Finanças

Japão pode elevar juros acima de 2%: o impacto global

Ex-dirigente do BOJ alerta que juros japoneses podem subir rapidamente acima de 2%. O iene fraco e os títulos no maior nível em 30 anos pressionam a decisão.

Japão pode elevar juros acima de 2%: o impacto global
Foto: Francesco Albanese / Unsplash

O Banco do Japão pode acelerar o ritmo de elevação da taxa básica de juros e empurrar o custo de crédito para acima de 2% ainda neste ciclo. O alerta vem de Tsutomu Watanabe, ex-dirigente da instituição e hoje professor de economia na Universidade de Tóquio. A declaração chama atenção porque o BOJ passou décadas sendo sinônimo de juros zero ou negativos, e uma mudança dessa magnitude teria repercussões que vão muito além da economia japonesa.

Atualmente, a taxa oficial de juros no Japão está em 1%, fruto de aumentos recentes que já representaram uma ruptura com a política ultrafrouxa mantida por mais de uma década. O rendimento do título de 10 anos do governo japonês (JGB) já supera 2,8%, o maior patamar em pelo menos três décadas. São números que, isolados, parecem modestos para quem acompanha os juros brasileiros. Mas, no contexto japonês, representam uma transformação estrutural.

Por que o iene continua caindo mesmo com juros maiores

O paradoxo central desta história é que, apesar das altas de juros e dos rendimentos recordes nos títulos soberanos, o iene segue em queda. A moeda japonesa acumula uma depreciação de cerca de 60% em relação ao dólar desde o início de 2021, negociada a 162,36 por dólar. Só neste ano, a desvalorização já chega a 3%.

Para uma das moedas mais negociadas do mundo, esse movimento é significativo. Parte da explicação está no diferencial de juros que ainda persiste entre Japão e Estados Unidos, mesmo após os ajustes do BOJ. Outra parte está na dinâmica estrutural do carry trade, operação em que investidores tomam empréstimos em moedas de juros baixos para aplicar em ativos de maior retorno em outras economias.

A lógica do mercado é simples: enquanto o diferencial de juros entre Tóquio e Washington (ou Frankfurt) permanecer atrativo, o iene tende a ser vendido. A questão é se um salto para acima de 2% seria suficiente para inverter essa dinâmica, como analisamos frequentemente na editoria de finanças.

O fantasma do carry trade e o risco para ativos globais

Uma das teorias mais debatidas nos mercados globais desde 2023 é a do chamado “yen carry trade unwind”, a reversão das posições financiadas com iene barato. Durante anos de juros zero no Japão, investidores institucionais tomaram empréstimos em iene para comprar títulos de governos de países desenvolvidos, ações de tecnologia e até criptoativos.

Se o BOJ elevar juros de forma agressiva o suficiente para provocar uma valorização sustentada do iene, essas posições precisariam ser desfeitas. Na prática, isso significaria venda forçada de ativos de risco ao redor do mundo. O episódio de agosto de 2024, quando um ajuste modesto do BOJ provocou turbulência nos mercados globais, ainda está fresco na memória dos investidores.

No entanto, há um dado que complica essa narrativa. A correlação entre iene e bitcoin, por exemplo, tem sido positiva nos últimos meses. Ambos vêm perdendo valor frente ao dólar em movimentos sincronizados, o que sugere que outros fatores, como a política monetária americana e o apetite por risco global, podem estar pesando mais do que a dinâmica japonesa isoladamente. Essa relação entre moedas tradicionais e criptoativos merece atenção contínua.

O dilema fiscal do Japão com juros mais altos

Se elevar juros agressivamente resolve um problema, pode criar outro. O Japão tem a maior relação dívida/PIB entre as economias desenvolvidas, estimada em cerca de 260%. Com juros próximos de zero, o custo de financiamento dessa dívida era administrável. Acima de 2%, as contas mudam radicalmente.

Cada ponto percentual a mais na taxa básica representa centenas de bilhões de ienes adicionais em despesas com juros para o governo japonês. Economistas alertam que uma alta rápida demais pode comprometer a sustentabilidade fiscal do país e forçar cortes de gastos ou aumentos de impostos em uma economia que já enfrenta desafios demográficos sérios, com população envelhecendo e força de trabalho encolhendo.

É um dilema clássico de política monetária: combater a fraqueza cambial e a inflação importada sem detonar uma crise fiscal. O BOJ precisa calibrar o ritmo com precisão cirúrgica, algo que bancos centrais raramente conseguem fazer na prática.

O que isso muda para quem investe fora do Japão

Para investidores brasileiros, a situação japonesa importa por canais indiretos, mas relevantes. Um aumento significativo nos juros japoneses tende a elevar os rendimentos de títulos soberanos globalmente, incluindo os Treasuries americanos. Isso, por sua vez, pressiona ativos de risco em mercados emergentes.

Além disso, a eventual reversão do carry trade em iene pode provocar movimentos bruscos de liquidez nos mercados internacionais. Episódios assim costumam gerar oportunidades para quem tem caixa e estômago, mas causam estragos em carteiras alavancadas. A dinâmica é semelhante à que descrevemos ao analisar os ciclos de aperto monetário em outras economias centrais.

O cenário mais provável, segundo a maioria dos analistas, é que o BOJ mantenha um ritmo gradual de altas, mas a declaração de Watanabe serve como lembrete de que os riscos estão assimétricos para cima. Se a inflação japonesa se mostrar mais persistente ou o iene acelerar a queda, o banco central pode ser forçado a agir com mais velocidade do que o mercado espera.

Em um mundo onde os principais bancos centrais já começam a discutir cortes de juros, o Japão caminha na direção oposta. Essa divergência monetária entre Tóquio e o resto do mundo desenvolvido é, possivelmente, uma das dinâmicas mais importantes e menos discutidas nos mercados globais hoje.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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