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BNY Mellon integra USDC e aproxima Wall Street das stablecoins

Maior custodiante global, com US$ 59 trilhões sob gestão, agora permite que instituições comprem, resgatem e guardem USDC em sua plataforma digital.

BNY Mellon integra USDC e aproxima Wall Street das stablecoins
Foto: William Doll II / Unsplash

O BNY Mellon, maior banco custodiante do planeta com US$ 59 trilhões em ativos sob gestão, anunciou que o USDC será a primeira stablecoin suportada em sua plataforma de custódia de ativos digitais. A partir de agora, clientes institucionais poderão manter USDC em custódia, converter dólares na stablecoin e fazer o caminho inverso, tudo dentro da mesma infraestrutura bancária tradicional.

O movimento não surge do nada. O BNY já atuava como custodiante principal das reservas que lastreiam o USDC, a stablecoin emitida pela Circle. O que muda é o escopo: em vez de apenas guardar os títulos do Tesouro americano e o caixa por trás do ativo, o banco agora oferece aos clientes a possibilidade de operar diretamente com a moeda digital. É a diferença entre ser o cofre e ser também o balcão.

O que muda para o mercado institucional de stablecoins

A decisão do BNY reflete uma tendência que ganhou tração depois da aprovação do GENIUS Act nos Estados Unidos. A lei, sancionada em 2025, criou o primeiro arcabouço federal para stablecoins lastreadas em dólar, definindo regras claras sobre reservas, transparência e supervisão dos emissores. Para instituições que operavam em uma zona cinzenta regulatória, esse marco representou o sinal verde que faltava.

O impacto prático é significativo. Gestores de ativos, fundos de pensão e tesourarias corporativas passam a contar com um custodiante regulado e familiar para manter exposição a stablecoins. Não precisam mais recorrer a infraestruturas nativas de cripto, que muitas vezes não atendem aos padrões de compliance exigidos por seus conselhos e reguladores. Como destacou Carolyn Weinberg, diretora de produtos e inovação do BNY, “as instituições precisam de infraestrutura que funcione de forma integrada entre sistemas tradicionais e baseados em blockchain”.

O banco informou que pretende expandir o suporte para outros emissores de stablecoins no futuro, o que sugere que a plataforma pode incorporar o USDT da Tether ou outras moedas estáveis relevantes. Por ora, o USDC ocupa a posição de protagonista, com capitalização de mercado superior a US$ 73 bilhões.

Projeções apontam mercado de até US$ 4 trilhões em stablecoins

Os números ajudam a entender por que Wall Street está se movendo. O mercado total de stablecoins gira hoje em torno de US$ 300 bilhões. Projeções do Standard Chartered indicam que esse valor pode alcançar US$ 2 trilhões até o fim de 2028. O Citigroup vai além: em seu cenário base, estima que o mercado chegue a US$ 4 trilhões até 2030. Estamos falando de um crescimento potencial de 7 a 13 vezes em cinco anos.

Essa expansão não depende apenas de traders de cripto, que foram os primeiros usuários relevantes das stablecoins. Os casos de uso estão se multiplicando. Pagamentos internacionais, liquidação de títulos, transferências corporativas e até gestão de caixa em tempo real aparecem como vetores de crescimento. O ecossistema cripto está deixando de ser um nicho isolado para se tornar uma camada de infraestrutura financeira.

Para a Circle, emissora do USDC, o movimento do BNY consolida uma estratégia de aproximação com o sistema financeiro tradicional. A empresa, que abriu capital recentemente sob o ticker CRCL, aposta que a legitimidade institucional é o caminho para disputar espaço com a Tether, líder absoluta do mercado de stablecoins com mais de US$ 140 bilhões em circulação.

Por que isso importa para o investidor brasileiro

A entrada de custodiantes do porte do BNY Mellon no mercado de stablecoins tem efeitos em cadeia. Quando a maior instituição de custódia do mundo valida um ativo, o custo de capital para operar nesse mercado cai. Seguradoras aceitam cobrir. Auditorias ficam mais simples. Reguladores se sentem mais confortáveis.

Para o investidor brasileiro, o sinal é duplo. Primeiro, a tokenização de ativos e o uso de stablecoins tendem a se acelerar globalmente, o que pode impactar desde o custo de remessas internacionais até a forma como fundos locais acessam mercados externos. Segundo, o avanço regulatório nos Estados Unidos pressiona outros países a definirem suas próprias regras, incluindo o Brasil, onde o Banco Central já trabalha no Drex como resposta soberana ao avanço das stablecoins privadas.

O contexto competitivo também merece atenção. Se o BNY Mellon está se posicionando, é razoável esperar que outros grandes custodiantes, como State Street e JPMorgan, acelerem movimentos semelhantes. A corrida institucional por ativos digitais não se limita ao bitcoin. As stablecoins, por serem mais palatáveis ao sistema financeiro tradicional, podem acabar sendo o verdadeiro cavalo de Troia da infraestrutura blockchain em Wall Street.

O cenário que se desenha

O anúncio do BNY não é um evento isolado. Ele se insere em um movimento estrutural que combina regulação favorável, demanda institucional crescente e evolução tecnológica. A pergunta que o mercado enfrenta não é mais se stablecoins terão relevância no sistema financeiro global, mas quanto dessa relevância será capturada por players tradicionais versus nativos de cripto.

Com US$ 59 trilhões em ativos sob gestão, o BNY Mellon não precisa do mercado de stablecoins para sobreviver. Mas está apostando que ignorá-lo seria um erro estratégico. Quando o maior custodiante do mundo chega a essa conclusão, vale prestar atenção no que vem a seguir.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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