Finanças

Estreito de Ormuz sob fogo cruzado: o que muda no petróleo

Novos ataques entre EUA e Irã paralisam o tráfego no Estreito de Ormuz e jogam o petróleo acima de US$ 78. Entenda o impacto para investidores e para o Brasil.

Estreito de Ormuz sob fogo cruzado: o que muda no petróleo
Foto: Zifeng Xiong / Unsplash

O petróleo Brent avançou cerca de 3% nesta segunda-feira, negociado a US$ 78,25 por barril, depois que a escalada militar entre Estados Unidos e Irã reacendeu o pior cenário para o mercado global de energia: o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz. O WTI acompanhou o movimento e saltou para US$ 73,42.

O gatilho foi uma sequência de ataques durante o fim de semana. Teerã atingiu instalações americanas no Golfo Pérsico e declarou o estreito novamente fechado. A Guarda Revolucionária iraniana confirmou ofensivas contra bases no Kuwait e no Bahrein. Do lado americano, Donald Trump insistiu que a hidrovia permanece aberta ao tráfego comercial, mas os dados de rastreamento marítimo contam outra história.

O tráfego de embarcações pelo estreito caiu para o menor nível em cinco semanas, segundo a firma de inteligência Kpler. As empresas de transporte marítimo adotaram postura cautelosa, e os movimentos de entrada diminuíram significativamente. Para quem investe em commodities, esse é o tipo de sinal que antecede reprecificações mais duradouras.

Por que o Estreito de Ormuz importa tanto para o preço do petróleo

Antes do início do conflito no fim de fevereiro, o Estreito de Ormuz era responsável pela passagem de cerca de um quinto do fornecimento diário mundial de petróleo e gás natural liquefeito. Estamos falando de um gargalo logístico que não tem substituto imediato na escala necessária.

A Agência Internacional de Energia informou na última sexta-feira que a oferta global de petróleo aumentou em 4,1 milhões de barris por dia em junho, após um acordo provisório de paz assinado no mês passado. Parece boa notícia, mas há um detalhe importante: a oferta ainda permanece 9,4 milhões de barris por dia abaixo dos níveis anteriores à guerra. A recuperação está longe de ser completa.

O acordo provisório entre Washington e Teerã previa a reabertura do estreito e o encerramento do conflito após mais 60 dias de negociações. Com a retomada dos ataques, esse cronograma entrou em colapso. E o mercado precificou isso em questão de horas.

Para quem acompanha o noticiário de finanças e commodities, a velocidade da reação mostra o quanto o mercado de energia opera com margem de segurança apertada. Qualquer interrupção no Ormuz gera efeito cascata nos preços globais.

A corrida por rotas alternativas e o cenário até 2028

O Goldman Sachs publicou estimativas que ajudam a dimensionar a resposta de longo prazo. O banco projeta que a ampliação da capacidade de oleodutos que contornam o Estreito de Ormuz poderá proteger mais de 60% das exportações de petróleo do Golfo contra futuras interrupções até o fim de 2028.

Os números são robustos. A capacidade de desvio deve crescer em 3,8 milhões de barris por dia até o fim de 2027, chegando a 7,3 milhões adicionais até o fim de 2028. No acumulado, isso elevaria a capacidade total de desvio para mais de 14 milhões de barris por dia.

Isso significa que, no médio prazo, a dependência do estreito tende a diminuir. Mas estamos falando de dois a três anos de obras e investimentos. Até lá, cada escalada militar terá potencial para jogar o barril acima de US$ 80 com facilidade.

A Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi já sinalizou essa volatilidade ao definir o preço oficial de venda do petróleo Murban para agosto em US$ 80,01 por barril, uma queda expressiva frente aos US$ 101,48 do mês anterior. A oscilação reflete a dificuldade de precificar qualquer coisa num ambiente de guerra ativa.

O que investidores brasileiros devem observar

Para o Brasil, a equação é ambígua. A Petrobras tende a se beneficiar no curto prazo com um barril mais caro, dado que a companhia é exportadora líquida de petróleo. As ações da estatal historicamente reagem positivamente a choques de oferta no Oriente Médio, como análises anteriores sobre o mercado de commodities já demonstraram.

Por outro lado, petróleo mais caro pressiona a inflação doméstica via combustíveis, o que complica o trabalho do Banco Central num momento em que a política monetária brasileira já opera em terreno restritivo. Se o barril se estabilizar acima de US$ 80, o impacto na bomba de gasolina chega em semanas.

Há ainda um desdobramento menos óbvio. As reservas iranianas armazenadas no mar estão crescendo. Teerã ampliou exportações durante o período do acordo provisório, mas as vendas estão lentas. Refinarias independentes da China passaram a preferir petróleo mais barato do Iraque, dos Emirados e do Catar. Isso cria um excedente iraniano que pode inundar o mercado caso a paz seja restabelecida, derrubando preços tão rápido quanto subiram.

O cenário exige atenção a dois indicadores: o volume de tráfego marítimo no Ormuz, monitorado em tempo real por empresas como a Kpler, e os desdobramentos diplomáticos entre Washington e Teerã. Enquanto não houver clareza sobre a retomada das negociações, a volatilidade no petróleo permanecerá elevada.

Volatilidade como regra, não exceção

O mercado de petróleo opera, desde fevereiro, sob uma lógica de conflito. Cada rodada de ataques gera um pico de preço. Cada sinal diplomático gera uma correção. Esse padrão não deve mudar nas próximas semanas.

Para investidores posicionados em ações de energia, ETFs de commodities ou mesmo quem acompanha o impacto macroeconômico sobre juros e câmbio, o recado é direto: o Estreito de Ormuz voltou a ser o principal termômetro de risco geopolítico do mundo. E, por enquanto, a temperatura está subindo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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