Criptomoedas

Stablecoins movimentam mais que Visa e Mastercard juntas: o que são stablecoins?

Criptomoedas atreladas ao dólar já processam trilhões por ano e redesenham o câmbio informal no Brasil. Entenda o mecanismo, os riscos e a regulação.

Stablecoins movimentam mais que Visa e Mastercard juntas: o que são stablecoins?

Em 2024, o volume de transações com stablecoins ultrapassou US$ 27,6 trilhões, superando o processado por Visa e Mastercard combinadas, segundo levantamento da Circle com dados on-chain. O número impressiona, mas diz pouco se você não entender o que são stablecoins e por que elas crescem tão rápido. Para o investidor brasileiro, a resposta está mais perto do cotidiano do que parece: parte relevante desse volume nasce de remessas internacionais e de proteção cambial em países com moedas voláteis.

Stablecoins são criptoativos projetados para manter paridade com um ativo de referência, geralmente o dólar americano, por meio de reservas em moeda fiduciária, títulos de dívida ou algoritmos, oferecendo a programabilidade de uma blockchain com a estabilidade de preço ausente em ativos como Bitcoin e Ethereum.

Como funcionam as stablecoins na prática?

Existem três grandes categorias. As colateralizadas por moeda fiduciária, como Tether (USDT) e USD Coin (USDC), mantêm reservas em dólares, títulos do Tesouro americano e equivalentes de caixa. Cada token emitido corresponde, em tese, a um dólar custodiado. As colateralizadas por cripto, como DAI da MakerDAO, usam depósitos em Ethereum e outros tokens como garantia, sempre com sobrecolateralização para absorver oscilações de preço. E as algorítmicas, que tentam sustentar a paridade apenas com mecanismos de mercado, ajustando oferta e demanda automaticamente.

A mecânica de resgate é o que dá credibilidade ao sistema. Quando o preço de uma stablecoin cai abaixo de US$ 1, arbitradores compram o token barato e o resgatam pelo valor de face junto ao emissor, embolsando a diferença e restaurando a paridade. O processo inverso ocorre quando o preço sobe acima de US$ 1. Esse ciclo funciona bem para stablecoins com reservas auditáveis. Para as algorítmicas, a história é outra: o colapso da UST/Luna em maio de 2022, que evaporou mais de US$ 40 bilhões em dias, mostrou que a confiança em código puro pode se desfazer rápido.

O que são stablecoins para o mercado brasileiro?

No Brasil, stablecoins funcionam como um dólar digital acessível. Dados do Banco Central indicam que, em 2023, stablecoins representaram mais de 70% do volume de criptoativos importados pelo país, evidenciando que o brasileiro usa cripto menos para especular e mais para acessar câmbio. A compra de USDT em exchanges nacionais como Mercado Bitcoin, Foxbit e pela própria plataforma da QR Capital é rotina para quem quer dolarizar patrimônio sem abrir conta no exterior.

Na cobertura diária do BlockTrends, vemos esse padrão se repetir a cada estresse cambial: quando o real perde força, o volume de compra de USDT nas corretoras brasileiras dispara em questão de horas. É um termômetro em tempo real da confiança na moeda local.

Do lado regulatório, o Banco Central avança na regulamentação dos prestadores de serviços de ativos virtuais, e stablecoins estão no centro da discussão. O Marco Legal dos Criptoativos (Lei 14.478/2022) deu ao BC a competência para supervisionar tokens que funcionem como meio de pagamento. Já a Receita Federal exige declaração de stablecoins no Imposto de Renda sempre que o saldo ultrapasse R$ 5 mil em exchanges nacionais ou qualquer valor em plataformas estrangeiras, seguindo a Instrução Normativa 1.888/2019.

Stablecoins são realmente seguras?

Depende de qual. A Tether, emissora do USDT, enfrentou anos de questionamentos sobre a composição de suas reservas antes de começar a publicar atestações trimestrais. A Circle, por trás do USDC, adota auditorias mensais com a Deloitte e mantém reservas quase integralmente em títulos do Tesouro americano e depósitos bancários. Já projetos algorítmicos menores carregam risco estrutural elevado.

O ponto crítico é o risco de contraparte. Quem detém USDT confia que a Tether honrará o resgate. Quem detém USDC confia na Circle e nos bancos custodiantes. Diferente de um depósito bancário coberto pelo FGC no Brasil, não existe seguro governamental para stablecoins. O investidor precisa avaliar a transparência do emissor, a jurisdição de custódia e o histórico de auditorias antes de concentrar capital.

Mito: stablecoins não variam de preço

Variam, sim. Em março de 2023, o USDC chegou a ser negociado a US$ 0,87 após o colapso do Silicon Valley Bank, onde a Circle mantinha cerca de US$ 3,3 bilhões em reservas. A paridade só foi restaurada depois que o governo americano garantiu os depósitos do banco. Episódios como esse mostram que a estabilidade das stablecoins depende da saúde do sistema financeiro tradicional ao qual estão conectadas. A palavra “stable” é uma meta, não uma garantia.

Quais são as principais stablecoins do mercado?

  • USDT (Tether): maior capitalização de mercado entre stablecoins, presente em praticamente todas as exchanges globais.
  • USDC (Circle): foco em conformidade regulatória, amplamente usada em DeFi e por instituições.
  • DAI (MakerDAO): descentralizada, colateralizada por criptoativos, governada por holders do token MKR.
  • FDUSD (First Digital): emitida em Hong Kong, ganhou relevância na Binance após o fim do fee zero para BUSD.
  • DREX (Real Digital): não é uma stablecoin privada, mas a CBDC brasileira em fase de testes pelo Banco Central, que interage com o mesmo ecossistema conceitual.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
Continue scrollando para a próxima matéria…