Finanças

Tether lucra US$ 1,5 bi no 2T26, mas reserva cai pela metade

Emissora do USDT reportou lucro robusto com Treasuries, mas viu colchão de segurança derreter de US$ 8,2 bi para US$ 4,1 bi em três meses.

Tether lucra US$ 1,5 bi no 2T26, mas reserva cai pela metade
Foto: Zlaťáky.cz / Unsplash

A Tether, emissora da maior stablecoin do mundo, divulgou lucro operacional líquido de US$ 1,5 bilhão no segundo trimestre de 2026. O número é expressivo, mas o destaque real do balanço atestado pela auditoria BDO está em outro lugar: o colchão de reservas excedentes da companhia caiu de US$ 8,23 bilhões para US$ 4,11 bilhões em apenas três meses.

Essa redução de quase 50% no buffer de segurança levanta questões sobre a estratégia de alocação da empresa num momento em que o mercado de stablecoins atrai cada vez mais escrutínio regulatório ao redor do mundo. Para quem acompanha o setor, a pergunta que importa é: o lucro bilionário esconde fragilidades estruturais?

De onde vem o lucro bilionário da Tether

A receita da Tether continua concentrada em um modelo simples e extraordinariamente rentável. A empresa capta dólares de usuários que compram USDT, aplica esses recursos majoritariamente em títulos do Tesouro americano e acordos de recompra (repos), e embolsa o rendimento. Com a taxa básica dos EUA ainda em patamares elevados, cada dólar depositado gera retorno previsível e de baixo risco.

Em 30 de junho de 2026, a Tether reportou US$ 187,75 bilhões em ativos contra US$ 183,64 bilhões em passivos. A emissão de USDT cresceu cerca de US$ 446 milhões no trimestre, alcançando US$ 184,6 bilhões em circulação. É uma expansão modesta se comparada aos saltos de trimestres anteriores, o que sugere uma desaceleração na demanda por novas cunhagens.

O ponto central é que, mesmo com margens generosas sobre os Treasuries, a companhia viu seu excedente de reservas encolher dramaticamente. A diferença entre ativos e passivos, que funcionava como um escudo contra cenários adversos, perdeu metade do valor. Isso não significa insolvência, mas reduz a margem de manobra caso haja uma corrida por resgates ou uma desvalorização abrupta dos ativos de reserva.

Ouro e bitcoin pesaram contra o balanço

Parte da explicação para a queda nas reservas excedentes está na performance dos ativos não denominados em dólar. A Tether ampliou sua posição em ouro físico em 14 toneladas durante o trimestre, passando de 132,2 para 146,2 toneladas métricas. Apesar do aumento na quantidade, o valor dessas reservas caiu de US$ 19,84 bilhões para US$ 18,84 bilhões porque o preço do ouro recuou cerca de 15%, ficando um pouco acima de US$ 4.000 por onça.

O mesmo movimento aconteceu com o bitcoin. A empresa adicionou aproximadamente 1.796 BTC ao portfólio, totalizando 98.933 unidades. Ainda assim, o valor de mercado dessa posição encolheu de US$ 6,62 bilhões para US$ 5,80 bilhões, reflexo da queda do bitcoin de US$ 68.200 para US$ 58.600 no período utilizado pela atestação. Como discutimos em nossa cobertura sobre o mercado cripto, essas oscilações fazem parte do ciclo, mas impactam diretamente quem utiliza esses ativos como reserva.

Somadas, as desvalorizações em ouro e bitcoin representam uma perda não realizada de quase US$ 1,8 bilhão. Esse valor sozinho explica boa parte da erosão do colchão de segurança, já que o lucro operacional de US$ 1,5 bilhão não foi suficiente para compensar a marcação a mercado negativa.

O que a queda das reservas excedentes significa na prática

Reservas excedentes funcionam como um seguro. Quanto maior o buffer, maior a capacidade da emissora de absorver choques sem comprometer o lastro 1:1 do USDT. Com US$ 4,11 bilhões, a Tether ainda mantém uma margem confortável em termos absolutos, equivalente a cerca de 2,2% dos passivos totais.

Mas a trajetória importa. Três meses atrás, essa margem era de 4,5%. Uma nova sequência de trimestres com marcação a mercado desfavorável em ouro e bitcoin poderia reduzir o excedente a níveis que geram desconforto institucional. Isso é particularmente relevante no contexto regulatório atual, com legislações sobre stablecoins avançando tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, como analisamos nesta seção de finanças.

Reguladores tendem a exigir que emissoras de stablecoins mantenham reservas compostas exclusivamente por ativos de alta liquidez e baixa volatilidade. Ouro e bitcoin, por mais que tenham valor como diversificação, introduzem volatilidade no balanço. A própria Tether demonstrou isso neste trimestre: comprou mais ouro e mais bitcoin, mas ficou mais pobre em termos de reserva excedente.

A máquina de lucros mais eficiente do setor financeiro

Mesmo com as ressalvas, é difícil ignorar a eficiência da operação. A Tether emprega poucas centenas de funcionários e gera lucros comparáveis aos de grandes bancos. Para efeito de comparação, o Goldman Sachs reportou lucro líquido de US$ 3,2 bilhões no segundo trimestre, mas opera com mais de 45 mil funcionários e infraestrutura infinitamente mais complexa.

A assimetria é gritante. A Tether essencialmente opera como um fundo de money market gigante, com a diferença de que seus “cotistas” são detentores de USDT que não recebem nenhum rendimento sobre os dólares depositados. Todo o spread fica com a empresa. É um modelo de negócios que funciona enquanto a demanda por stablecoins se mantiver aquecida e enquanto os juros americanos permanecerem em território restritivo.

O risco, como abordamos em análises anteriores sobre o mercado de stablecoins, é que concorrentes regulados comecem a oferecer rendimento aos detentores, pressionando a Tether a compartilhar parte da receita ou perder participação de mercado.

O que observar nos próximos trimestres

Três indicadores merecem atenção. O primeiro é a trajetória das reservas excedentes. Se o buffer continuar caindo, o mercado pode começar a precificar risco de crédito no USDT, algo que historicamente provoca descolamento do par 1:1.

O segundo é a composição das reservas. A Tether tem aumentado exposição a ativos voláteis num momento em que reguladores pedem exatamente o oposto. Essa divergência pode se tornar um problema se a empresa precisar de licenças em mercados regulados.

O terceiro é o ritmo de emissão do USDT. Os US$ 446 milhões de crescimento no trimestre representam uma fração do que a Tether vinha emitindo em períodos de alta. Se a emissão desacelerar enquanto os custos operacionais se mantêm, a margem de lucro pode ser comprimida.

O balanço do segundo trimestre de 2026 mostra uma empresa extremamente lucrativa que, ao mesmo tempo, está ficando com menos espaço para errar. É um paradoxo que define o momento das stablecoins: nunca ganharam tanto dinheiro e nunca estiveram tão próximas de enfrentar regulação que pode mudar as regras do jogo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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