Criptomoedas

Bitcoin trava nos US$ 64 mil com tensão no Estreito de Ormuz

Bitcoin oscila perto dos US$ 64 mil, preso entre o avanço das negociações EUA-Irã e a ameaça iraniana de fechar o Estreito de Ormuz. Volume das exchanges caiu ao menor nível desde setembro de 2024.

Por que o Bitcoin parou nos US$ 64 mil

O Bitcoin encerrou a semana praticamente estável na faixa dos US$ 64.200, devolvendo o rali de início de semana e recuperando parte da queda de sexta-feira, quando chegou a operar abaixo dos US$ 63 mil. No saldo dos últimos sete dias, a variação líquida foi próxima de zero.

O comportamento resume bem o mês de maio para o ativo: movimentos curtos de alta e baixa, motivados por eventos geopolíticos fora do controle do mercado cripto, sem convicção direcional suficiente para romper o intervalo.

O gatilho de otimismo veio do memorando de entendimento assinado entre Estados Unidos e Irã, que estabeleceu uma janela de 60 dias para negociar um cessar-fogo permanente. A expectativa de distensão derrubou o petróleo cerca de 9% na semana anterior e empurrou ativos de risco para cima, incluindo o próprio Bitcoin. Mas o efeito durou pouco.

Ormuz de novo: a ameaça que travou o mercado

Na contramão das negociações diplomáticas na Suíça, onde autoridades americanas e iranianas, incluindo o vice-presidente JD Vance, se reuniram neste fim de semana, o Irã emitiu nova ordem para fechar o Estreito de Ormuz.

O estreito é o principal gargalo logístico do comércio global de petróleo. Cerca de 20% de toda a produção mundial passa por ali. A reabertura sob os termos do acordo havia sido o principal fator de alívio nos mercados na semana anterior, puxando o preço do barril para baixo e abrindo espaço para ativos de risco respirarem.

Agora, Teerã envia negociadores à Suíça ao mesmo tempo em que ameaça reverter exatamente a condição que acalmou os mercados. Essa ambiguidade devolveu ao mercado a mesma incerteza que o memorando deveria ter eliminado. Como explicamos em nossa cobertura sobre o mercado cripto, eventos geopolíticos têm sido o principal vetor de volatilidade para o Bitcoin neste ciclo.

Os cenários para quem investe em cripto

O desdobramento das negociações cria dois caminhos claros para o curto prazo. Um fechamento real do Estreito de Ormuz empurraria o petróleo de volta para cima, aumentaria a aversão a risco global e provavelmente arrastaria o Bitcoin para baixo junto com bolsas e outros ativos de risco.

Já um cessar-fogo duradouro eliminaria esse risco de cauda. O alívio no preço do petróleo reduziria pressões inflacionárias, dando mais espaço para bancos centrais manterem políticas monetárias menos restritivas. Para o Bitcoin, seria o tipo de cenário que sustenta ralis mais longos.

O problema é que nenhum dos dois cenários se confirmou. E enquanto isso, o mercado fica exatamente onde tem passado boa parte de maio: lateralizado, reagindo a manchetes e sem catalisador próprio.

Volume nas exchanges cai ao menor nível em nove meses

Os dados de maio confirmam essa apatia. O volume combinado das exchanges de criptomoedas recuou 3,45%, totalizando US$ 4,41 trilhões no mês. É o menor patamar desde setembro de 2024, quando o mercado ainda digeria os efeitos da consolidação pós-halving.

A queda de volume é consistente com o comportamento lateral do preço. Quando o Bitcoin fica preso em um intervalo estreito, traders de curto prazo reduzem posições e a liquidez se concentra em instrumentos derivativos, não em spot.

Um dado interessante, no entanto, se destaca na contramão: o volume de futuros perpétuos de ativos do mundo real tokenizados (RWA) subiu 10,4% no mesmo período, atingindo uma nova máxima histórica. Isso sugere que, mesmo com o mercado cripto amplo patinando, o segmento de tokenização de ativos reais continua atraindo capital institucional, como já analisamos em matérias anteriores.

Como as altcoins se comportaram na semana

As principais altcoins acompanharam a estabilidade do Bitcoin, com variações modestas. O Ether subiu 0,5% no dia e acumulou alta de 3,3% na semana, sendo negociado a US$ 1.734. Solana avançou 1,5%, cotada a US$ 73, e Tron ganhou 1,2%.

O destaque positivo ficou com o token HYPE da Hyperliquid, que apesar de recuar 2% no domingo, acumulou alta de 14,8% na semana, refletindo o crescimento dos volumes na exchange descentralizada de derivativos. Na ponta negativa, o Dogecoin caiu 4,9% em sete dias, confirmando o enfraquecimento das meme coins em períodos de baixa volatilidade e volume reduzido.

Esse padrão é típico de mercados laterais: tokens com fundamentos operacionais claros, como os ligados a plataformas de derivativos e RWAs, performam melhor do que ativos puramente especulativos. A análise on-chain que fazemos regularmente mostra que esse tipo de rotação tende a se acentuar antes de grandes movimentos direcionais.

O que esperar daqui para frente

O cenário de curto prazo para o Bitcoin depende quase inteiramente de fatores exógenos. As negociações na Suíça são o evento imediato. Se avançarem para um acordo concreto, o mercado tende a precificar uma redução de risco geopolítico e o Bitcoin pode buscar a resistência dos US$ 67 mil a US$ 68 mil.

Se o Irã concretizar a ameaça ao Estreito de Ormuz, a história muda. O petróleo subiria rápido, pressões inflacionárias voltariam à mesa e ativos de risco perderiam suporte. O Bitcoin provavelmente testaria novamente a região dos US$ 60 mil.

O volume declinante sugere que o mercado está esperando por um catalisador, não construindo posição. Isso significa que, quando o rompimento vier, tende a ser rápido. Para quem acompanha o mercado cripto, o momento pede mais atenção a gestão de risco do que a convicção direcional.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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