Criptomoedas

Bitcoin perde US$ 62 mil com selloff de chips: o que esperar

Bitcoin cai 4,9% na semana com derretimento de ações de chips e saída recorde de US$ 6 bi em ETFs. Vencimento de opções na sexta pode definir próximo movimento.

Bitcoin perde US$ 62 mil com selloff de chips: o que esperar
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

O Bitcoin recuou para a faixa de US$ 62.500 na quarta-feira, acumulando queda de 4,9% na semana. A pressão não vem de dentro do mercado cripto, mas de um problema que nasceu no coração de Wall Street: o derretimento das ações de semicondutores, que arrastou consigo todos os ativos de risco.

A dinâmica é reveladora. Pela segunda sessão consecutiva, o Philadelphia Semiconductor Index (SOX) despencou, acumulando perda de 7,9% apenas na terça-feira, com todos os 30 componentes do índice no vermelho. Nomes como Micron, Marvell e On Semiconductor, que haviam mais que dobrado de valor em 2026, lideraram a queda.

O efeito cascata foi imediato. O S&P 500 caiu 1,4%, o Nasdaq 100 recuou 3,3% e a tentativa de recuperação das ações de chips asiáticos na quarta falhou, com a Taiwan Semiconductor cedendo mais de 3%. Nesse cenário, ativos de risco como criptomoedas funcionam como a ponta mais frágil da cadeia.

Cripto sangra junto: Ethereum, XRP e altcoins amplificam a queda

A correlação entre cripto e tech segue elevada, e o resultado aparece nos números. O Ethereum caiu 3,7% no dia, para US$ 1.661, com perda semanal de 7,2%. O XRP recuou 2,2% para US$ 1,10, acumulando 9,3% de queda na semana. Solana perdeu 3,3%, negociada a US$ 69.

O destaque negativo ficou com o token HYPE, da Hyperliquid, que caiu 8,8% no dia e 18,6% na semana, negociado próximo de US$ 61. Entre os principais ativos, apenas o Tron mostrou resiliência, com alta de 3,7% no período semanal. A dinâmica do mercado cripto em junho tem sido de compressão, com o Bitcoin oscilando dentro de uma faixa cada vez mais estreita acima dos US$ 60 mil.

O quadro macro ajuda a entender por que a pressão é tão ampla. O petróleo Brent recuou cerca de 1%, para a região de US$ 76 o barril, refletindo a melhora no trânsito de navios petroleiros pelo Estreito de Hormuz após o acordo preliminar de paz entre Estados Unidos e Irã. Ao mesmo tempo, o índice do dólar subiu ao maior patamar em sete meses, com investidores buscando proteção em ativos mais seguros.

Saída recorde de US$ 6 bilhões em ETFs de Bitcoin preocupa

Se o cenário macro já seria suficiente para explicar a fraqueza do Bitcoin, os dados de fluxo dos ETFs à vista nos Estados Unidos adicionam uma camada de preocupação. Nos últimos 30 dias, os fundos registraram saída líquida superior a US$ 6 bilhões, um recorde desde o lançamento desses produtos.

Esse dado é particularmente relevante porque indica um processo de desalavancagem institucional sustentado. Não se trata de um ou dois dias ruins, mas de um movimento contínuo dos mesmos compradores que impulsionaram o ciclo de alta anterior. Como já analisamos em relação ao impacto dos fluxos institucionais no preço do Bitcoin, enquanto essas saídas não reverterem de forma clara, qualquer rali de alívio tende a encontrar resistência.

A postura mais hawkish do Federal Reserve reforça esse comportamento. Juros altos por mais tempo diminuem o apetite por ativos sem rendimento intrínseco, e o Bitcoin, apesar de todas as narrativas de reserva de valor, continua se comportando como ativo de risco na alocação institucional.

Vencimento de US$ 10,6 bilhões em opções pode trazer volatilidade

Outro fator que mantém o mercado em alerta é o vencimento de opções na Deribit, previsto para sexta-feira. O valor nocional em jogo é de aproximadamente US$ 10,6 bilhões, um volume expressivo que tende a amplificar movimentos de preço à medida que as posições se ajustam.

O mapa de posições abertas revela o sentimento atual. Cerca de 80% das opções estão fora do dinheiro (out-of-the-money), ou seja, não teriam valor caso expirassem nos preços atuais. As posições se concentram em duas regiões: puts (opções de venda) em torno de US$ 60 mil e calls (opções de compra) perto de US$ 80 mil.

Esses níveis funcionam menos como ímãs de preço e mais como termômetro do posicionamento do mercado. A concentração de puts em US$ 60 mil confirma que esse patamar é a linha técnica e psicológica mais importante do momento. O Bitcoin já testou essa região neste mês e, até agora, segurou. Mas a sustentação depende de fatores que, no curto prazo, não estão a favor dos compradores.

Volume nas exchanges cai ao menor nível desde setembro de 2024

Outro sinal de enfraquecimento vem dos dados de volume. Em maio, o volume combinado nas exchanges de criptomoedas caiu 3,45%, para US$ 4,41 trilhões, o menor patamar desde setembro de 2024. A queda reflete tanto a apatia do varejo quanto a retração institucional evidenciada pelos fluxos dos ETFs.

Na contramão dessa tendência, os volumes de futuros perpétuos de ativos do mundo real tokenizados (RWA) subiram 10,4%, atingindo uma nova máxima histórica. O dado sugere que, mesmo em um ambiente de aversão a risco, a narrativa de tokenização de ativos reais continua ganhando tração, funcionando como uma espécie de porto seguro dentro do ecossistema cripto. Essa migração de capital para ativos tokenizados de renda fixa e real já vinha se intensificando nos últimos trimestres.

O que está em jogo para o Bitcoin no curto prazo

O Bitcoin está preso entre forças que se anulam. De um lado, o derretimento do trade de inteligência artificial e semicondutores pressiona para baixo. De outro, a melhora geopolítica no Oriente Médio e a queda do petróleo poderiam, em tese, aliviar a inflação e abrir espaço para cortes de juros futuros.

O problema é o timing. A narrativa positiva do petróleo ainda não se traduziu em mudança de postura do Fed, e a saída de capital dos ETFs indica que os grandes alocadores não estão dispostos a antecipar essa virada. O suporte de US$ 60 mil segue como o nível definidor de junho. Se romper, o próximo patamar relevante fica na região de US$ 56 mil a US$ 58 mil, onde se concentra volume significativo de negociação histórica.

Para quem acompanha o mercado, o vencimento de opções na sexta-feira é o evento mais importante da semana. Não porque determinará a direção do preço, mas porque revelará se o posicionamento especulativo se ajusta de forma ordenada ou se provoca uma extensão da volatilidade que já domina os mercados globais.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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