Trump bate recorde de rejeição: o impacto nos mercados
Com apenas 32% de aprovação, Trump iguala recordes negativos de Nixon. A impopularidade pode redesenhar o Congresso e afetar mercados até novembro.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atingiu o menor nível de aprovação de qualquer presidente de segundo mandato em atividade desde Richard Nixon, às vésperas de sua renúncia em 1974. Três pesquisas independentes divulgadas nos últimos dias convergem para um cenário preocupante: apenas cerca de um terço dos americanos aprova a gestão atual. Os números não são apenas ruins. Eles carregam implicações diretas para o equilíbrio de poder no Congresso e, por consequência, para a direção da política econômica americana.
Na pesquisa mais recente da Universidade Quinnipiac, a aprovação de Trump chegou a 32%, o menor índice já registrado por esse levantamento específico. A pesquisa AP-NORC marcou 33%, empatando com a mínima de 2017. A CNN apontou 34%, o mesmo nível registrado logo após o ataque ao Capitólio em janeiro de 2021. Três institutos, três metodologias diferentes, um resultado convergente.
O contexto histórico por trás da queda de aprovação
Para dimensionar o que esses números significam, vale comparar com outros presidentes no mesmo estágio de seus segundos mandatos. Bill Clinton, nesta altura, tinha 64% de aprovação. Ronald Reagan registrava 61%. Dwight Eisenhower marcava 58%. Mesmo presidentes considerados impopulares, como Barack Obama (43%) e George W. Bush (37%), estavam em patamares significativamente superiores aos atuais de Trump.
A referência mais próxima é Nixon, que tinha 24% de aprovação quando a renúncia já era inevitável diante do processo de impeachment por Watergate. Trump não enfrenta um processo de impeachment, mas compartilha com Nixon a condição de ter uma rejeição que transcende divisões partidárias tradicionais.
Os fatores que explicam a queda são múltiplos. O impasse no conflito com o Irã, uma guerra à qual a maioria dos americanos se opôs desde o início, viu o apoio residual despencar. A oposição ao conflito agora supera o apoio na proporção de dois para um. Somam-se a isso os preços elevados da gasolina, que funcionam como um termômetro imediato do humor do eleitor americano. Como analisamos em matérias anteriores sobre o cenário macroeconômico global, a percepção de custo de vida é um dos vetores mais poderosos na formação de opinião política.
O que muda para os mercados com uma possível onda democrata
Faltam três meses para as eleições de meio de mandato, previstas para novembro. Historicamente, todo presidente com aprovação abaixo de 50% neste estágio viu seu partido perder cadeiras no Congresso. Truman, Bush, Obama: todos pagaram o preço eleitoral da impopularidade.
O cenário base que os mercados precificam hoje é a manutenção do controle republicano no Senado, com a Câmara sendo o campo de batalha real. Se os democratas conquistarem a maioria na Câmara, a capacidade de Trump de aprovar legislação fiscal, desregulamentação financeira e cortes de impostos seria drasticamente reduzida. Para investidores, isso representa um governo dividido, historicamente associado a menor volatilidade legislativa, mas também a paralisia em reformas estruturais.
Estrategistas republicanos já manifestam preocupação abertamente. O problema não é apenas o volume da desaprovação, mas sua intensidade. Os eleitores que rejeitam Trump demonstram maior motivação para comparecer às urnas do que a base fiel do movimento MAGA. Isso inverte uma vantagem que os republicanos tradicionalmente possuíam em eleições de meio de mandato: a mobilização.
Como discutimos em nossa cobertura de finanças, o mercado americano costuma antecipar mudanças de poder político com semanas de antecedência. O S&P 500 historicamente apresenta maior volatilidade nos 60 dias que antecedem eleições de meio de mandato, mas tende a subir nos 12 meses seguintes, independentemente do resultado.
Trump vai mudar de estratégia? Provavelmente não
A reação da Casa Branca aos números segue um padrão conhecido. Trump declarou nas redes sociais que seus “números reais de pesquisa estão no nível mais alto de todos os tempos”, em letras maiúsculas. A estratégia de negar dados desfavoráveis não é nova. O presidente nunca conquistou a maioria do voto popular em nenhuma de suas três eleições e nunca ultrapassou 50% de aprovação nas pesquisas da Gallup em nenhum momento de seus mandatos. Ainda assim, governou como se fosse amplamente popular.
Estrategistas de ambos os partidos concordam que uma mudança de rumo é improvável. O presidente mais impulsivo da era moderna segue instintos, não dados. Essa abordagem funcionou o suficiente para dominar a política americana por mais de uma década. Mas a aritmética eleitoral em 2026 é diferente: a base MAGA, por mais fiel que seja, representa uma minoria que encolhe.
Há um fator que pode limitar o impacto eleitoral dos números ruins: a forma como os distritos da Câmara são desenhados hoje reduz o número de assentos genuinamente competitivos. Mesmo uma onda democrata expressiva pode gerar menos cadeiras novas do que geraria em décadas anteriores. Essa realidade do gerrymandering americano funciona como um amortecedor estrutural contra grandes viradas, tema que detalhamos em análises sobre política e investimentos.
O que observar nos próximos meses
Para quem investe, os indicadores a monitorar são claros. Primeiro, os preços da gasolina: se continuarem elevados, a aprovação de Trump dificilmente se recupera. Segundo, o desenrolar do conflito com o Irã: uma escalada adicional pode empurrar a aprovação para os níveis de Nixon. Terceiro, as pesquisas distritais específicas para a Câmara, que começam a ganhar granularidade em setembro.
O cenário de governo dividido não é necessariamente negativo para os mercados. Historicamente, o S&P 500 teve retornos anuais médios de 17,2% em períodos com Congresso dividido, contra 13,4% com governo unificado, segundo dados da LPL Research. A lógica é simples: quando Washington não consegue aprovar nada radical, o mercado respira.
O que muda, no entanto, é a previsibilidade. Um Trump com Congresso hostil pode recorrer ainda mais a decretos executivos e ações unilaterais em comércio exterior, tarifas e política energética. Para investidores brasileiros com exposição ao mercado americano, o risco não é o resultado eleitoral em si, mas a volatilidade do caminho até novembro.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.