Finanças

Rivian processa governo dos EUA por reembolso de tarifas inconstitucionais

Montadora de veículos elétricos quer reembolso integral das tarifas do Liberation Day, declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte americana.

Rivian processa governo dos EUA por reembolso de tarifas inconstitucionais
Foto: Hyundai Motor Group / Unsplash

A Rivian, fabricante americana de veículos elétricos, entrou com uma ação judicial contra o governo dos Estados Unidos para recuperar o valor integral das tarifas pagas sob o chamado “Liberation Day”, o pacote tarifário imposto pela administração Trump que a Suprema Corte posteriormente declarou inconstitucional. A expectativa da companhia é reaver dezenas de milhões de dólares.

O processo, protocolado no Tribunal de Comércio Internacional dos EUA, nomeia como réus o governo federal, o órgão de alfândega (CBP) e seu comissário, Rodney Scott. A ação revela um problema que vai muito além da Rivian: mesmo após a decisão da Suprema Corte, importadores que pagaram as tarifas não têm garantia automática de reembolso.

Por que a Rivian não recebeu o dinheiro de volta automaticamente

A lógica parece simples: se a Suprema Corte declarou as tarifas ilegais, o dinheiro deveria voltar. Na prática, não é assim que funciona. Segundo os advogados da Rivian, a decisão judicial não garante o reembolso automático dos valores já pagos. É necessário que cada importador busque individualmente a devolução.

O CBP informou que mais de 121 bilhões de dólares em reembolsos potenciais e certificados foram aceitos para processamento. No entanto, análises do Cato Institute indicam que apenas 71 bilhões foram efetivamente pagos até o momento. Isso sugere que o processo burocrático criou obstáculos reais para as empresas que tentam recuperar seus recursos.

A diferença entre o valor aceito para processamento e o efetivamente devolvido, cerca de 50 bilhões de dólares, representa dinheiro que permanece nos cofres do governo enquanto empresas aguardam na fila. Para companhias que operam com margens apertadas, como é o caso de fabricantes de veículos elétricos, esse capital parado faz diferença.

O momento financeiro da Rivian e o peso das tarifas

A ação judicial chega em um momento crítico para a montadora. A Rivian está no meio do lançamento do R2, seu primeiro SUV voltado ao mercado de massa. A empresa projeta entregar entre 20 mil e 25 mil unidades do modelo até o fim do ano, um passo importante na trajetória rumo à rentabilidade, que pode não chegar antes de 2028.

Parte da razão para esse horizonte distante é o investimento pesado em veículos autônomos. Para sustentar o caixa nesse período, a companhia recentemente levantou cerca de 1,3 bilhão de dólares em uma oferta de ações. Cada milhão que ficar retido em tarifas inconstitucionais é um milhão a menos para financiar essa transição.

O CEO da Rivian, RJ Scaringe, estimou no ano passado que as tarifas adicionavam “alguns milhares de dólares” ao custo de cada veículo. Até o final de 2025, a empresa conseguiu mitigar esse impacto para “algumas centenas de dólares” por unidade, provavelmente reorganizando cadeias de suprimentos e absorvendo parte do custo. Ainda assim, em uma operação que entrega dezenas de milhares de carros, o efeito acumulado é relevante.

Um problema sistêmico para importadores americanos

A Rivian não está sozinha. Uma longa fila de empresas busca reembolsos semelhantes, e a dificuldade em recuperar valores já pagos expõe um problema estrutural. As tarifas do Liberation Day foram justificadas sob o International Emergency Economic Powers Act (IEEPA), uma base legal que a Suprema Corte considerou inadequada para impor tributos comerciais dessa magnitude.

Em documentos regulatórios, a própria Rivian reconheceu que o ambiente de retaliação comercial e barreiras adicionais prejudicou sua capacidade de obter matérias-primas, componentes e equipamentos, além de comprometer a viabilidade de vender produtos a preços que os consumidores estejam dispostos a pagar. Esse tipo de declaração em filing regulatório não é retórica: é um alerta formal a investidores sobre riscos materiais ao negócio.

Para quem acompanha o mercado financeiro, o caso ilustra como decisões de política comercial podem criar efeitos prolongados mesmo depois de revogadas. As tarifas foram derrubadas na Justiça, mas o dinheiro continua preso. A burocracia de reembolso funciona como uma tarifa fantasma que segue pesando no balanço das empresas.

O que a Rivian pede ao tribunal

A montadora fez três pedidos ao Tribunal de Comércio Internacional: que declare as tarifas “contrárias à lei”, que determine o reembolso integral com juros e que o governo arque com os custos judiciais do processo. São pedidos relativamente diretos, mas que dependem de um sistema judicial que já está sobrecarregado com ações semelhantes.

O desfecho dessa disputa interessa a todo o setor industrial americano, não apenas ao segmento de veículos elétricos. A forma como o governo processar esses reembolsos vai definir um precedente sobre os custos reais de políticas comerciais declaradas inconstitucionais. Se os importadores precisarem litigar individualmente para reaver cada centavo, o sinal enviado ao mercado é que tarifas ilegais ainda compensam para o governo, pelo menos no curto prazo.

Para investidores que observam o setor de tecnologia e mobilidade elétrica, o caso Rivian é um lembrete de que risco regulatório e comercial não desaparece com uma decisão da Suprema Corte. A execução importa tanto quanto a sentença. E no caso das tarifas do Liberation Day, a execução está longe de ser trivial.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…