Criptomoedas

Citi corta projeções para Bitcoin e Ethereum: o que mudou

Citi reduziu alvo do Bitcoin de US$ 112 mil para US$ 82 mil e do Ethereum de US$ 3.175 para US$ 2.240. Saídas recordes de ETFs e incerteza regulatória pesam.

Citi corta projeções para Bitcoin e Ethereum: o que mudou
Foto: www.kaboompics.com / Unsplash

Quando um dos maiores bancos do mundo reduz suas estimativas para um ativo pela segunda vez consecutiva em poucos meses, a mensagem é difícil de ignorar. O Citigroup cortou suas projeções de preço para Bitcoin e Ethereum de forma relevante, refletindo um cenário que combina saídas massivas de ETFs, incerteza regulatória nos Estados Unidos e preocupações com vendas institucionais.

O movimento não é isolado. Ele se soma a uma série de sinais que indicam que o otimismo exagerado do início do ano deu lugar a uma leitura mais cautelosa do mercado cripto por parte de Wall Street.

De US$ 189 mil para US$ 82 mil: a erosão das estimativas do Citi

A trajetória das projeções do Citigroup para o Bitcoin ilustra bem a mudança de humor. Em dezembro, os analistas do banco projetavam que a criptomoeda poderia dobrar de valor, com alvo em US$ 189 mil. Em março, questões regulatórias fizeram esse número cair para US$ 112 mil. Agora, o alvo é de apenas US$ 82 mil.

Para o Ethereum, o padrão se repete. A projeção saiu de US$ 5.440 em outubro para US$ 3.175 em março, e agora chegou a US$ 2.240. Com o ativo negociado na casa dos US$ 1.570 no momento da publicação do relatório, isso ainda representaria uma valorização de cerca de 42%. Mas o contexto importa: ambas as criptomoedas já estavam nesses patamares de preço há menos de dois meses.

Em outras palavras, o melhor cenário do Citi é que Bitcoin e Ethereum levem até 12 meses para recuperar o que perderam em 45 dias de queda. Não é exatamente uma tese de entusiasmo.

ETFs registram pior mês da história e pesam na análise

Um dos pilares da revisão negativa é o comportamento dos ETFs de criptomoedas nos Estados Unidos. O Citi destacou que os fluxos desses fundos, considerados um dos principais vetores de preço desde sua aprovação, se tornaram negativos de forma consistente.

Os números são eloquentes. Os ETFs de Bitcoin à vista fecharam junho com saídas de US$ 4,51 bilhões, o pior mês desde o lançamento desses produtos. No caso dos ETFs de Ethereum, as saídas ficaram em US$ 529 milhões no mesmo período. Embora distante do recorde negativo de US$ 1,42 bilhão registrado em novembro, os fundos de Ethereum acumularam vendas em sete dos últimos oito meses, totalizando um fluxo negativo de US$ 3,5 bilhões.

Essa dinâmica contraria diretamente a narrativa que sustentou boa parte do rali do primeiro trimestre: a de que os ETFs trariam uma onda sustentada de capital institucional para o mercado cripto. O que se vê agora é o oposto. Investidores institucionais estão reduzindo posições, não ampliando.

Vendas corporativas e regulação travada completam o quadro

O relatório do Citi, compartilhado pela Reuters, aponta outros dois fatores de risco relevantes. O primeiro são as potenciais vendas de Bitcoin por empresas de tesouraria, como a Strategy (antiga MicroStrategy). Com posições concentradas em um ativo que já caiu significativamente, essas empresas podem ser forçadas a liquidar parte de seus estoques para cumprir obrigações financeiras ou responder a pressões acionárias.

O segundo ponto é o lento avanço da legislação cripto nos Estados Unidos. Apesar das promessas de um marco regulatório mais claro, o Congresso americano não avançou de forma concreta. Para o Citi, essa incerteza regulatória afasta capital institucional e dificulta a precificação de ativos digitais como classe de investimento legítima.

Essas preocupações não são exclusivas do Citigroup. A Grayscale, gestora responsável por um dos maiores ETFs de Bitcoin do mundo, também mencionou os mesmos riscos em análises recentes. Os analistas da gestora adicionaram ainda que as decisões do Federal Reserve sobre juros merecem atenção especial dos investidores de cripto nos próximos meses.

O cenário pessimista: Bitcoin a US$ 53 mil e Ethereum abaixo de US$ 1.100

O Citi também traçou um cenário adverso, caso as condições macroeconômicas se deteriorem para uma recessão e as vendas nos ETFs continuem. Nesse caso, o banco projeta o Bitcoin recuando para US$ 53 mil e o Ethereum para US$ 1.094.

Para o Ethereum, isso representaria uma queda adicional de cerca de 30% em relação aos preços atuais, levando o ativo para patamares que não eram vistos desde meados de 2023. No caso do Bitcoin, a queda seria de aproximadamente 10%, mas consolidaria uma tendência de baixa que vem se formando desde abril.

O que chama atenção é a velocidade da deterioração das projeções. Em menos de seis meses, o cenário base do Citi para o Bitcoin caiu 57%, saindo de US$ 189 mil para US$ 82 mil. Não se trata de ajuste fino. É uma revisão estrutural de tese.

O que isso significa para quem investe em cripto

Relatórios de bancos tradicionais não são oráculos. O histórico de projeções de Wall Street para criptomoedas é repleto de erros, tanto para cima quanto para baixo. Mas a direção das revisões importa. Quando instituições do porte do Citigroup cortam estimativas de forma consecutiva e agressiva, isso sinaliza que o apetite institucional por risco em cripto está diminuindo.

O ponto central não é se o Bitcoin vai ou não atingir US$ 82 mil. É que os principais catalisadores de alta que o mercado esperava, como fluxos consistentes para ETFs, avanço regulatório e adoção corporativa, estão todos sob pressão ao mesmo tempo. Enquanto isso, os fatores de risco, como juros elevados, recessão potencial e vendas forçadas, ganharam peso.

Para o investidor que acompanha o mercado cripto, o recado é de cautela. Não necessariamente de saída, mas de calibragem de expectativas. O rali fácil impulsionado pela aprovação dos ETFs ficou para trás. O que vem pela frente exige fundamentos mais sólidos do que narrativa.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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