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Tarifa de 100% de Trump contra taxação digital: o que muda

Trump promete tarifas de 100% contra países que criarem impostos sobre serviços digitais. A medida pode anular acordos comerciais recém-fechados com a Europa.

Tarifa de 100% de Trump contra taxação digital: o que muda
Foto: www.kaboompics.com / Unsplash

Donald Trump elevou mais uma vez o tom da guerra comercial global. Desta vez, o alvo são países que ousarem criar impostos sobre serviços digitais prestados por empresas americanas. A ameaça é direta: tarifa de 100% sobre todos os produtos importados por esses países ao mercado dos Estados Unidos.

A declaração foi feita em redes sociais nesta sexta-feira (26) e tem endereço claro. Segundo o presidente americano, “vários países europeus” estariam às vésperas de adotar tributos voltados especificamente a gigantes de tecnologia como Alphabet (controladora do Google) e Meta. A resposta, segundo ele, seria “imediata”.

O movimento é relevante porque acontece menos de 24 horas depois de a União Europeia aprovar formalmente um acordo comercial com os Estados Unidos, que fixava em 15% a tarifa máxima sobre a maior parte das exportações europeias ao mercado americano. Ou seja: o pacto mal foi ratificado e já pode estar comprometido.

Por que Trump trata a taxação digital como ameaça estratégica

A resistência americana a impostos sobre serviços digitais não nasceu com Trump. Desde o primeiro mandato, a Casa Branca classificou esse tipo de tributo como discriminatório contra empresas dos EUA. A lógica é simples: as maiores plataformas digitais do mundo são americanas. Qualquer imposto setorial recai, na prática, sobre Google, Meta, Apple, Amazon e Microsoft.

A Europa, por sua vez, argumenta que essas companhias geram receitas bilionárias em seus territórios, mas pagam impostos irrisórios por conta de estruturas fiscais otimizadas. A França, por exemplo, já havia implementado uma taxa digital própria, o que gerou atritos diretos com Washington. No início deste mês, Trump ameaçou a França com tarifa de 100% sobre champanhes e vinhos caso o país não recuasse da medida.

Esse cabo de guerra remonta às discussões sobre regulação de big techs que se intensificaram nos últimos anos. A diferença agora é o instrumento de pressão: em vez de negociações multilaterais, Trump usa tarifas unilaterais como arma de dissuasão.

O acordo com a UE já nasceu frágil

O pacto comercial entre EUA e União Europeia previa uma tarifa máxima de 15% para a maioria das exportações europeias. Era considerado um avanço depois de meses de incerteza tarifária que marcaram o segundo mandato de Trump.

Mas a declaração desta sexta expõe uma fragilidade estrutural desse tipo de acordo. Trump afirmou explicitamente que a tarifa de 100% “passaria por cima” de qualquer pacto comercial já firmado. Em outras palavras: o que foi negociado pode ser revogado a qualquer momento, por qualquer motivo que Washington considere suficiente.

Isso cria um cenário de insegurança jurídica que afeta não apenas governos, mas empresas que dependem de cadeias de suprimento transatlânticas. Como já analisamos ao cobrir os impactos das tarifas americanas nos mercados financeiros, a imprevisibilidade tarifária tem efeito concreto sobre decisões de investimento e alocação de capital.

OCDE e o impasse da tributação global

O tema da taxação digital não existe apenas no eixo EUA-Europa. A OCDE vem conduzindo, há anos, negociações sobre como tributar a economia digital de forma coordenada e multilateral. O chamado Pilar 1 do acordo da OCDE buscava redistribuir parte dos lucros das maiores multinacionais para os países onde elas efetivamente operam, independentemente de onde está a sede fiscal.

O governo Trump, no entanto, tem mostrado pouco interesse em soluções multilaterais. A preferência é por acordos bilaterais, onde o peso econômico dos EUA garante vantagem na negociação. Neste ano, Washington defendeu a retomada das discussões na OCDE, mas sob condições que analistas consideram desfavoráveis para países europeus.

O impasse é real. Se a OCDE não avançar com um modelo global, países individuais tendem a criar suas próprias taxas digitais. E cada nova taxa digital alimenta o ciclo de ameaças tarifárias americanas.

O que está em jogo para as big techs

Para as próprias empresas de tecnologia, a situação é duplamente complexa. Por um lado, a proteção de Washington evita que elas enfrentem uma colcha de retalhos de impostos digitais ao redor do mundo. Por outro, a escalada tarifária pode prejudicar o ambiente de negócios global do qual elas dependem.

Alphabet, por exemplo, gera cerca de 30% de sua receita fora dos Estados Unidos. Meta tem mais de 3 bilhões de usuários ativos, a maioria fora do mercado americano. Qualquer deterioração nas relações comerciais entre EUA e Europa pode afetar operações, parcerias e até a postura regulatória desses mercados em relação a inteligência artificial e plataformas digitais.

A ironia é que, ao defender suas big techs com tarifas agressivas, os EUA podem acelerar justamente o que tentam evitar: a criação de arcabouços regulatórios e tributários independentes na Europa e na Ásia, desenhados para reduzir a dependência de plataformas americanas.

O que o investidor precisa observar

Do ponto de vista de mercado, a escalada retórica de Trump adiciona mais uma camada de volatilidade a um ambiente já carregado. Ações de big techs reagiram com cautela, e o setor de exportação europeu pode enfrentar pressão renovada.

Para quem acompanha tecnologia e mercados, o ponto central não é a tarifa em si, mas o padrão de comportamento. Trump demonstra disposição para usar tarifas como ferramenta de política externa em praticamente qualquer disputa, mesmo quando acordos comerciais acabaram de ser fechados. Isso torna qualquer projeção de estabilidade comercial mais difícil.

A consequência prática é que empresas, investidores e governos precisam precificar um nível de incerteza estruturalmente mais alto nas relações comerciais com os Estados Unidos. E isso vale tanto para quem exporta vinho quanto para quem desenvolve software.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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