Lucros industriais da China crescem 21% em maio, mas divergência setorial preocupa
Setor de eletrônicos e IA puxa alta de 103% nos lucros, enquanto montadoras e fabricantes de móveis registram quedas acima de 19%. O que isso diz sobre a economia chinesa.
Os lucros das empresas industriais chinesas cresceram 21,1% em maio na comparação anual, segundo dados do Departamento Nacional de Estatísticas do país. O número é robusto, mas representa uma desaceleração frente aos 24,7% de abril. Mais relevante do que o dado agregado, porém, é o que está por trás dele: uma economia rachada ao meio, onde o boom de inteligência artificial sustenta os números enquanto setores tradicionais sangram.
No acumulado de janeiro a maio, os lucros subiram 18,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, contra 18,2% nos quatro primeiros meses. O ritmo de dois dígitos impressiona à primeira vista. Mas a composição desse crescimento revela fragilidades que investidores globais precisam monitorar com atenção.
IA responde por quase metade do crescimento dos lucros
O setor de fabricação de computadores, equipamentos de comunicação e eletrônicos registrou alta de 103,9% nos lucros entre janeiro e maio. Sozinho, esse segmento representou 43,1% de todo o crescimento dos lucros industriais do país. O número reflete o efeito cascata do investimento global em infraestrutura de inteligência artificial, que continua a gerar demanda massiva por chips, servidores e componentes de processamento.
Outro destaque foi o setor de mineração e processamento de minérios de metais não ferrosos, com lucros 93,9% maiores no período. A alta está diretamente conectada à demanda por materiais usados em semicondutores e infraestrutura de data centers, como cobre e lítio.
Segundo Zhaopeng Xing, estrategista sênior para a China do ANZ, “os setores upstream e a indústria de computadores registraram aumentos acentuados, enquanto a manufatura downstream permaneceu sob pressão”. Para o analista, a melhora nos preços ao produtor foi o principal fator impulsionador, e não necessariamente um aumento de volume. Essa distinção importa: crescimento via preço tende a ser menos sustentável do que crescimento via demanda real.
Montadoras e móveis: o retrato da demanda interna fraca
Enquanto o ecossistema de IA celebra, setores que dependem do consumo doméstico enfrentam cenário oposto. Os lucros das montadoras caíram 19,8% no período, mesmo com exportações consideradas robustas. Os fabricantes de móveis viram seus lucros despencar 58,4%.
Esses números não são coincidência. A prolongada desaceleração do setor imobiliário chinês continua a arrastar a demanda por bens duráveis. Menos imóveis novos significam menos móveis, menos eletrodomésticos e menos automóveis comprados para famílias que, em tese, estariam se mudando. Como já analisamos ao tratar do cenário macroeconômico global, o mercado imobiliário chinês é uma peça central para entender os fluxos de capital em mercados emergentes.
O banco central chinês chegou a instruir bancos comerciais a aumentarem os empréstimos neste mês, sinalizando que a demanda por crédito segue fraca. É um padrão que se repete há trimestres: o governo tenta estimular, mas consumidores e empresas resistem a se alavancar em um ambiente de incerteza.
Conflito no Irã adiciona camada de risco para setores de transformação
Além dos desequilíbrios internos, o prolongado conflito no Estreito de Ormuz adiciona pressão sobre custos. A inflação na porta de fábrica da China acelerou para a maior alta em quase quatro anos em maio, comprimindo margens de empresas que dependem de insumos importados, especialmente derivados de petróleo.
Tianchen Xu, economista sênior da Economist Intelligence Unit, destacou que uma redução das tensões no Irã seria determinante para a recuperação dos lucros no setor de transformação. “À medida que o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz for retomado e os preços internacionais do petróleo caírem, devemos observar uma recuperação gradual nos lucros do setor de transformação”, afirmou.
Para quem acompanha os mercados financeiros globais, esse é um ponto de atenção relevante. A China é a maior importadora de petróleo do mundo, e qualquer escalada nos custos de energia se transmite rapidamente para cadeias produtivas inteiras.
O que isso significa para investidores
A leitura superficial dos dados sugere resiliência. Crescimento de dois dígitos nos lucros industriais, afinal, é um número que muitas economias desenvolvidas sonhariam em ostentar. Mas a concentração desse crescimento em um único vetor, o ecossistema de inteligência artificial, levanta questões sobre sustentabilidade.
Se o boom de investimentos em IA desacelerar, ou se as tensões comerciais entre grandes potências afetarem o fluxo de componentes, a China perde seu principal motor de lucro industrial. Analistas esperam que os formuladores de política intensifiquem o apoio direcionado para estabilizar a lucratividade, especialmente em setores que enfrentam excesso de capacidade.
Para o Brasil, os dados têm implicação direta. A demanda chinesa por minério de ferro, cobre e commodities metálicas segue forte justamente pelo investimento em infraestrutura de IA e data centers. Já a fraqueza no setor imobiliário limita a demanda por aço. Esse equilíbrio instável define, em boa medida, a trajetória de empresas como Vale e CSN, como discutimos em análises anteriores sobre o impacto da China nas commodities brasileiras.
A economia chinesa está funcionando, mas em duas velocidades muito diferentes. Para quem investe, o desafio é distinguir entre o crescimento estrutural ligado à revolução tecnológica e o crescimento artificial sustentado por estímulos que, até agora, não conseguiram reativar a confiança do consumidor chinês.