Finanças

IPOs de chips chineses dobram de valor em Hong Kong

Duas fabricantes de chips levantaram juntas US$ 1 bilhão em Hong Kong e viram suas ações disparar no primeiro dia. O movimento revela a força da corrida chinesa por autossuficiência em semicondutores.

IPOs de chips chineses dobram de valor em Hong Kong
Foto: Andrey Matveev / Unsplash

O mercado de capitais de Hong Kong voltou a funcionar como porta de entrada para o capital global que aposta na cadeia de semicondutores da China. Nesta sexta-feira, duas fabricantes de chips estrearam na bolsa da cidade com altas expressivas, depois de levantarem, juntas, cerca de US$ 1 bilhão em ofertas iniciais de ações.

A Circuit Fabology Microelectronics Equipment, conhecida como CFMEE, fechou o primeiro pregão com valorização de 103,8%. A SG Micro, especializada em chips analógicos, encerrou o dia em alta de 47%. Não são números modestos. São o tipo de estreia que sinaliza apetite real dos investidores por um setor que vive no centro da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.

O que fazem essas empresas e por que atraíram tanto capital

A CFMEE, sediada em Hefei, na província de Anhui, é uma das principais fabricantes de equipamentos de imagem direta usados na produção de placas de circuito impresso (PCBs) de alto padrão. Esse tipo de placa é o componente que conecta chips minúsculos a sistemas eletrônicos maiores, algo essencial em praticamente qualquer dispositivo eletrônico moderno.

A empresa captou 3,24 bilhões de dólares de Hong Kong, o equivalente a US$ 413,2 milhões. Os números operacionais explicam o entusiasmo: a receita cresceu quase 50% no último ano, enquanto o lucro líquido avançou 31%, puxado pelo aumento nas vendas de equipamentos de imagem direta e sistemas de automação. Os recursos captados serão direcionados para pesquisa e desenvolvimento, ampliação da capacidade produtiva e investimentos estratégicos.

Já a SG Micro, com sede em Pequim, atua no segmento de chips analógicos, componentes utilizados em setores como o automotivo e eletrônicos de consumo. A companhia emitiu 54 milhões de ações a HK$ 85,20 cada, levantando 4,60 bilhões de dólares de Hong Kong, cerca de US$ 586,5 milhões. A maior parte desse montante será aplicada em P&D e na expansão do portfólio de produtos nos próximos cinco anos.

Hong Kong como trampolim para a autossuficiência chinesa

Essas duas estreias não acontecem em um vácuo. Elas fazem parte de uma onda crescente de empresas chinesas de semicondutores que recorrem ao mercado de Hong Kong para captar capital novo. O pano de fundo é claro: a China segue investindo pesado na construção de uma cadeia de chips independente, especialmente depois que as restrições impostas por Washington limitaram o acesso do país a tecnologias avançadas de fabricação.

Hong Kong se tornou o destino natural para essas ofertas. A bolsa da cidade oferece acesso a investidores internacionais, liquidez em dólar de Hong Kong (atrelado ao dólar americano) e uma estrutura regulatória que facilita listagens de empresas de tecnologia. Para companhias que enfrentam barreiras para listar em Nova York, como ocorreu com diversas empresas chinesas nos últimos anos, o mercado de Hong Kong representa uma alternativa viável e cada vez mais sofisticada.

O boom global da inteligência artificial adiciona uma camada extra de demanda. Chips analógicos, equipamentos para fabricação de PCBs, semicondutores de potência: tudo isso alimenta a infraestrutura que sustenta data centers, veículos autônomos e dispositivos conectados. A corrida pela IA não se resume a modelos de linguagem. Ela passa, necessariamente, pelo hardware.

O que isso significa para investidores fora da China

Para quem acompanha mercados financeiros globais, esses IPOs são um termômetro relevante. A valorização expressiva no primeiro dia indica que existe demanda institucional significativa por exposição ao setor de semicondutores chinês, mesmo diante das tensões geopolíticas com os Estados Unidos.

Essa dinâmica tem implicações práticas. Primeiro, porque demonstra que o fluxo de capital para tecnologia chinesa não secou. Investidores institucionais asiáticos, fundos soberanos do Oriente Médio e gestores europeus seguem alocando recursos nesse segmento. Segundo, porque reforça a tese de que a cadeia global de semicondutores está se fragmentando em dois blocos: um liderado pelos Estados Unidos e aliados (com TSMC, ASML e Intel no centro) e outro pela China, com empresas como SMIC, CFMEE e SG Micro ganhando escala.

Essa bifurcação tem consequências diretas para quem investe em empresas de tecnologia e semicondutores. Valuations, cadeias de suprimento e riscos regulatórios mudam conforme a geopolítica evolui. A diversificação geográfica dos investimentos em chips deixou de ser uma opção sofisticada e passou a ser uma necessidade estratégica.

O contexto mais amplo dos IPOs em 2025

O mercado global de IPOs vinha de anos difíceis. As altas de juros, a aversão a risco e a seca de liquidez reduziram drasticamente o volume de ofertas em 2022 e 2023. O cenário começou a melhorar no segundo semestre de 2024 e ganhou tração em 2025, especialmente na Ásia.

As bolsas de Hong Kong e Xangai lideram a retomada na região. Dados da Dealogic mostram que o volume de IPOs na Ásia no primeiro semestre deste ano já supera o total de 2024 inteiro. O setor de tecnologia, e semicondutores em particular, responde por uma fatia desproporcional desse volume.

Para o Brasil, onde a bolsa segue com poucos IPOs e as empresas de tecnologia listadas são escassas, o contraste é evidente. Enquanto a Ásia atrai capital para empresas de fronteira tecnológica, o mercado brasileiro ainda depende fortemente de commodities e setor financeiro para sustentar o interesse do investidor estrangeiro.

A mensagem dos IPOs de CFMEE e SG Micro é direta: a corrida por semicondutores está acelerando, o capital segue o hardware, e Hong Kong se consolida como o principal hub financeiro para empresas chinesas de chips que querem crescer com dinheiro global.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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