daqui para frente

O cenário de curto prazo ficou mais nebuloso. No Brasil, a deflação do IPCA-15 é temporária e o mercado sabe disso. A questão central continua sendo se o Banco Central terá espaço para manter ou retomar cortes na Selic, algo que depende tanto da dinâmica inflacionária local quanto do diferencial de juros com os Estados Unidos.

Nos EUA, o PCE acima do esperado reforça a narrativa de que o Fed pode manter juros restritivos por mais tempo do que o mercado gostaria. Isso tem efeito direto sobre ativos de risco globais, incluindo ações brasileiras e criptomoedas.

A sexta alta consecutiva do Ibovespa é um dado positivo, mas a intensidade dos ganhos vem diminuindo. O índice parece estar testando um teto de curto prazo, e o ambiente externo não ajuda. Para o investidor, o momento pede cautela e atenção aos dados de inflação que saem nas próximas semanas, tanto aqui quanto lá fora.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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