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Groq levanta US$ 650 mi e reinventa negócio após perder CEO para Nvidia

Após perder fundador, presidente e propriedade intelectual para a Nvidia, a Groq captou US$ 650 mi e aposta em infraestrutura de inferência com 13 data centers.

Groq levanta US$ 650 mi e reinventa negócio após perder CEO para Nvidia
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

Existe um tipo peculiar de transação no Vale do Silício que ninguém chama pelo nome real: o “not-acqui-hire”. A empresa compradora não adquire formalmente a startup. Em vez disso, paga uma generosa taxa de licenciamento de propriedade intelectual aos investidores e contrata os talentos mais críticos. A startup sobrevive no papel, mas perde o coração do negócio.

Foi exatamente isso que aconteceu com a Groq. Em dezembro, a Nvidia firmou um acordo de licenciamento não exclusivo da tecnologia da empresa e levou consigo o fundador e CEO Jonathan Ross, o presidente Sunny Madra e outros funcionários-chave. Seis meses depois, a Groq respondeu com uma captação de US$ 650 milhões e um novo plano de negócios.

O que era a Groq antes do acordo com a Nvidia

A Groq nasceu há uma década, fundada por Jonathan Ross e Doug Wightman, ambos engenheiros vindos do Google. Ross, especificamente, ficou conhecido por ajudar a criar a Tensor Processing Unit (TPU), o chip de inteligência artificial do Google. A dupla desenvolveu o chamado Language Processing Unit (LPU), um chip projetado para tarefas de inferência, a etapa em que modelos de IA já treinados processam dados e geram respostas.

O produto era vendido como serviço em nuvem ou como cluster de hardware para instalação local. Em setembro do ano passado, a empresa foi avaliada em US$ 6,9 bilhões após uma rodada de US$ 750 milhões. O futuro parecia promissor, mas o acordo com a Nvidia mudou o cenário radicalmente.

Com a propriedade intelectual dos LPUs agora licenciada, a Nvidia não perdeu tempo. Em março, durante seu evento GTC, a gigante dos chips anunciou o Nvidia Groq 3 LPX, seu próprio sistema de hardware de inferência baseado na tecnologia adquirida. Para quem acompanha o setor de tecnologia, ficou claro que a Groq original teria que se reinventar ou morrer.

A nova aposta: neocloud e infraestrutura de inferência

Doug Wightman, cofundador que permaneceu na empresa, assumiu o cargo de CEO e conduziu o pivô estratégico. O novo foco é o negócio de neocloud, uma infraestrutura de nuvem especializada em processamento de inferência de IA.

Essa vertical já existia dentro da Groq. Havia sido estruturada por Sunny Madra, que chegou à empresa após a aquisição de sua startup de analytics, a Definitive Intelligence, em 2024. Mesmo com a saída de Madra para a Nvidia, a operação cresceu. Hoje, a Groq opera 13 data centers distribuídos entre América do Norte, Europa, Oriente Médio e região Ásia-Pacífico. A empresa afirma atender mais de cinco milhões de desenvolvedores e milhares de empresas de IA, processando trilhões de tokens por semana.

A captação de US$ 650 milhões, confirmada nesta segunda-feira, vai alimentar essa expansão. A Groq não divulgou a nova avaliação, o que pode indicar uma rodada flat ou mesmo um down round em relação aos US$ 6,9 bilhões anteriores. Sem o IP principal e sem o fundador carismático, convencer investidores de um valuation mais alto seria difícil.

Nova liderança para uma nova empresa

Perder o CEO, o presidente e a tecnologia proprietária seria um golpe fatal para a maioria das startups. A Groq tentou compensar com uma reformulação completa do time executivo.

Alan Rice chegou como COO. Ele vem de passagens pela xAI, de Elon Musk, e pela Meta, além de uma carreira anterior na Marinha dos Estados Unidos. Sinclair Schuller assumiu como CTO e Rakesh Malhotra como CPO. Os dois já trabalharam juntos na Apprenda, uma empresa de software de nuvem corporativa fundada por Schuller, e depois cofundaram a Nuvalence, firma de engenharia de software adquirida pela EY em 2024. Malhotra também acumula cerca de uma década nos produtos de nuvem da Microsoft.

O perfil da nova liderança reforça a mensagem: a Groq agora é uma empresa de infraestrutura de nuvem, não uma fabricante de chips. Como discutimos em análises sobre o domínio da Nvidia no mercado de chips de IA, competir no silício contra Jensen Huang é um jogo que pouquíssimas empresas conseguem sustentar.

O mercado de inferência está em ebulição

A aposta da Groq em inferência como serviço não é aleatória. Se o treinamento de modelos de IA exige investimentos colossais concentrados em poucas empresas, a inferência é o lado da equação onde o mercado se fragmenta e surgem oportunidades para novos entrantes.

Cada vez que alguém faz uma pergunta ao ChatGPT, gera uma imagem com Midjourney ou usa um copiloto de código, o processamento que acontece é inferência. Com a adoção acelerada de IA generativa por empresas e consumidores, a demanda por essa capacidade computacional cresce exponencialmente.

Não por acaso, o capital de risco tem despejado bilhões nesse segmento. A tese é que o mundo vai precisar de muito mais infraestrutura de inferência do que a que existe hoje, e que empresas especializadas podem capturar parte significativa desse valor, como já observamos no impacto da IA generativa sobre o mercado financeiro.

O precedente da Scale AI sugere que é possível sobreviver

A Groq não é a primeira empresa a passar por esse tipo de transação e tentar seguir em frente. A Scale AI viveu algo semelhante quando a Meta realizou um “not-acqui-hire” avaliado em US$ 14,3 bilhões cerca de um ano atrás. O CEO da Scale AI, Jason Droege, afirmou que o negócio se recuperou e que a empresa está no caminho para atingir US$ 1 bilhão em receita.

Mas há diferenças importantes. A Scale AI perdeu pessoas, não necessariamente sua tecnologia central. A Groq perdeu as duas coisas. A propriedade intelectual do LPU agora está nas mãos da maior empresa de chips do mundo, que tem recursos praticamente ilimitados para desenvolvê-la.

A questão central é se a Groq consegue construir uma vantagem competitiva duradoura em neocloud sem o hardware proprietário que a diferenciava. Ter 13 data centers e cinco milhões de desenvolvedores é um ponto de partida relevante. Mas o mercado de infraestrutura de nuvem para IA está cada vez mais competitivo, com hyperscalers como AWS, Azure e Google Cloud investindo pesado, além de dezenas de startups bem capitalizadas disputando o mesmo espaço.

Com US$ 650 milhões no caixa e um novo time executivo, a Groq tem munição para pelo menos alguns anos de operação. O que acontece depois vai depender de execução, diferenciação técnica e da velocidade com que o mercado de inferência se expande. No jogo de alto risco da inteligência artificial, US$ 650 milhões compram tempo, mas não garantem nada.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Jornalista especializado em tecnologia e inteligencia artificial. Cobre big techs, startups, IA generativa, ciberseguranca e transformacao digital para o portal BlockTrends.
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