Criptomoedas

Bitcoin trava perto de US$ 64 mil com tensão no Estreito de Ormuz

Negociações de cessar-fogo entre EUA e Irã começam na Suíça, mas ameaça renovada de fechar o Estreito de Ormuz mantém o mercado cripto preso em faixa estreita.

O mercado que subiu e desceu para ficar no mesmo lugar

O Bitcoin encerrou o fim de semana negociado ao redor de US$ 64.200, uma alta tímida de 0,9% em 24 horas que, na prática, não mudou nada no acumulado da semana. A dinâmica resume bem o que tem sido o mês para o principal ativo digital: uma sequência de gatilhos geopolíticos que empurram o preço para cima num dia e para baixo no seguinte, sem gerar direção clara.

No início da semana passada, a assinatura de um memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã animou investidores. O petróleo caiu cerca de 9% com a perspectiva de reabertura do Estreito de Ormuz, passagem por onde escoa aproximadamente 20% do petróleo consumido no mundo. Ativos de risco, incluindo criptomoedas, subiram no embalo. Na sexta-feira, porém, um movimento amplo de aversão a risco derrubou o Bitcoin abaixo de US$ 63 mil, devolvendo boa parte do ganho.

Para quem acompanha a tese de que o Bitcoin funciona como termômetro de apetite por risco global, a semana foi ilustrativa. O ativo digital não reagiu a fundamentos próprios, e sim a manchetes sobre geopolítica no Oriente Médio.

Ormuz: o gargalo que move o mercado

O Estreito de Ormuz é um canal com menos de 55 quilômetros de largura no ponto mais estreito, mas funciona como artéria principal do comércio global de energia. Quando o memorando entre Washington e Teerã foi assinado, o mercado precificou rápido uma redução do risco de interrupção nessa rota. O petróleo despencou e ativos de risco respiraram.

O problema é que o Irã renovou a ordem de fechamento do estreito quase simultaneamente ao envio de negociadores para a Suíça. Na prática, Teerã negocia a paz com uma mão e acena com a escalada com a outra. O memorando prevê uma janela de 60 dias para um acordo definitivo, extensível em caso de progresso, mas o sinal contraditório de Teerã esvazia parte da credibilidade do processo.

Para o mercado cripto, a consequência é direta. Um fechamento real de Ormuz empurraria o barril de petróleo para cima, aumentaria a pressão inflacionária global e provavelmente arrastaria ativos de risco para baixo. Um cessar-fogo duradouro, por outro lado, removeria o que analistas chamam de “prêmio geopolítico” do petróleo e abriria espaço para uma pernada de alta em Bitcoin e outros ativos correlacionados ao apetite por risco.

Altcoins: pouca convicção, uma exceção

O cenário de lateralidade do Bitcoin se espalhou pela maioria das altcoins. O Ether subiu 3,3% na semana, negociado a US$ 1.734, enquanto a Solana avançou 1,5% para US$ 73. Tron somou 1,2%. São movimentos discretos que refletem um mercado sem convicção direcional.

A exceção foi o token HYPE, do protocolo Hyperliquid, que acumulou alta de 14,8% na semana, contrariando a tendência geral. O Dogecoin ficou do lado oposto, com queda de 4,9% em sete dias, mostrando que memecoins tendem a sofrer mais em ambientes de baixa liquidez e incerteza, como já abordamos em análises anteriores sobre rotação de capital no mercado cripto.

Volume nas exchanges atinge mínima de nove meses

Um dado que merece atenção é o volume combinado das exchanges em maio: US$ 4,41 trilhões, uma queda de 3,45% em relação a abril e o menor patamar desde setembro de 2024. Menos volume geralmente significa menos convicção, spreads maiores e mais vulnerabilidade a movimentos bruscos causados por eventos externos.

Na contramão, o volume de futuros perpétuos de ativos do mundo real tokenizados (RWA) cresceu 10,4%, atingindo uma nova máxima histórica. O dado é relevante porque sinaliza que, mesmo com o mercado mais amplo perdendo tração, a narrativa de tokenização de ativos reais segue ganhando adesão entre traders sofisticados. Essa divergência entre o mercado geral e o nicho de RWA é um dos movimentos mais interessantes para observar nas próximas semanas, especialmente no contexto de avanços regulatórios globais sobre tokenização.

O que importa daqui para frente

O Bitcoin está preso numa faixa determinada por variáveis que não controla. As negociações em Genebra, lideradas pelo vice-presidente americano JD Vance, são o evento central da semana. Três cenários se desenham.

Se as conversas avançarem de forma concreta e o Irã recuar da ameaça ao Estreito de Ormuz, o petróleo tende a cair ainda mais, a pressão inflacionária diminui e ativos de risco ganham fôlego. Nesse caso, o Bitcoin tem espaço para romper a resistência da faixa dos US$ 65 mil.

Se o impasse se mantiver, com sinais ambíguos de ambos os lados, o cenário atual simplesmente se prolonga. Bitcoin continua oscilando entre US$ 62 mil e US$ 65 mil, com volume decrescente e volatilidade comprimida.

O terceiro cenário, mais adverso, envolve uma ruptura real das negociações e uma tentativa efetiva de fechamento do estreito. Nesse caso, o choque no petróleo atingiria todo o espectro de ativos de risco. Para o Bitcoin, a referência recente é a queda de sexta-feira, que o levou abaixo de US$ 63 mil, mas um evento dessa magnitude poderia testar suportes mais baixos.

Para o investidor de cripto, o recado é claro: enquanto a geopolítica do Oriente Médio não se resolver, o mercado vai continuar reagindo a manchetes. Não é um ambiente para apostas alavancadas ou movimentos impulsivos. É um ambiente para entender o contexto, manter posições condizentes com a própria tolerância ao risco e acompanhar os desdobramentos com atenção.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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