Finanças

Dívida dos EUA passa de US$ 40 tri e ameaça era do dinheiro barato

Juros de longo prazo nos EUA atingem o maior patamar em duas décadas. A dívida pública triplicou desde 2008, e o impacto já chega ao crédito e aos mercados globais.

Dívida dos EUA passa de US$ 40 tri e ameaça era do dinheiro barato
Foto: John Guccione www.advergroup.com / Unsplash

A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez na história. Ao mesmo tempo, os juros dos títulos de longo prazo do governo americano atingiram o maior patamar em quase 20 anos. Os dois marcos chegam juntos e contam a mesma história: o mundo do dinheiro barato, que moldou mercados e decisões de investimento por quase duas décadas, ficou para trás.

O rendimento dos Treasuries de longo prazo disparou nas últimas semanas, encarecendo o crédito para compradores de imóveis, empresas e o próprio governo federal. Uma intervenção do Departamento do Tesouro chegou a desacelerar o movimento, mas o efeito foi passageiro. As taxas voltaram a subir.

Para quem investe, a mensagem é clara: o custo do capital mudou de patamar. E isso afeta praticamente todas as classes de ativos, do mercado imobiliário às ações de tecnologia e até os criptoativos.

O que está empurrando os juros para cima nos EUA

Não existe uma causa única. São pelo menos quatro forças convergindo ao mesmo tempo. A inflação nos Estados Unidos permanece resistente, agravada pela guerra com o Irã que elevou os preços de energia. Há dúvidas crescentes sobre a disposição do Federal Reserve em agir de forma agressiva para conter a alta de preços.

Ao mesmo tempo, empresas de inteligência artificial estão se endividando pesadamente para financiar a expansão da infraestrutura de data centers e chips. Essa demanda adicional por crédito compete com o governo federal por recursos dos investidores, pressionando os juros para cima.

Existe ainda a expectativa de que o boom da IA produza crescimento econômico acelerado nos próximos anos, o que, paradoxalmente, sustenta juros mais altos. Crescimento forte significa mais inflação potencial e menos motivos para o Fed cortar taxas.

Por último, e talvez o fator mais estrutural: a preocupação acumulada com a capacidade do governo americano de administrar uma dívida que triplicou como proporção do PIB desde a crise financeira de 2008. Como detalhamos em nossa cobertura de finanças globais, o endividamento público dos EUA se tornou uma variável central para qualquer análise de mercado.

A anomalia eram os juros baixos, não os altos

Economistas apontam um fato inconveniente para quem se acostumou com o mundo pós-2008: os juros atuais não são historicamente anormais. A anomalia foram as quase duas décadas de taxas ultrabaixas que se seguiram à crise financeira global.

Douglas Elmendorf, economista de Harvard que dirigiu o Escritório de Orçamento do Congresso nos anos pós-crise, resumiu a situação de forma direta: os juros das últimas duas décadas foram excepcionalmente baixos para os padrões históricos, e agora o mercado simplesmente desfez essa queda. O nível atual, segundo ele, parecia “bem baixo” quando foi encontrado 20 anos atrás.

A taxa média das hipotecas de 30 anos com juros fixos ficou abaixo de 5% por mais de uma década nos EUA. Os juros de curto prazo permaneceram perto de zero por anos. O Fed comprou volumes enormes de títulos públicos para manter o custo de captação sob controle, garantindo demanda artificial pelos Treasuries.

Esse ambiente permitiu que governos, empresas e famílias se endividassem a custo historicamente baixo. Republicanos e democratas, apesar de discursos sobre responsabilidade fiscal, cortaram impostos e ampliaram gastos. A pandemia de 2020 adicionou trilhões em estímulos financiados por dívida. O resultado é a conta de US$ 40 trilhões que chegou agora.

Por que desta vez o impacto pode ser maior

Existe um argumento válido de que os juros atuais não são, em termos históricos, especialmente elevados. Mas a economia que precisa conviver com eles é radicalmente diferente da que existia na última vez que as taxas estiveram nesse patamar.

Tara Sinclair, economista da Universidade George Washington que trabalhou no Tesouro americano durante o governo Biden, colocou de forma precisa: boa parte do sistema financeiro foi reformulada em torno da premissa de juros baixos. Hipotecas, financiamentos de veículos, dívida corporativa e o próprio orçamento federal foram estruturados para um mundo que não existe mais.

Para o presidente Donald Trump, que prometeu melhorar a acessibilidade financeira dos americanos, o cenário se tornou um problema político. As taxas de hipoteca, que haviam recuado no início de seu segundo mandato, voltaram a subir. Juros de financiamento de veículos e cartões de crédito permanecem elevados.

Trump passou meses pressionando o Fed a cortar juros e nomeou Kevin Warsh como novo presidente do banco central esperando exatamente isso. Mas a inflação persistente, em parte alimentada pela guerra com o Irã, tirou os cortes de mesa. Investidores agora consideram mais provável que o Fed eleve os juros do que os reduza em 2026.

O que muda para quem investe no Brasil e no mundo

Juros longos mais altos nos EUA funcionam como uma força gravitacional sobre todos os mercados globais. Quando o ativo considerado mais seguro do mundo paga mais, o capital exige retornos maiores em qualquer outro lugar, incluindo mercados emergentes como o Brasil.

Na prática, isso significa maior pressão sobre o câmbio, custo de capital mais elevado para empresas brasileiras que se financiam no exterior, e um ambiente mais restritivo para ativos de risco em geral. Como analisamos em matérias recentes sobre o cenário macroeconômico global, a era de liquidez abundante que sustentou ralis em bolsas e criptoativos nos últimos ciclos pode não se repetir com a mesma intensidade.

Gestores como Ray Dalio já recomendam diversificação para ativos como ouro e bitcoin como proteção contra o risco fiscal americano. A lógica é simples: se o governo dos EUA enfrenta dificuldades crescentes para administrar uma dívida de US$ 40 trilhões com juros elevados, a confiança nos Treasuries como porto seguro absoluto pode ser gradualmente corroída.

Para o investidor, o recado é pragmático. Decisões que faziam sentido em um mundo de juros próximos de zero precisam ser reavaliadas. Alavancagem excessiva, dependência de valorização de ativos para gerar retorno, e alocações que ignoram o custo real do capital são apostas cada vez mais arriscadas em um ambiente onde o dinheiro, finalmente, voltou a ter preço.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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