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Brasil troca diesel russo pelo americano: o que mudou

Rússia suspendeu exportações de diesel e descontos sumiram. EUA já respondem por 78% das importações brasileiras do combustível em julho.

Brasil troca diesel russo pelo americano: o que mudou
Foto: Ali Mucci / Unsplash

Durante dois anos, o Brasil surfou nos descontos do diesel russo. Desde 2023, o país se consolidou como segundo maior comprador do combustível de Moscou, aproveitando preços artificialmente baixos criados pelas sanções ocidentais que Brasília nunca seguiu. Essa janela se fechou.

A Rússia anunciou a suspensão temporária das exportações de diesel, válida ao menos até 31 de julho. Ataques ucranianos a refinarias e à infraestrutura energética causaram escassez interna, e o Kremlin decidiu priorizar o abastecimento doméstico. Para o Brasil, porém, a notícia já era esperada.

De 64% para 17%: a queda da Rússia nas importações brasileiras

Os números da Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom) mostram que a transição já estava em curso antes do anúncio oficial. Em junho, a Rússia respondia por 64% das importações brasileiras de diesel. Em julho, essa fatia despencou para apenas 17%.

Na direção oposta, os Estados Unidos saltaram de 36% para 78% das importações agendadas no mesmo período. A Índia apareceu pela primeira vez na lista, com uma participação de 5%. A reorganização foi rápida e silenciosa.

Segundo Sergio Araujo, presidente da Abicom, a restrição da oferta russa provoca aumento no preço do produto, mas não representa risco para o abastecimento do país. A oferta já vinha caindo nos meses anteriores, e os descontos que tornavam o diesel russo tão atraente haviam praticamente desaparecido.

Por que os descontos do diesel russo sumiram

A explicação passa por uma combinação de fatores geopolíticos que alterou a dinâmica global de combustíveis. Quando os EUA aliviaram parte das sanções a Moscou, tentando conter os preços diante do conflito com o Irã, a procura mundial pelo diesel russo aumentou. Mais compradores disputando o mesmo barril significa menos desconto para cada um deles.

A guerra no Oriente Médio acelerou esse processo. Operadores do setor relatam que, desde o início do conflito na região, os descontos sobre a energia russa simplesmente desapareceram. O que antes era uma vantagem competitiva clara para importadores brasileiros virou paridade de preço, ou até desvantagem.

Enquanto isso, o diesel americano ficou mais barato. As refinarias nos EUA operam com grande disponibilidade de petróleo, sustentada pela liberação de reservas estratégicas, produção interna em níveis recordes e o recente acesso a barris venezuelanos. O resultado foi contraintuitivo: o produto americano chegou ao Brasil com preço igual ou inferior ao russo.

Na prática, como relatam traders de combustíveis, o diesel russo só não subia mais porque o americano, mais barato, funcionava como um limitante de preço. Uma situação atípica que inverteu completamente a lógica do mercado, como já analisamos em matérias sobre dinâmicas do mercado de energia e commodities.

Escassez interna pressiona Putin

Na Rússia, a situação interna justifica a decisão do Kremlin. Nos últimos dois meses, os preços da gasolina e do diesel no mercado doméstico subiram mais de 10%, atingindo máximas históricas. Relatos de falta de combustível surgiram em todas as regiões do país, segundo dados compilados pelo Goldman Sachs.

O pico de demanda por diesel na Rússia costuma ocorrer em agosto, impulsionado pelo agronegócio local. Putin já havia mencionado publicamente a possibilidade de vetar vendas externas para garantir o abastecimento doméstico. O anúncio apenas formalizou o que o mercado já precificava.

Do lado brasileiro, o maior consumo de diesel se concentra justamente em julho, puxado pelas colheitas de milho e algodão. A Petrobras se antecipou e posicionou navios para trazer diesel ao país a partir deste mês. A CEO da estatal, Magda Chambriard, confirmou no final de junho que a companhia precisaria importar o combustível após três meses sem fazer compras externas.

O alívio diplomático para Brasília

A migração das compras para os EUA, embora motivada por razões econômicas e não políticas, traz um efeito colateral conveniente para o Itamaraty. Parlamentares americanos vinham defendendo tarifas adicionais de até 500% sobre produtos de países acusados de financiar a máquina de guerra russa com suas importações de energia.

O senador Lindsey Graham chegou a afirmar que um projeto para punir clientes da indústria energética russa teria apoio do presidente Donald Trump. O Brasil, que nunca aderiu aos embargos a Moscou, justificando que só aplica sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU, ficava numa posição delicada, um tema que já abordamos ao discutir os impactos das tensões comerciais globais sobre o Brasil.

Com o diesel americano mais competitivo e dominando quase 80% das importações brasileiras, essa pressão diplomática perde força natural. Não porque Brasília tenha mudado de posição, mas porque o mercado resolveu a equação antes da política.

O que muda para o preço do diesel no Brasil

O impacto direto no bolso do consumidor tende a ser limitado no curto prazo. A oferta americana é abundante e competitiva, e o mercado já se reorganizou para absorver a saída russa. A Abicom não projeta desabastecimento.

O risco maior está na escalada dos conflitos no Oriente Médio ou em uma extensão prolongada da suspensão russa além de julho. Qualquer um desses cenários poderia pressionar os preços globais de derivados, afetando toda a cadeia de importação, algo que acompanhamos de perto na cobertura de commodities e energia.

Por ora, o tabuleiro virou. O Brasil deixou de ser um dos principais beneficiários das sanções ocidentais à Rússia e passou a depender do combustível do país que liderou essas mesmas sanções. É o tipo de ironia que só a geopolítica da energia consegue produzir.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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