IGP-M cai 0,50% em junho: o que isso muda nos aluguéis
Índice usado como referência em contratos de aluguel caiu 0,50% em junho, puxado por commodities mais baratas. Entenda o impacto prático.
O IGP-M registrou queda de 0,50% em junho, revertendo a alta de 0,84% em maio, segundo dados divulgados pela Fundação Getulio Vargas nesta segunda-feira. O resultado veio abaixo da expectativa do mercado, que projetava recuo de 0,45%. Em 12 meses, o índice acumula alta de 3,16%.
O dado importa por um motivo prático: o IGP-M é o indexador mais utilizado em contratos de aluguel residencial no Brasil. Uma deflação mensal significa que inquilinos com reajuste atrelado ao índice terão, ao menos temporariamente, alívio no bolso. Mas o cenário é mais complexo do que parece.
Por que o IGP-M caiu em junho
A principal força por trás da deflação foi o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que responde por 60% do IGP-M. O IPA recuou 0,97% no mês, depois de ter subido 0,91% em maio. A explicação está na normalização dos preços de commodities energéticas e minerais.
O conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciado no final de fevereiro, fechou o Estreito de Ormuz, rota fundamental para o transporte global de petróleo. Isso provocou um choque de oferta que elevou preços de energia e insumos minerais nos meses seguintes. Em junho, esses preços começaram a convergir para patamares pré-guerra.
No segmento agrícola, a história também favoreceu a deflação. As safras de cana-de-açúcar e café apresentaram resultados positivos para o ano, mesmo diante de expectativas de um El Niño intenso. Matheus Dias, economista do FGV IBRE, destacou que esses fatores se somaram para derrubar os preços no atacado.
O repasse ao consumidor já começou
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que tem peso de 30% no IGP-M, desacelerou a alta para 0,47% em junho, contra 0,61% em maio. Parte da queda nos preços ao produtor já está chegando ao varejo.
Os números mais expressivos apareceram nos combustíveis e alimentos. A gasolina recuou 1,29% no mês. O etanol caiu 5,61%. O café em pó, que vinha pressionando o orçamento das famílias, teve queda de 2,57%. São itens que pesam diretamente na cesta de consumo e ajudam a explicar a percepção de alívio inflacionário.
Na ponta oposta, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) acelerou para alta de 0,85%, ante 0,77% em maio. O setor de construção civil segue pressionado por mão de obra e materiais específicos, um movimento que tem sido recorrente ao longo do primeiro semestre, como analisamos na cobertura de indicadores econômicos do portal.
O que muda para quem paga aluguel
Quem tem contrato de aluguel com reajuste anual pelo IGP-M e data-base em junho verá o índice acumulado de 3,16% em 12 meses. É um reajuste inferior à inflação medida pelo IPCA, que roda próximo de 5% no acumulado. Em termos relativos, o IGP-M continua sendo um indexador mais favorável ao inquilino neste momento.
Mas há uma nuance importante. Muitos contratos de aluguel assinados nos últimos anos migraram do IGP-M para o IPCA ou para índices de negociação direta. A pandemia de 2020 e 2021, quando o IGP-M disparou acima de 30%, acelerou essa mudança. Proprietários e locatários passaram a enxergar o IGP-M como um índice volátil demais para balizar contratos de longo prazo.
Para quem ainda está atrelado ao IGP-M, a tendência de curto prazo é favorável. A normalização dos preços de commodities tende a manter o índice comportado nos próximos meses, desde que não haja uma nova escalada no conflito no Oriente Médio.
Commodities e o efeito Ormuz
O fechamento do Estreito de Ormuz foi o principal choque externo sobre os preços ao produtor no primeiro trimestre. A via é responsável pelo trânsito de cerca de 20% do petróleo consumido globalmente. Quando o trânsito foi interrompido, os preços do barril subiram de forma acentuada, contaminando toda a cadeia de insumos industriais.
A convergência de preços observada em junho sugere que o mercado encontrou rotas alternativas ou que a tensão militar arrefeceu o suficiente para permitir alguma normalização logística. Ainda assim, o risco geopolítico permanece no radar, como discutimos em análises anteriores sobre o impacto de conflitos nos mercados.
Esse é um ponto central para projetar o comportamento do IGP-M nos próximos meses. Se os preços de petróleo e minérios continuarem cedendo, o IPA tende a seguir em queda, arrastando o índice geral para baixo. Se houver reescalada, o cenário muda rapidamente.
O cenário para o segundo semestre
O primeiro semestre termina com uma inflação ao produtor mais controlada e um repasse parcial ao consumidor. Isso dá fôlego ao Banco Central em seu processo de condução da política monetária, embora o INCC em aceleração mostre que nem todos os setores estão na mesma direção.
Para o investidor, o IGP-M em queda reforça a tese de que títulos indexados a esse indicador perdem atratividade relativa frente a papéis atrelados ao IPCA ou à taxa Selic. A volatilidade do índice, que oscilou entre deflação de 0,50% e alta de 0,84% em apenas dois meses, é um lembrete de que o IGP-M reflete choques de oferta com muito mais intensidade do que índices ao consumidor.
O dado de junho não é, isoladamente, uma mudança de jogo. Mas reforça uma tendência: os preços ao produtor estão cedendo, o repasse ao consumidor já aparece em itens sensíveis como combustíveis e café, e quem tem contratos indexados ao IGP-M pode respirar com mais tranquilidade neste segundo semestre.
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