Criptomoedas

Bitcoin trava em US$ 64 mil: o que Ormuz muda para cripto

Bitcoin oscila perto de US$ 64 mil sem direção clara. A tensão entre EUA e Irã no Estreito de Ormuz define o próximo movimento do mercado cripto.

O Bitcoin fechou a semana praticamente no zero a zero. Depois de subir com o memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, devolveu os ganhos na sexta-feira em meio a uma onda de aversão a risco e se estabilizou perto de US$ 64.200 no fim de semana. Na prática, quem comprou na segunda e segurou até domingo não ganhou nem perdeu nada.

Esse tipo de paralisia tem sido a regra, não a exceção, durante boa parte do mês. O mercado cripto entrou em modo de espera, refém de variáveis que não controla: negociações diplomáticas, fluxo de petróleo e o humor de dois governos com histórico de promessas quebradas.

Por que o Estreito de Ormuz importa para o Bitcoin

O Estreito de Ormuz é o gargalo mais importante do mercado global de energia. Cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo passa por ali. Quando o memorando entre Trump e o Irã sinalizou a reabertura do estreito na semana passada, o barril de petróleo caiu aproximadamente 9%. Ativos de risco, incluindo criptomoedas, subiram no embalo.

Acontece que o Irã emitiu uma nova ordem para fechar o estreito, mesmo enquanto envia negociadores à Suíça para discutir um cessar-fogo permanente com autoridades americanas, incluindo o vice-presidente JD Vance. É uma contradição deliberada: Teerã negocia e ameaça ao mesmo tempo, usando Ormuz como carta na manga.

Para quem investe em cripto, a lógica é simples. Se o estreito fechar de fato, o petróleo dispara, a inflação volta ao radar, e ativos de risco sofrem. Se as negociações avançarem para um acordo duradouro, a pressão sobre commodities energéticas diminui e abre espaço para uma retomada. Como analisamos nesta cobertura sobre o mercado cripto, o Bitcoin tem funcionado cada vez mais como um termômetro de apetite por risco global.

Altcoins refletem a mesma indecisão

O cenário de lateralidade não se limitou ao Bitcoin. O Ether subiu 3,3% na semana, negociado a US$ 1.734, um desempenho modesto. Solana avançou 1,5%, para US$ 73. Tron adicionou 1,2%. São movimentos que não configuram tendência.

O destaque positivo ficou com o HYPE, token da Hyperliquid, que subiu 14,8% na semana, descolando do restante do mercado. Na outra ponta, o Dogecoin liderou as perdas entre as maiores criptomoedas, recuando 4,9% em sete dias.

Esses números reforçam algo que temos acompanhado nas análises de mercado: em momentos de indefinição macro, o capital migra para nichos específicos dentro do universo cripto em vez de impulsionar o mercado como um todo.

Volume nas exchanges cai ao menor nível desde setembro

Outro dado que sustenta a tese de paralisia: em maio, o volume combinado das exchanges caiu 3,45%, para US$ 4,41 trilhões. É o menor patamar desde setembro do ano passado. Menos gente está negociando porque menos gente sabe para que lado apostar.

Na contramão, os volumes de futuros perpétuos de ativos do mundo real (RWA) subiram 10,4%, atingindo uma nova máxima histórica. Isso mostra que, mesmo num mercado travado, existe apetite crescente por tokenização de ativos tradicionais. É um sinal de maturação estrutural do mercado, que continua evoluindo mesmo quando o preço do Bitcoin não sai do lugar.

Essa divergência entre queda no volume geral e alta em nichos como RWA é um padrão que merece atenção. Como discutimos em análises anteriores sobre tokenização, a tese de ativos reais na blockchain ganha tração independente do ciclo de preços das criptos tradicionais.

O que o investidor deve observar nos próximos dias

O desfecho das conversas na Suíça é o catalisador mais imediato. Se Vance e os negociadores iranianos avançarem em direção a um cessar-fogo permanente, o memorando de 60 dias ganha credibilidade e o mercado tende a precificar redução de risco geopolítico. Nesse cenário, petróleo cai mais, dólar perde força e ativos de risco, incluindo cripto, ganham fôlego.

Se as conversas emperrarem, ou pior, se o Irã cumprir a ameaça de fechar Ormuz, o choque de oferta no petróleo recolocaria inflação na mesa. Bancos centrais teriam mais motivos para manter juros altos. O Bitcoin, que já não consegue romper resistências, poderia testar suportes abaixo de US$ 63 mil novamente.

O cenário mais provável, porém, é o meio-termo: negociações se arrastam, ninguém fecha o estreito de verdade, e o mercado continua nessa faixa de US$ 63 mil a US$ 65 mil até o próximo dado ou evento relevante. Para quem opera, é um ambiente que favorece estratégias de range. Para quem investe com horizonte mais longo, é mais um período de acumulação em que a paciência tende a ser recompensada.

A semana mostrou que o Bitcoin não vive mais num vácuo. Geopolítica, petróleo e diplomacia são variáveis tão importantes quanto halving e fluxo de ETFs. Ignorar o que acontece no Estreito de Ormuz é ignorar o que move o preço.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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