Bitcoin abaixo de US$ 60 mil: o que dois trimestres de queda significam
Bitcoin recua para US$ 59.900 e deve fechar o segundo trimestre com queda de 12%, após perder 22% no primeiro. Padrão só ocorreu duas vezes na história do ativo.
O Bitcoin encerrou o fim de semana abaixo dos US$ 60 mil, negociado a cerca de US$ 59.900, com queda de quase 7% na semana. O número, isolado, já chamaria atenção. Mas o que torna o momento realmente atípico é o contexto: o ativo caminha para fechar o segundo trimestre consecutivo no vermelho, algo que só aconteceu duas vezes em toda a sua história.
No primeiro trimestre de 2025, o Bitcoin recuou aproximadamente 22%. No segundo, a queda acumulada gira em torno de 12%, segundo dados da Coinglass. Para um ativo cujo segundo trimestre historicamente figura entre os mais fortes do ano, com ganhos médios consistentes ao longo da última década, o padrão atual é uma quebra significativa da sazonalidade.
Altcoins sofrem ainda mais que o Bitcoin
Enquanto o Bitcoin mostrou alguma estabilidade relativa, o restante do mercado cripto derreteu com mais intensidade. O Ethereum caiu 9,5% na semana, negociado a cerca de US$ 1.567, acumulando uma perda de aproximadamente 25% no trimestre. No primeiro trimestre, o ETH já havia recuado 29%. São números que colocam a segunda maior criptomoeda em uma trajetória de destruição de valor muito mais acentuada que a do Bitcoin.
Entre as altcoins, o Dogecoin perdeu 11,7%, recuando para US$ 0,073. O HYPE, token da Hyperliquid, caiu 10,6%, e o XRP recuou 8,7%, para US$ 1,04. A Solana resistiu um pouco melhor, com queda de 3,5% a US$ 70, enquanto o Tron foi o mais resiliente do grupo, cedendo apenas 1,5%.
O padrão é claro: o mercado usou o Bitcoin como âncora relativa de proteção enquanto os ativos de maior risco afundaram mais rápido. Esse comportamento reforça a tese de que, em momentos de estresse, a dominância do Bitcoin sobre o mercado cripto tende a aumentar.
Os fatores por trás da pressão vendedora
Os vetores de pressão não são novidade. São os mesmos que definiram o mês de junho e boa parte do semestre. Primeiro, o capital institucional encontrou destino mais atraente em ações de semicondutores e chips de memória, impulsionadas pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial. O boom da IA continua drenando fluxo de ativos especulativos como cripto.
Segundo, os ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram saídas líquidas consistentes nas últimas semanas. Quando esses veículos foram lançados, em janeiro de 2024, a expectativa era de que se tornariam uma porta de entrada permanente de capital institucional. O que se vê agora é que esse fluxo pode inverter com a mesma facilidade, como já analisamos nesta cobertura sobre fluxos dos ETFs.
Terceiro, o Federal Reserve sob o comando do novo presidente Kevin Warsh manteve uma postura hawkish, sinalizando que não pretende cortar juros tão cedo. O dólar americano opera próximo das máximas de sete meses, o que historicamente pressiona ativos denominados em dólar que competem por liquidez, como o Bitcoin. Uma venda generalizada de ações de tecnologia no meio da semana adicionou mais combustível à pressão.
Dois trimestres vermelhos: o que a história mostra
O dado mais relevante do momento é a raridade do padrão atual. Dois trimestres consecutivos de queda para abrir um ano só ocorreram duas vezes na história do Bitcoin. Isso não significa que o terceiro trimestre será necessariamente positivo, mas contextualiza o quão incomum é a sequência.
Para o Ethereum, a situação é ainda mais grave. Quedas de 29% e 25% em trimestres consecutivos representam uma perda acumulada de quase 47% no primeiro semestre. O ativo que chegou a ser negociado acima de US$ 4.000 no ciclo anterior hoje opera abaixo de US$ 1.600, levantando questões sobre a tese de investimento de longo prazo do ETH.
A dinâmica de preço do Ethereum reflete um problema estrutural: enquanto o Bitcoin atrai fluxo via ETFs e narrativa de reserva de valor, o ETH depende da atividade on-chain e do crescimento do ecossistema DeFi, ambos em desaceleração neste semestre.
O que observar no terceiro trimestre
O mercado entra no segundo semestre com duas perguntas centrais. A primeira é se as saídas dos ETFs de Bitcoin vão desacelerar ou se transformaram em tendência estrutural. A segunda é se a demanda institucional vai retornar com o eventual alívio na política monetária do Fed ou se o capital continuará migrando para o setor de IA e semicondutores.
Historicamente, o terceiro trimestre do Bitcoin é misto, sem o mesmo viés positivo que o segundo costumava ter. Mas ciclos anteriores mostram que reversões bruscas podem acontecer quando o posicionamento vendedor atinge extremos. Dados de funding rates e open interest em derivativos serão indicadores importantes para medir se o pessimismo já está precificado.
Para investidores que acompanham o mercado cripto, o ponto central não é se o Bitcoin vai voltar a subir, mas entender que o ambiente macro mudou. Juros altos por mais tempo, dólar forte e competição por fluxo com ações de tecnologia são fatores estruturais que redefinem o comportamento do ativo. A fase de alta indiscriminada, onde tudo subia junto, ficou para trás neste ciclo.
O primeiro semestre de 2025 deixou uma mensagem clara: seletividade voltou a ser a palavra de ordem no mercado cripto.